segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#2)


― Fica sussa, chefe, do jeito que as ruas tão, o menor dos problemas nesse bonde vou ser eu, garanto.
Entretanto, a chuva parou.
Num ponto o mercenário acertava, desde o surgimento do Leviathan m. muito havia mudado lá fora, para além dos muros lacrados dos viveiros humanos ― tínhamos perdido o território.
A cidadela caiu em toda parte, sob o impacto da catástrofe biológica, o conjunto da humanidade experimentava um retorno dramático às condições reinantes na origem da espécie: isolamento, população reduzida, escassa dominância sobre os outros animais.
Alguns milhões de pessoas foram devoradas pelos seus próprios pets antes que a nova situação religasse nas massas o pavor da natureza selvagem. A expansão sem freios da Natura naturans.
Abrem-se os portões da Colônia Cecília.
Os veículos saem rapidamente para o meio do asfalto, executam uma curva à direita em alta velocidade, acelerando no aclive suave da rua curta. Pilotando o jipe, Rebeca dá cobertura andando na frente do caminhão carregado de frutas e grãos.
― Uhu! Barra limpa, mano, a hora é essa!
― É bom começar sem vento contra, mas a viagem á longa. Difícil não ter problemas com os penosos levando tanta comida...
― Hmm, certo... até galinha virou problema. Escuta, este corre é food for drugs, não é? ― Beca não se gastava em voltas pra chegar onde queria.
Food for aid. Estamos com baixos estoques de medicação contínua, sou contra arriscar soldados nisso. Nem mesmo acho bonito gastar estoque com bagulho, por mim, só mandaria drones atrás dessas pragas.
― Ah, você sabe que aqui perto só tem mercadoria de baixa qualidade... mas não é o que falam do Galpão, lá rola o isômero D, o mais, mais.
― Sei que falam do Dr. W toda essa asneira de metanfetamina, mas comigo nunca nem me propuseram missões do tipo ― Ernaldo mentia, a verdade é que não lhe deram muita escolha.
― Pô cara, queria te dizer, mó respeito...
― Que é isso, tá me estranhando?
― Nem um pouco, mano, cê sabe que cê é uma lenda viva.
― Sai pra lá Rebeca, corta esse mimimi, não tem lenda não, só tem estar vivo. Estrela neste esporte não chega a vovô.
― Você chegou aonde ninguém chegou.
― Pode ser, mas juro, não foi me achando o rei da cocada que fiquei vivo até agora.
― E esse Dárius, hem? Não parece amar demais a própria pele, tem pinta de maluco de dar com pau em pedra...
― Por isso que resolvi não ir no carro com ele, vou dormir na mira desse cara. A conta dele não fecha.
― Se pisar na bola com a Pernilla, deixa eu finalizar ele. Trato?
Riram.
Mas a mortadela insistia em voltar à sua boca, odiava ter de mentir para os seus homens. Já não podia escolher muito, lembraram-no disso. Estava ficando velho. Tinha de engolir Dárius e tudo mais que lhe mandassem, compreendera que não ia sobreviver a uma sala fechada com a mesa cheia de papéis, não se via vinte e quatro horas por dia enredado na política da Colônia.
Os problemas começaram ao deixar as ruas secundárias, perto do entroncamento da via principal, ao sul, o asfalto quase desaparecia no primeiro trecho aberto do caminho. O off road precisou abandonar o seu posto de observação na esquina para ajudar no desatolamento.
Neste momento, ouviram os latidos vindos do fundo da avenida. Uma matilha enorme, faminta e em disparada.
Rebeca pulou na cabine, Ernaldo se trancou no cockpit traseiro, testando duas vezes a ignição do lança-chamas. Ajustou o laser. Arrancaram na direção do bando, dispunham de pouco tempo até serem alcançados e precisavam criar uma distração ― sem se deixar capturar, o que era menos evidente, já que a velocidade do carro era um nada superior à dos cães.
Poucos pilotos executavam tão bem a manobra em U: Rebeca dirigiu a toda a velocidade na direção da cachorrada, trafegando bem aberta pela direita do asfalto; a poucos metros deles, deu um cavalo de pau de trazer o café da manhã junto com os bofes pra fora. Naldo ficou de frente para um mar de focinhos arreganhados, rosnando enlouquecidamente.
― Quipariu, Rebeca, cê precisava chegar tão perto?!
― Vamo, cara, aciona logo essa porra de apito!!
Mandou um jato de chamas nos vira latas que quase encostavam na carroceria, e se virou para alcançar o Silent Dog Whistler. Rosqueou o tubo na posição três, soltou dois silvos curtos, agudíssimos, praticamente inaudíveis: pii-pii. A matilha parou de repente, como na brincadeira de estátua.
― Força Beca, pé embaixo mulher, a bobeira deles não vai demorar pra passar...
― Segura, peão, que nós vamo fritar pneu!
Refeitos do susto, os cães retomaram a perseguição. Problemão: os companheiros só agora conseguiam pôr a jamanta em marcha no atoleiro deixado pela chuva. A falange canina se dividira em duas, a maior parte perseguia-os de perto, um grupo menor dava caça ao caminhão. O lança-chamas de Dárius falhou, obrigando-o a gastar toda a sua cota de granadas nos mais próximos. Equilibrando-se com dificuldade na caçamba, ele lutava no corpo a corpo, golpeando com arpões e lâminas, alvejando o laser nos olhos da canzoada.


Um comentário:

angela disse...

Ô vida de cão!!