domingo, 12 de abril de 2015

República Federativa do Brasil para Cristo (2)



            Vestiu-se, toda a linguagem corporal anunciava a partida.
            “Vai assim, sem marcar uma ponta, nem pra deixar um contato...”
            “Por que eu deveria correr riscos? Se você me dedurar à polícia de costumes os bíblias me mandam pra fogueira. Pensa um pouco: uma pedra cumprimenta uma tora de madeira, que horas são?”
            “Cinco da matina, você tá sonhando.”
            “Oito.”
            “Por quê?”
            “Oi tora.”
            Saiu do quarto andando felina, no batente da porta voltou o rosto pra me olhar fazendo climinha drama queen como se fosse esta noche a última vez. Havia um tegumento de hipocrisia bufona a recobrir toda a cena, mas não me atrevia a desafiar o quebrante com alguma cagada que pudesse sair pelo lado oposto do cu.
            “Tem mesmo que ser desse jeito?”
            “Somos de mundos diferentes, não podemos fazer nada quanto a isso. Você sabe, sou bruxa, doutorada nas mandingas do Satanás e seus asseclas, melhor se afastar das hostes do Inimigo, meu bem.”
            “Bah, tá me tirando por bem pouco se acha que boto fé nessas histórias do Tutu Marambá...”
            “Sou a sétima filha, aquela que a irmã mais velha recusou batizar, em noite de lua nova, viro coruja e morcego pra vir voando chupar o sangue das crianças que não querem dormir”, e ria, como se fosse a louca que deveras era.
            “E se a gente casasse? Daí ninguém nos incomodaria, você chega sóbria e sai sombria, desocupa dentro de mim espaços infinitos, fala como se acabasse o tempo... e vai embora?!”
            “Nem a pau, Juvenal! Deixo a liberdade vigiada nas ruas e o preconceito das vizinhas, pra cair na frigideira de um pater famílias? Muito obrigado por querer me salvar da solteirice, prefiro não ser respeitável.”
            Fiquei assistindo-a da janela indo embora pela rua vazia domingueira seguida pelo cortejo mais alucinante de tabaréus que já tinha visto. Acompanhando a mulher amada ia um mundão de gente e gado que até dava gostosura de ver: Bastião, Arlequim, Catirina, Capitão Boca-Mole, de misturada com o Caipora, Babau, Jaraguá, Morto-Carregando-o-Vivo, Turtuqué, Pastorinha, Caboclos-de-Fita, Cazumbá, Caboclos-de Pena, e, por fim, a Burrinha, a ema, a cabra, o boi, o cavalo-marinho, agitavam seus maracás junto das “fremosas” coureiras soprando apitos e batucando tambores de fogo, matracas, zabumbas, pandeirões, fazendo urrar o tambor de onça. O mais gozado é que só eu parecia estranhar aquela charanga de hospício a evoluir pelo bairro num fuzuê desembestado que ofendia a celebração dos cultos regulares.
            Era muita coragem se expor assim nos tempos atuais.
As coisas haviam mudado muito no Brasil em pouco tempo, ou talvez estivessem iguais ao que sempre foram e apenas nunca tivéssemos prestado a devida atenção aos acontecimentos antes de se cristalizarem na realidade dos fatos. De segunda maior democracia do mundo havíamos transitado a uma mal disfarçada teocracia de indisfarçável feitio autoritário. Tudo começara com um deputado evangélico que propôs a emenda constitucional pela qual nossa Carta Magna passou a exibir em seu parágrafo inicial: “Todo poder emana de Deus”. Depois foram as revisões nos códigos jurídicos, começaram banindo o aborto, mesmo de fetos anencefálicos ou frutos de estupro, então veio o fim da maioridade penal, a pena de morte, a proibição do homossexualismo e do sexo fora do casamento religioso, além da definição de família como unidade indissolúvel constituída por homem, mulher e filhos biológicos.
O que antigamente chamávamos de esquerda a tudo isto assistiu catatônica e mais preocupada em manter seus feudos políticos e acadêmicos, enquanto se defendia árdua e custosamente das suas muitas pendências com a justiça. Lideranças outrora consideradas progressistas haviam dissipado seu capital moral em sucessivos governos desastrosos e corruptos consorciando-se, no plano nacional, ao crime organizado, ao grande capital rentista, às milícias missionárias e ao exército, enquanto no plano internacional nos mantínhamos firmes no irrelevante papel de narcoestado exportador de matérias primas.
O fracasso não assumido do modelo brasileiro ― um peculiar capitalismo patrimonialista de Estado ―, cozinhou em fogo baixo as expectativas da nação, a capacidade de inovar, de sustentar uma agenda criativa e socialmente igualitária, degenerando num ambiente hostil onde predominava a sensação de desperdício de oportunidades, se multiplicavam as gerações perdidas, adiando pras calendas a construção do futuro. Em cada esquina um templo e uma biqueira: Deus, drogas e armas. A turma BBB (banco, bala e bíblia) caçava abertamente os PPPs (pretos, pobres e periféricos), e ainda sobrava diversão pra cima de gays, lésbicas, transgêneros, espíritas, umbandistas e mulheres.
Chegamos ao futuro, e o futuro tem cada vez mais a nossa cara. Os donos do dinheiro transnacional olham com benevolência crescente os experimentos neo-autoritários da antiga periferia do mundo: Brasil, Rússia, China, Índia, Irã, países ainda mais complacentes ao jogo bruto do capital desregulamentado do que as velhas democracias representativas.
Ela desapareceu no horizonte.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

