sábado, 16 de agosto de 2014

Sezefredo Taveira (1)




Em nossa casa havia muitos livros em prateleiras que alcançavam o teto, raros tinham o dom de interessar-me. Meu pai costumava trazer para casa grandes livros negros com lombadas de pano ― livros-caixa, anuários, registros de fretes e notas fiscais ― e passava as noites em silenciosos trabalhos de contabilidade. Eu deixava-me ficar ao seu lado na mesa da sala de jantar, e terminava sempre dormindo, a cabeça apoiada no vértice superior do triângulo formado pelo braço direito.
À meia noite, ele interrompia as contas e cálculos, fechava os livros, armava-se de um revólver, e saía sob o céu estrelado para dar três voltas de corrente no cadeado do portão. Vez por outra, era despertado pelo tiro para o alto que ele costumava dar de aviso aos ladrões ― os gatunos desafiavam a vigilância dos cachorros Dito e Zorro, vezeiros em roubar galinhas do quintal dos fundos.
Quase nunca encontrava o que queria nas estantes abarrotadas. Lembro do The Story of the Romans, de H. A. Guerber, da Geografia Ilustrada do Brasil de Borges dos Reis, livro cuja maior atração eram os mapas coloridos, além de inúmeras obras sobre direito e leis, que não diziam nada a quem vivia à cata de histórias de fadas, relatos de aventuras, mistérios e crimes. Muito raramente, Florencinho, meu primo, trazia exemplares do Tico-Tico e folhetos do Nick Carter.
Em revistas antigas, como Eu sei tudo, encontradas na casa de tia Dora, mãe do Florencinho, eu agarrava novos retalhos desse mundo evanescente. Isolava-me, lia, e as fotografias em sépia, cor de cinema, ampliavam ainda mais o milagre daquelas páginas. Uma constelação de palavras encantadas fulgia na minha infância gris, além dos galhos floridos da paisagem, no claro do céu azul, embaixo do sol grande. Eram palavras azuis como o anil das lavadeiras, navios brancos, iguais às nuvens boiando acima dos negros anuns em revoada.
Swaíli, Bessarábia, Guatemala, Mississipi, Tasmânia, Cunhambebe, Pajuçara, Fernão Velho, Trapiche da Barra, Ponta da Terra.
Mas não havia nome para tudo. Nomes de lugares, nomes de pessoas, nomes de nomes, palavras sem pele, despojadas de toda a sua carga de história, mais figura que acervo, catálogos do aleatório, índices de chuva e pedra, efígies abstratas. As coisas tinham nomes, mas que nome poderia eu dar a certo momento veludoso e odorante, ao minuto em que só havia maresia e gaivotas no ar, as notas distantes do piano de vovó, a assuada dos moleques em torno do quebra-pote nas tardes de domingo? Um dia seria preciso, adivinhava, inventar palavras, seguir as indicações perdidas do velho mapa dos piratas para desenterrar do sótão a arca empoeirada, e, então, retirar dela amorosamente o inestimável tesouro do novo.
Na ganga bruta daqueles tempos nímios se aderiu um nome, Sezefredo Taveira, morava na rua do Farol, no final, onde o bonde fazia a curva de volta para o centro. Os muros brancos cercando o quarteirão semi-escondiam o sobrado, também branco, que aparecia por entre as grades e as pinhas do portão. O palacete branco exalava riqueza, luxo, secretos esplendores. Além dos balcões fechados, mudas venezianas e sacadas, impregnado nas estatuetas de mármore espalhadas pelo jardim musguento, daquele universo de opulência e finos azulejos transudava constantemente o perfume do rosmaninho, das dálias e do jasmim em flor.
Era o palácio de Sezefredo Taveira. E esse nome, ao qual sou incapaz de ligar um rosto, uma pessoa, ocupou toda a minha infância com a sua magia, era o preâmbulo das encantações, demorava-se no meu peito como uma bolha de sabão, para se estilhaçar em solfejos no ar eternamente perfumado pelo Oceano. E assim, Sezefredo Taveira era apenas um nome: a belíssima sonoridade de um caco de mitologia, uma flor alienígena que, no lugar de pétalas, possuía sílabas.


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