terça-feira, 24 de maio de 2011

o menino quer acordar - parte 2

“Agosto de 1354. O intrépido almirante genovês Emilio da Medici acaba de infligir um duro golpe ao império do leão marinho, causando pânico e destruição na cidade aliada de Parenzo e já ameaça o próprio centro dos seus vastos domínios marítimos. As galeras do inimigo rondam ao largo de Veneza como feras predadoras sedentas de sangue, o povo se reúne nas igrejas e praças da cidade esperando pelo pior. Da Medici, conhecido como Garra Azul, é famoso por não fazer prisioneiros. No porto de San Nicolò, o populacho e os nobres membros da Signoria tentam, em esforço desesperado, bloquear a entrada do Gran Canale afundando barcos, gigantescas toras e barrotes de madeira ligados por pesadas correntes de ferro.

E quando tudo parecia não poder piorar, o Doge Tancredo Nivio morre repentinamente durante suas preces matinais. Os poderosos armadores e banqueiros do Rialto se perguntam quem poderá lhes valer, quem seria o homem forte a guiar os destinos da Serenissima Repubblica em hora tão extrema? Então, faz-se ouvir a voz do multifário conselheiro Giuseppe Dirceo: ‘Não será entre vós que encontrareis tal homem; olhai para o norte, até Avignon, para onde mandastes Antonio Palocci congratular o recém-empossado Papa Inocente’. Assim lhes falou e, contentes, pronto equiparam uma frota com a qual o novo Doge arrostaria o oceano para oferecer combate aos genoveses.

Grande foi o acerto do avisado consigliere, Antonio Palocci não só era um experimentado comandante, temperado nas duras batalhas do Levante, como era amado pelos venezianos, que o tratavam afetuosamente por Tonino, il caro contino. Após cruenta luta, na qual muitos barcos e vidas foram tragadas pelas frias águas do mar Adriático, a frota adversária foi obrigada a fugir desbaratada por impiedosa tunda. Salva estava a pátria, festejos eclodiram em extemporâneo carnaval que se alongou por uma semana de licenciosidades e regozijo. Mas, para Dirceo, o jogo estava só começando, sabia ele que o velho comandante era viúvo, o que não quadrava bem ao líder máximo da cidade-estado. Planejava apresentá-lo imediatamente à deslumbrante Anunziatta.”


“A riqueza do pobre são os filhos.
Nós éramos bem pobres. Nove filhos, onze bocas para dar de comer. Uma vida dura, mas cuja dureza era atenuada pela sensação, que trazia em si uma espécie de orgulho, de estarmos juntos no mesmo barco. No mesmo barco. Acho que a canoa virou nos anos que antecederam ao nascimento da minha irmã caçula; antes da Neuda, mamãe perdeu um bebê recém-nascido. Meus pais nunca mais foram os mesmos.

Os filhos nasciam em casa. Vinha a parteira, dona Ermínia, uma senhora bem velhinha, rezadeira que também tirava quebrante, e a molecada saía, espalhada na casa de um e outro parente. Nessas ocasiões sempre me mandavam para a casa da vó Balbina, eu era o xodó dela. Isso, a Neuda nunca aceitou.

Estou na casa da minha avó, mas já sou adulta, no entanto, ela e o meu avô falam aos cochichos, como faziam nos acontecimentos sérios que as crianças não podiam saber. Meu avô deixa escapar que tinha sido melhor assim, já que meu pai estava desempregado. Minha avó, sentada numa cadeira desproporcionalmente alta, assente: ‘Deus, em Sua imensa misericórdia, há de perdoar... num transe destes, não havia outra coisa a fazer...’

Uma escuridão sobe do assoalho e engole toda a cena. No instante seguinte, já estou na sala da nossa casa, mamãe está passando pilhas e pilhas de roupa com o ferro de carvão. O cheiro de madeira queimada me envolve numa névoa de lembranças descabeladas. Mas algo corre mal.

Minha mãe, desconsolada, os olhos muito fundos empapados no rosto magro de mamãe, a sombra da tristeza de mamãe que cairia durante anos infinitos sobre toda a nossa família. Ao menos para mim, até ali, tínhamos sido tão felizes...
O retrato do bebê na parede parece muito maior do que antes. Será possível que nunca tivesse reparado nisso? Neuda está na sala, ao lado de mamãe, como foi a vida toda."


Conhecer o sonho das outras pessoas é conhecer a toca do coelho, é ganhar uma chave que dá acesso aos bastidores daquilo que elas desejam, coisa que, em geral, são as primeiras a desconhecer. Percebi que quase todo mundo utiliza dois tipos de mapas caolhos: poucos entendem o tempo e o lugar onde estão, e menos ainda são os que sabem quem realmente são. Por isso é que somos tão facilmente manipulados.

No princípio, gostei de fazer o papel de menino precoce, bancar o sabe-tudo; cheguei a aparecer na TV, era um daqueles meninos-prodígio de programas de auditório, um menino-monstro; na real, todas as crianças ficam meio monstruosas na televisão. Virar uma espécie de aberração de circo mambembe acabou me cansando; acordados, os seres humanos na maioria das vezes são banais, não criam nada.

Vejam o meu caso e o dos meus companheiros de UTI: só estamos vivos enquanto pudermos inventar uma outra coisa. Quando alguém aqui esquece disso, vai. O professor, à minha esquerda, teve um caso incestuoso com a irmã, o que o preenche de culpa e apego a uma antiga história italiana, a senhorinha, por outro lado quer remontar um episódio da infância sobre o qual tem muitas dúvidas.

2 comentários:

Sergio Martins disse...

A vida é realmente esse mar, ora tempestuoso, ora manso. Mas o que sempre aprendeemos ao longo desse mar, é que há o dia de sol após o temporal. Bjs!

Fanzine Episódio Cultural disse...

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