República Federativa do Brasil para Cristo (1)




Dois de fevereiro de dois mil e vinte

            Bem, aquilo era precioso ao extremo, singular, e ao mesmo tempo estava em toda parte, amazônico, de enorme complexidade e ainda assim sutil em sua despretensão, o som do isolamento que alcança milhões, desavergonhado e inevitável como uma pedra arremessada na superfície de um lago imensamente azul, suas ondas se propagando excêntricas em mim alargando sempre mais onde antes havia borda, fronteira, desconhecido.
            Havia ali uma atmosfera exótica desprovida de qualquer réstia de consolo, muito menos humor, mas ela queria compartilhar a riqueza de alma, a consciência do infinito, e a extraordinária qualidade de constantemente revelar mais de si àqueles que se dedicam a conhecer por meio da arte. Talvez estivesse dizendo: se você também gostar disto, então temos alguma chance.
            “Quanto menos palavras você usar, mais intenso o diálogo”, ela disse, e depois se sentou.
            E, de fato, era uma conversa entre seis elementos, porém, as sílabas tinham sido magicamente compactadas encavalando respirações e pausas, dissolvendo o diálogo no puro som de um discurso sem fala, como se as palavras retornassem para as coisas transformadas na mais refinada paisagem sonora que o humano pode suportar. O símbolo inoculado na carne obedecendo a uma equação de tempo e calor: ovo, pupa, larva, a se desenvolver até eclodir em música ambiente.
            Eu queria acreditar que tínhamos um relacionamento. Acabáramos de fazer sexo, ela estava sentada numa poltrona ao lado da cama vestida com a minha camisa, me lembro do cheiro de couro velho e de estar incrivelmente apaixonado. Mas ela não se deixava limitar por mucosas, afeto ou idéia, aspirava ao processo orgânico completo da harmonia lenta, sedutora, sombria, meditativa, luminosa e inescapável, descobrira o desejo de mudar o cenário emocional da vida.
            “Isto foi concebido sem ensaios no porão de uma igreja, todas as sensibilidades individuais apontando pra dentro, convergindo num multifoco interior de concentração e feitiço, de introspecção e reflexão em níveis tais que o clima por si só se transforma em obra de arte”.
            Não duvidei. Reconhecia a habilidade em combinar modais sofisticados com uma atmosfera minimalista, extática, quase hipnótica, especialmente me agradava o cuidado com a compreensão do espaço dentro da música, a coesão do clima que ela transmite, a vontade de criar um mundo contemplativo no qual a alma dos perplexos podia encontrar repouso. Os temas improvisados, a complexa progressão de acordes, cada nota tocada, pareciam se alongar indefinidamente repletos de melancolia perturbadora e do rigor suave dos calígrafos japoneses que passam um dia inteiro preparando pincéis e tintas antes de executar o mais delicado dos ideogramas num único, e indelével, traço.
            “A gente corre perigo, você sabe”, disse, já me arrependendo antes de terminar a frase.
            “Você não, eu sim. Você é filho da turma BBB, pra você pega nada. A verdade é que nunca vai poder me amar como ama uma mulher, um travesti, um pobre, um bandido. Sempre vai pensar como o homem que é”.
            “Nisso tem razão, sim. Sigo sempre a cabeça de baixo, a de cima votava errado pra caramba”.
            O que essa música quer de mim?
O que aquela mulher parecia me pedir tão além das minhas forças e possibilidades? Era a primeira vez que escutava aqueles 45 minutos e 44 segundos de música gravados em 1959 no porão de uma igreja transformada em estúdio no centro de Manhattan. Kind of blue. A cor do céu, o tom da modernidade é uma deslumbrante paleta de azuis, como em Picasso, Yves Klein, Matisse ou James Brown. Tudo que podia distinguir eram camadas harmônicas, talvez apenas um acorde recheado de notas em legato, um desgarramento do ciclo convencional de acordes substituídos por uma série de harmonias lentas, até repetitivas, a dinamitar com doçura os velhos parâmetros de ação e pensamento. Havia ali definitivamente uma essência que se revela mas permanece intocada, um raro instante de perfeição humana, de algo que nunca precisa erguer a voz para se fazer ouvir, e fala cada vez mais claramente com o passar dos anos.



