sábado, 11 de janeiro de 2014

Leviathan melanophyllus (final)


O retorno foi um festival de contratempos, a começar pelo teiú esfomeado que lhes bloqueou o acesso da escadaria; em seguida, um ataque de formigas-de-correição obrigou-os a fugir pela via mais íngreme dos rufos e tubulações de água pluvial. Escorregaram velozes dentro dos coletores forrados de limo rezando para não encontrar obstruções na descida vertical ― uma trombada brusca, e o lote de nitroglicerina que carregavam nas mochilas os transformaria em patê de gente.
Se destabacaram no jardim, onde encontraram barra limpa. As motoristas tomavam água sentadas à sombra do caminhão. Carregaram rapidamente e saíram cantando pneu. Ernaldo mudou as duplas para a volta: pegou o volante do jipe ao lado de Dárius, necessitava estreitar a vigilância sobre o comandado. Durante dez minutos rodaram em silêncio. Miados ferozes, poucos quarteirões à frente de onde se encontravam, forçaram novo desvio. Desceram mais ainda, a sudoeste, na direção das margens do rio, de modo a contornar os felinos.
O sol começava a declinar, mas o mau cheiro ribeirinho entrava na cabine do carro sem a menor cerimônia.
― Boss, já ouviu falar da porca croca?
― Porca cro... que porca, que buzanga é essa?
― Uma coisa que o meu avô contava, da época em que se mandava nos animais, quando uma galinha não fazia o estrago de um tiranossauro... É o seguinte: a bicha pira na batatinha, e em vez de dar de mamar pros filhos, ela sufoca e mata os leitõezinhos. Vinha o povo e matava na hora, porque diziam que já não servia pra criação.
― Hmm, bela história motivacional... Assim que os teus miolos descansam da peleja...
― É que, tipo, não consigo parar de pensar...esse químico maluco tá falando uma verdade: nossa gente larga os desobedientes na rua, desarmados, chamam isso de justiça, invadimos e roubamos outros povos, mas trata-se apenas de ataques preventivos... Cara, já faz tempo que a república virou império!
― Dárius, esquece o Dr. W, ele adora por minhoca na cabeça dos outros. Não estamos numa situação normal, talvez nunca mais voltemos a uma, temos que agir e reagir sem padrões muito elevados de ética ou uma moral coerente... Viramos soldadinhos de chumbo, pilotamos brinquedos recondicionados, nossas bombas?, biribinhas... as foices?, facas de manteiga, lâminas afiadas do cabo de colheres de café! Só que aí eu não vejo alternativas na praça, nada muito diferente por aí.
― Há sim, sempre existe outro lugar se você se mantém em movimento. Ninguém está naquilo que quer sentir, mas no que sente sem querer; já não sinto que posso continuar fechado lá na colônia. Eu quero ir, preciso ir. O mundão é perigoso, mas aberto... aquela colônia encolhe a gente, quer dizer, mais ainda, não...?
― E você pensa que eu emborco o xarope todo sem engulhar? Vem essa porra de bolor radiativo e encolhe todos pro tamanho de lagartixas, daí, quando desaparece o preconceito de raça junto com a cor da pele, vem a discriminação por tamanho, e então, nós, os baixinhos entre os nanicos, viramos a população descartável, os soldados, os mão-branca que fazem o serviço externo sujo... Acha que eu amo muito tudo isso?!
― Pois então, Naldo, tu é militar, eu não, tu é conhecido como o maior sobrevivente, eu, entrei na correria pra achar um meio de me matar com dignidade... Você foi o primeiro a perceber que não sou do ramo, cara, sou só um cretino que perdeu tudo. Deixa esse bote inflável na minha, olha pro outro lado lá na marginal, que eu sumo pra nunca mais nessas águas imundas. Vou subir com o rio, ma direção do interior. Conta a história de sempre pros caras: perdas em combate. Acontece todo o dias, ninguém liga.

Rebeca não se conformava. Como se não bastassem armas e vitualha, Ernaldo ainda pusera dinheiro na mão do desertor. Socava o painel e praguejava com as mãos longe do volante, e o caminhão em disparada.
― Que caralho! Essa do Naldo é foda, não entendo, deixar o mala se mandar assim na boa, e mais grana, comida e roupa lavada...!
― Pô, Beca, o cara foi firmeza naquela treta do louva deus, dá um desconto... Além de que, o Naldo tá certo: ele não tem o que fazer na Colônia.
― Bom, se o camarada agüenta esses nossos corres, é porque inútil de tudo não é...
― Inútil é exatamente o que ele é, não tem razão de ser em si mesmo, nem função dentro do grupo. O Dárus é uma máquina celibatária: impossível, inútil, incompreensível e delirante. Melhor pra ele que deitar raízes, é se deslocar, mudar de ares, recomeçar. Talvez seja a única maneira de não morrer rápido.
Retribuíram o adeus do companheiro. Ernaldo fez-lhe as últimas recomendações: tomasse cuidado com falcões mateiros e cobras-d’água. O vento tinha levantado novamente, nuvens adensando a leste.
Ele desceu por entre um bando de capivaras que pastavam. Ficou por um instante à margem, antes de laçar o bote.
Olhava a superfície das águas se encrespar formando figuras imprevisíveis que brilhavam ao acaso em todas as direções.
O vento era um só, mas naquele espelho d’água pareciam ser mil os ventos que sopravam.
De todos os lados.
Um espetáculo inexplicável, abrupto, guiado pelas combinações imprevisíveis da sorte ― a sua vida.
Só começava a entender.


Um comentário:

angela disse...

O poeta apareceu!