sábado, 21 de março de 2015

o amor é uma fome do outro




dos teus lábios partiram

naves

espaciais mares desfeitos

e ventos

abriam súbitos horizontes

e

por instantes sob

as copas

da floresta embaixo de chuva

as tormentas desabando

dos topos

nevados das montanhas sobre

as brincadeiras

das crianças havia então

aqueles

vales risonhos onde o sol quarava

os anos

parcos da vida humana

leves

mais leves que o balançar da folha

de grama

e esse continente ignoto esperou

por nós

pois trazíamos o amor a juventude

do amor

seu sentido para sempre

oculto a desmemoriada

esperança



domingo, 15 de março de 2015

também os vestidos começaram nus





e porque isso sonha

ô você que dorme

em mim

com quantas sombras

me sonhas?



ou porque isso some

ô você que soa

dentro

da mente qual rosto

recordas?



porque se isso nunca

dorme

qual sonho sonha

o eu que acorda?



quinta-feira, 5 de março de 2015

poeira de um volume morto




vem correr por caminhos selvagens nu como a floresta
suprimida
remoinhar com areia e pó quando a tormenta diz
bem vinda
alma não temas aqui somente espírito entre espíritos
e cinzas

mergulha no coração granítico inaudita cidade
e grita
eu rio eu mar eu pássaro eu céu porque sou
tal
quando nasci de chão e água e pedra
diamantina

vem ser rio e correr onde o meu coração
apodrece
viciado no ar sem ossos ocioso
deserto
poente de um velho vento
amarelo

eu quero respirar o mundo ver e saber como
os pássaros
aprender a música das ervas encontrar
a hora
turva cor de angústia

eu quero antes de tudo o mar a grande muralha
deitada
espírito líquido e lascivo de milhões de braços
enormidade
força gesto revolta destrutiva
e diluviana

a seca o pó a areia o horizonte deserto
o vazio
sempre foram máquinas de mística
memória
eu vi a chuva cair lentamente
e juro
murmurava
poeira
poeira
poeira


segunda-feira, 2 de março de 2015

a polícia das famílias - fim



As pessoas pensam que brincar de boneca é de qualquer jeito uma coisa tipo mega facinha uma boa maneira de meninas ficarem quietas num canto sem incomodar mas não é nada disso: você tem que montar uma cena de verdade com as bonecas que tiver porque não há nada mais sério do que brincar ― a história precisa ser bem contada senão cai a casa as bonecas e você junto.

Outro dia a caçula me disse que viu o pingolim do amigo da escola e que era pequeno daí perguntei: “Pequeno comparado com...?” e a fedelha respondeu que não sabia mas depois confessou que tinha visto uma vez o papai no banheiro e ficou assustada porque o dele era grande e escuro e cheio de pelos igual um monstro.

Daí apertei ela e perguntei porque ela tava tão preocupada com essas coisas e aí confessou que só queria saber quando o pinto dela ia crescer e disse bem assim: “Eu não quero ficar menina pra sempre, ser menina é muito chato”, “Quer dizer que você acha tipo assim que essa é uma coisa que cresce na gente e numa hora você é mulher e depois deixa de ser?”, “Quando eu crescer quero ser menino como o Joesley”.

“De onde você tirou essa tontice?” “A Maria e a Rafaela me disseram que é verdade, tá?” Acha que adiantou dizer pra ela que o Joesley não é menino mas um homem e por isso que ele é monitor da escola e que meninas pequenas e tontas não viram homens fortes e grandes? Foi quando soltaram no ar o Grande Dragão da Mentira.

Não há como tirar uma idéia louca de um monte de cabeça oca depois que as três malucas começaram a falar aquelas coisas horríveis do moço a escola ficou parecida com a minha casa silêncio e tensão todo mundo nervoso um lamaçal gosmento de mentiras e enredos e partidos que se dividiam a favor ou contra ele.

São duas torcidas de futebol: uma que abraça a loucura de olhos fechados e os outros que só abrem um olho e ainda piscam. Prenderam o Joesley coitado eu sabia de tudo sabia que era uma brincadeira boba de meninas bobas que os pais queriam acreditar porque em terra de saci qualquer chute é voadora. Pedi pra falar com a diretora da escola fiquei uma hora esperando na porta dela.

“Sua irmã, a Rafa e a Mari estão mentindo? E por que elas fariam isso?” “A senhora precisa entender, é uma coisa de... bem, de criança. Ela me contou que ele não mostrou o pipi, que ela tinha falado bobagem junto com as amigas e se arrependeu”. Nessa hora a diretora tirou os óculos e me olhou bem no fundo: “Isso aconteceu sim”.

Fiquei sem dormir quando a polícia levou ele e agora a juíza mandou prender o Joesley a prisão é um lugar horrível e ele deve estar se sentindo sozinho e injustiçado porque ele também sabe como eu sei que não fez nada. As câmeras da escola mostram ele longe do lugar onde elas falaram que tinha acontecido e mesmo assim alguém pode ser preso?

Barbaridades acontecem todos os dias na televisão mas na vida real são ainda piores porque só as crianças choram por causa disso. Acho que a família do monitor e ele deve também chorar muito eu ia chorar o tempo todo na prisão mas não acho que me soltariam mesmo assim.

Você pega uma moeda e joga no cara-ou-coroa cara faz assim coroa faz assado e na maior parte das vezes isso não faz diferença nenhuma você resolve só com metade da verdade. Mas as coisas complicadas precisam dos dois lados da moeda porque tem as coisas de sim ― e o só que não.

Ainda não sei contar histórias tão bonitas como as do meu livro As Mais Belas Lendas Chinesas mas já sei escrever e eu não vou parar enquanto alguém não me escutar.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

a polícia das famílias - III



O meu pai e a minha mãe têm brigas medonhas.

Antes da minha irmã nascer a Cida me trancava no armário de Nárnia até passar as ondas de fúria depois ficou pior ainda porque a bebê ficava berrando junto no quarto e daí sim aquilo parecia uma casa de bonecas loucas. O medo de alguém menor que eu deu mais medo em mim porque então descobri que eles não iam parar.

A confusão sempre começa pelos motivos mais bestas e dura horas de berraria pancadas na parede choro pedidos de perdão portas batendo e o sentimento que qualquer coisa pode acontecer. Fico só pensando se existem filmes de terror que dão tanto frio na barriga como sinto nesses dias.

Uma camisa que não estava passada, outro dia foi assim que começou. Por que será que papai e mamãe não ligam pras coisas importantes de verdade? Brigam como se a vida deles não tivessem escolhido direito, tem milhões de coisas acontecendo todos os dias muitas delas são coisas boas e mágicas mas preferem dizer: “A culpa é toda sua”.

“O pai de vocês trabalha muito está sempre cansado e precisa fazer muitas viagens pelo mundo todo por isso às vezes ele fica estressado e grita”, é sempre o que a mamãe fala pra gente quando acalma a berração. Eu já disse a ela que não adianta porque a piveta não pesca nada faz xixi na cama e fica doente a toda hora se não é uma coisa é outra sempre tomando remédio.

A pequenininha é nervosa e atrapalhada faz muita asneira porque dorme pouco e tem intolerância ao leite, além disso ela não entendeu nada do desenho que o papai fez na lousa do quarto. Ele desenhou com giz amarelo a mamãe caindo da escada e quebrando o braço em vermelho assim quando perguntassem pra nós a gente ia saber responder mas ela não conseguia parar de piscar os olhos assustada.

Já tenho quase nove anos, sei um monte de coisas.

E uma coisa eu aprendi e é nunca responder o que não te perguntaram mas adianta explicar isso pra coisinha tosca da sua irmã menor? Ela só tem que fazer como eu e se acostumar porque as coisas nesta casa são deste jeito e não de outro e porque senão pra quê que ia ter telefone de reclamação na caixa dos brinquedos?

Se até brinquedo vem com defeito também vai ter família que vem faltando peça e nem adianta queixar porque já tem tanta gente sem pai e sem mãe que ninguém vai se preocupar com quem tem. Eu aprendi também a esperar, esperar pelo dia em que não vão mais mandar em mim porque sou pequena só que esperar é a coisa mais difícil de agüentar os velhos têm mais paciência de esperar porque não esperam mais nada.

Lá na minha escola tá a maior confusão tudo por causa da minha irmã e das duas amigas dela que saíram falando mais que a boca e é só besteira pra todo lado. Acontece que eu tenho a CERTEZA que nada daquilo é verdade e mesmo assim tomei um cala-boca já que agora esse assunto é dos adultos e eles gostam mais de aumentar do que resolver as complicações.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

a polícia das famílias - II




A Luzinete, a moça que cuida da minha irmã, falou que já acabou a hora do parquinho, é a hora que eu menos gosto do dia: voltar pra casa. Pra começar a gente mora num apartamento diferente das outras pessoas, grande, vazio, nunca toca música, ninguém faz barulho, e a mamãe deixa tudo muito arrumado.

Arrumado DEMAIS, nada na nossa casa nunca sai do lugar certo. Um lugar pra cada coisa, cada coisa em seu lugar, ela vive falando. Mamãe é muito, muito nervosa, tem mania de arrumação e limpeza, toda vez que ela tá no computador eu vejo ela estudando sobre germes e bactérias. Ela se tranca no quarto pra chorar.

Tem três moças que trabalham aqui, a Luzinete, a Marilda e a Cida, elas têm que lavar as mãos a toda hora com álcool-gel senão vão pra rua. A Cida é a mais faladeira, que eu gosto mais também, outro dia ouvi ela dizendo que a mamãe não tem vida, que ela vive encaramujada neste apartamento.

Encaramujada, nunca tinha ouvido essa palavra mas entendi na hora o significado. Tem palavras que são assim, explicam logo de uma vez, outras a gente nem percebe de tão fáceis, e algumas são como as bolhas de sabão: quando a gente acha que pegou elas, elas estouram na nossa cara e fazem cócegas no nariz.

Eu acredito nas palavras, mas não acredito nas pessoas porque as pessoas têm a mania de falar uma coisa e fazer outra. Se o mundo fosse feito de palavras que só querem dizer uma coisa não seria todo torto como é. A minha mãe não deixa ninguém falar palavrão, ela diz que é muito feio. Só o papai às vezes fala um monte de palavrões.

Quando eu era bem pequena, minha irmã ainda era bebê, eu ficava tentando fazer o tempo parar. Nunca consegui. Tudo por causa da Cida que ficava me dizendo que eu podia fazer a mágica de “sumir com a hora”, ela me dava um relógio velho e me dizia pra ficar quietinha dentro do armário. O tempo que eu agüentasse não tinha passado de verdade, era pra sempre só meu.

Demorei muito até entender que os outros relógios não tinham parado enquanto eu me escondia, as coisas todas continuavam a acontecer e só comigo não tinha acontecido nada. Acho que era o jeito da Cida me proteger, ou sei lá, ela é assim mesmo, cheia de potocas e histórias da loira do banheiro.

Mas não desisti, mudei só o caminho de chegar aonde eu quero: se não posso parar o tempo do relógio, vou parar o tempo em mim. Porque ficar igual aos adultos é que não vou, de jeito e maneira, não vou namorar, não vou casar, não vou ter filhos, não vou ficar velhinha ― se deixarem, nem morrer eu vou porque viro estrela de purpurina.

Se fosse perguntar ninguém gostaria de crescer e virar grande, as pessoas apenas deixam isso acontecer por falta de imaginação e cansaço e também preguiça. Quando eu olho à minha volta vejo que as crianças são todas diferentes, mas os adultos parecem muito iguais, como se tivessem desaprendido a coisa importante que sabiam.

Gente grande parece que gosta de resolver um problema criando outro maior ainda. Não falha nunca. As coisas estão dando errado? Faz mais um pouco do mesmo que estava fazendo antes, e se mesmo assim tá zoado, continua, porque o importante é que uma idéia esteja certa mesmo se o mundo tem que ficar de ponta cabeça.

Pois é, mas foi direitinho o que aconteceu aqui em casa quando a minha irmã acabou criando uma baita confusão. Eu tenho certeza que aquele moço não fez nada, mas ninguém nem quer me ouvir.


domingo, 8 de fevereiro de 2015

a polícia das famílias - I



Você está enchendo um copo com água, enche até chegar à borda, continua a encher, agora a água cai sobre a mesa, molha a mesa e cai de novo, daí escorre pelo chão que também fica molhado, você continua a derramar até que toda a casa fica inundada embaixo da água como um aquário.

Então, aquele copo já nem tem mais importância porque as coisas dentro da casa estão flutuando soltas, nada fica no mesmo lugar e ninguém vai se lembrar onde tudo começou. As coisas grandes começam pequenas, as pessoas grandes também, o que não muda é o esquecimento do começo.

Eu tenho um livro de lendas chinesas lindo, cheio de ilustrações coloridas, sempre releio as histórias que mais gosto por isso nunca consigo terminar de ler esse livro embora ele seja o meu preferido. Não entendo muito algumas partes, mas tem uma história que adoro demais: “Querer ir para o Sul com a carruagem que segue para o Norte”.

Os meus pais, os pais dos meus pais, as tias da escola, os adultos todos que eu conheço, parecem o rei que pra ter paz começa uma guerra. O mundo não deveria estar nas mãos da gente grande, eles fazem tudo ao contrário e nada dá certo, ainda assim continuam errando da mesma maneira, nunca explicam nada direito, nem gostam de ouvir respostas óbvias ou diferentes do que esperavam. O imperador da China sim é que era esperto.

Mamãe foi chamada na escola porque as professoras acham estranho eu desenhar a minha casa embaixo da água e bater nos meninos. Falaram pra minha mãe me levar na psicóloga, mas eu sei que ela não vai fazer. Os meninos mais fortes batem e mordem todo mundo, mas quando uma menina responde é porque alguma coisa está errada.

Minha irmãzinha menor tem cinco anos, é uma boba alegre, coitada, macaquinha de imitação em tudo que eu faço, e os outros também ela imita porque só sabe fazer é repetir. Brinca, apanha, chora, e volta a brincar com quem acabou de bater nela. Isso ela não conseguiu aprender comigo: quando alguém me machuca, eu machuco de volta.

As outras crianças não chegam muito perto de mim, uma menina que sobe em árvore, anda sempre com livros e não quer ser princesa... Não ligo muito porque assim me deixam em paz. Vale a pena. Daqui do banco onde estou sentada com o meu livro vejo a minha irmã brincar.

Ela tem uma tala no braço esquerdo, mas isso não atrapalha ela correr pelo gramado com os amigos que conheceu agora na praça. É sempre a mesma história, daqui a pouco vai ter chororô e a babá vai se levantar pra ver o que foi. Quando ela caiu do balanço e quebrou o braço foi aquele berreiro, mas ela já esqueceu.

Isso a pirralha tem que eu não tenho: ela esquece as coisas.

Os pequenos somem entre os ramos do chorão brincando de polícia e ladrão, no fim do dia minha irmã vai ficar cheia de picadas de bichos e vai ter que passar pomada no corpo todo porque ela é muito alérgica. Já faz tempo que eu decidi que vou ser polícia quando crescer.

Só que não vou ser da polícia igual às outras que andam nas ruas de carro ou de moto, vou vigiar dentro das casas porque até hoje ainda não inventaram uma polícia das famílias. Tudo começa em casa.



domingo, 1 de fevereiro de 2015

Perivaldo e Cecivânia (fim)


Massas negras haviam estacionado sobre os céus, empurradas pela ventania inicial, nuvens maciças como bigornas perfilavam belicosamente suas colossais torres de guerra ameaçando envolver a cidade na batalha final do Armaggedon. Enquanto desciam o downhill mais alucinante das suas vidas em slalon pelas ruas e vielas sentiram nitidamente aquele aperto no peito que paralisa todos os seres vivos no preciso instante em que a pressão atmosférica despenca anunciando a tempestade. Fez-se a noite com sol a pino, um clarão repentino devolveu a luz do dia ao dia, encolheram o corpo instintivamente abaixando a cabeça na espera do trovão que veio rugindo e ribombando junto com as primeiras bagas grossas de granizo e chuva. O temporal anunciado desde cedo desabou com força de catástrofe.
Mas os problemas dos dois jovens não paravam por aí. O Aristeu tinha dado a letra, os tiras farejaram negócio, e a fita foi passada ao trafica que ofereceu um agrado pros civis trazerem o pacote pra ele, porém, cabrero de pagar duas vezes pelo mesmo serviço, botou o Magaiver na cola do moleque. Pelo sim, pelo não.
A diferença é que este último não estava nem aí pra hora do Brasil, pilotava moto à vera e não perdeu a pista deles na perseguição, cheiradaço, vinha com tudo no cavalo doido cuspindo baba e feroz feito pit bull de rinha, pronto a saltar-lhes no pescoço na primeira marcada de touca que dessem. Já encaixada na agulha da automática trazia a bala com o nome do Peri, mas não se incomodaria de gastar prego com a mina se ela resolvesse engrossar o caldo. Magaiver não fazia serviço pela metade.
― Xi, moiou pro nosso lado Ceci, tem um profissão perigo na nossa captura!
― O quê?! Não tou ouvindo nada com essa chuva!
― Firmê, tamo quase na Facó, temos que ir pra pista da esquerda e seguir na contramão, longe do cara. Ói lá, se liga no berro da cintura dele, aquele ali da moto, tá na cola da gente faz uma cota.
O bandido sacou de cara a manobra que tentavam, na calçada do outro lado da larga avenida trafegariam a salvo dele protegidos atrás do mar de carros presos no congestionamento da via já alagada pelo dilúvio.
― Peri, ele tá vindo pra cima do canteiro central, vai conseguir atravessar logo mais!
― Tô vendo, mantém a cabeça baixa Ceci, esse maluco não tem medo de mandar bala no meio do melê!
― Cê não tava brincando mesmo: polícia e ladrão atrás de um moleque só, é ruim, heim?!
A avenida general Edgar Facó é uma das tantas a engolir a hidrografia original da cidade, no caso, o ribeirão Verde, cujo canal cimentado em alguns pontos desaparece sob pequenas praças que servem de cruzamento para vias transversais e também como alças de retorno. Num destes acessos Magaiver cruzou para a calçada da pista oposta e começou a disparar na direção deles, o barulho da chuva abafava os tiros mas viam distintamente os clarões da arma.
― Puta que pariu, tá atirando em nós, tá atirando!
― Minha nossa, ali em frente alagou de vez. Vamos a pé, Ceci!
― Sim, mas esse matusquela vai continuar a vir do mesmo jeito. Vixe, ali adiante é o rio, tá tudo alagado!
Peri estremeceu, ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira do rio que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas sujas, ia perder-se no fundo enegrecido da marginal Tietê. Catou um sofá arrastado na enxurrada e montou nele agarrado a Ceci, na superfície coalhada de entulho rolava um som cavernoso semelhante a uma cachoeira precipitando-se do alto de rochedos. Viram seu perseguidor ser engolido na torrente furiosa e desaparecer no mar de lama.
Atingiram a região do cruzamento das marginais, os viadutos do Cebolão pareciam estranhamente baixos devido à subida do rio; não era mais uma trovoada, ou um temporal, sabiam agora que estavam sendo carregados por uma tromba d’água furiosa e sem freios. Pouco acima do nível das águas elevava-se uma imponente palmeira imperial a cujas folhas se agarraram, aninhando-se em sua copa. Não havia mais como fugir, os céus bramiam sacudidos por estampidos brutais e o mar barrento precipitava-se em vagas que arrastavam carros, ônibus e pedaços de concreto como brinquedos de criança.
Séculos de barbaridades urbanísticas eram vingados pelo enorme Boitatá das profundezas que mordia a raiz dos prédios e avenidas, arremessando tudo no turbilhão, girando a cauda imensa, apertando nas mil voltas dos seus anéis, a cidade assustada e rendida às margens da caravana da destruição. Tudo era uma mesma água e céu escuro. A inundação tinha devorado as margens do rio até onde as trevas deixavam ver, árvores estalavam ao ser arrancadas pela raiz ou partidas pelo tronco. A palmeira não resistiu: sua copa saltou num golpe, Peri e Ceci viajavam à deriva na corola de um lótus gigantesco feito de folhas de palmeira.
― Quero te beijar!
― O quê?!
― Quero te beijar Peri, se for pra morrer que seja juntinho!
― Beijar sim, morrer nem fudendo! Meu, agora que achei você nada vai me tirar, nada.
O hálito de um aquecia o rosto do outro, eles sorriam, os lábios se abriram como asas purpúreas de um beija-flor em pleno vôo. A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia.
E sumiu no horizonte.