quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O seqüestro do Tunico (parte 3)




            — O Abelha quer falar com você, e tá uma vara; melhor não embaçar, vai direto lá na sala dele.
            Ouviu a mesma frase várias vezes, com ligeiras variantes, da boca de variadas pessoas assim que pisou no distrito na manhã seguinte. Tinha passado o dia anterior todo no condomínio dos playbas e não podia imaginar o que cacique podia querer com índio tão cedo — menos ainda com o que poderia estar tão puto. O Abelha, no caso, era ninguém menos que o delegado titular do DP; com efeito, o doutor Osnir merecia triplamente o apelido porque: a) ou estava voando; b) ou fazendo cêra; c) ou ferrando alguém. Do assunto ninguém sabia, mas da entubada ninguém tinha dúvidas.
            No segundo andar encontrou o Moreira que lhe hipotecou solidariedade por meio de gestos e olhares significativos; a mensagem tácita implicava que ele arranjaria algum motivo para interromper a 'mijada' do superior hierárquico. Sentia aquele peso quente e característico um palmo acima do umbigo; uma dor espalhada, enjoativa, tão sua velha conhecida quanto a musiquinha do Fantástico — desde que se entendia por gente, e isto remontava à primeira vez que menstruou, se acostumara com algum grau de gastrite. Na sua escala de mal-estar a dor atingia o embrulho, sem chegar ao grau do agulheiro interno, muito distante das punhaladas no baixo ventre. Bateu na porta de leve, mas não esperou a resposta para entrar.
            — O senhor me chamou...
            — Ah, apareceu a margarida! A senhorita é capaz de me explicar o monte de merda que andou fazendo, hem?
            — Não estou entendendo, doutor, o que foi que...?
            — Não entendeu? Então tá, quem sabe eu fazendo um desenho, você entende... começa me explicando pra que bosta foi chamar a Científica, que tal?
            — Bem, é que houve um atentado durante a diligência...
            — Um atentado?! Uma porra de um vaso caído, a policial está dizendo que é atentado? Escuta, e quando for recebida a bala, vai chamar como? Guerra civil? Puta que pariu, quanto mais rezo, mais me aparece assombração; você tá querendo me foder?
            — Mas doutor...
            — Mas doutor é o caralho! Porra Franklin, te ponho numa fita molezinha e tu me apronta?! Tu me trava o condomínio inteiro com a merda da perícia, é o cu da cobra! E olha que avisei pra ir devagar com a louça... meu, tudo que não pode fazer com rico é escândalo... Tá assistindo seriado americano demais, é?
            — Com todo respeito doutor Abe... Osnir, doutor Osnir... quando recebi a incumbência achei que era frescura de bacano, mas agora acho que tem umas coisas estranhas ocorrendo lá...
            — Mas que porra Franklin, quanto mais eu falo, menos você escuta! De onde você acha que vieram os porcelanatos desta delega, o acabamento de grafiato, os mármores dos toaletes, hem?, do bolso dos munícipes? Quem paga os luxos desta merda de distrito são nababos como esses do Mares do Sul, captou? O que tu vai fazer é arredondar essa ocorrência; vê se pesca essa, que eu vou te dar o bizu: rico a gente investiga quando a imprensa tá em cima, e mesmo assim, só até um certo ponto. Já pobre, só vira inquérito quando morre a granel!
            — Há indícios de chantagem... não posso fazer de conta que não vi...
            — Ah, vá pra puta que te pariu! — o Abelha agora gritava a plenos pulmões, esmurrando a mesa feito um possesso. — Quero mais é que se foda, já não me importo quem te pôs aqui dentro, nega, se tu remexer mais nessa bosta, vou te pôr na patrulha da Paraisópolis, copiou? A gente dá uma boiada pros outro e dá nisso... Olha aqui: você vai acreditar no que tá vendo, ou no que eu tô te dizendo?
            Naquele momento irrompeu na sala a bendita figura do Moreira, trazendo providenciais boas novas para acalmar o fígado do mandachuva.
            — Doutor, pegamos um dos malas que agiam no Brooklin, os do assalto a residência... Tá lá na sala de "massagem", os rapazes tão dando uma primeira amaciada, acho que ainda hoje canta...
            — Moreira, bom que você apareceu... faz o seguinte: me tira essa monga daqui rapidinho, senão esqueço o QI dela e mando de volta pro buraco de onde veio...
            De todas as ofensas do Abelha esta foi a que calou mais fundo na investigadora, embora nenhum dos dois homens presentes tivesse como saber. Moreira arrancou a novata da sala antes que soltasse uma nova asneira e arrastou-a para o cafezinho dar uma espairecida; inutilmente, Runa não aceitava nem café, nem ombro amigo; pediu licença para dar uma volta. A gastrite pegando fogo, queria chorar sozinha dentro do carro.
            Voltou uma hora depois, mais calma e disposta a conversar com o Moreira. Tinha uma ou duas perguntas para lhe fazer agora que raciocinara um pouco melhor; como sempre acontece nessas horas, deu de cara com quem menos queria encontrar.
            — Investigador Franklin e os...
            — Mega, hoje não é um bom dia, me gasta a paciência não, tá? Amanhã te passo a porra da papelada! — saiu pisando duro na direção da sala de interrogatórios "enérgicos", ou, como diriam os americanos, onde se praticavam técnicas "heterodoxas" de entrevista policial.
            O malaquias estava pendurado no pau-de-arara com um cassetete enfiado no cu. Ela conhecia aquele cheiro de outros carnavais: o odor almiscarado de bicho acuado; vagabundo quando caía ali sabia que não tinha mais pra onde escapar, acabava dando o serviço. Só tentavam não entregar a fita de cara pra não perder o respeito dos canas — e também, se fosse o caso, dar tempo para os parceiros acharem um mocó ou cair no mundão.
            — E então, esse zé-ruela tava ramelando na área? — dirigiu-se ao Moreira, cumprimentando o outro policial presente com um aceno.
            — Dá pra acreditar? Tava de rolê num cabrito filmando a próxima casa que ia fazer, o cabação! Agora precisa cantar pra nós o nome dos comparsas... tá me ouvindo mané? Porque aqui nós tamo pegando levinho, só laceando tua rodilha, seu escroto, tu vai ver o que vão te fazer lá na carceragem... tamo batendo sem deixar marca, porque ainda vamos te apresentar pros jornalistas com a cara inteira, mas lá no DEIC, já viu o que vai te acontecer...
            — Foi ele que estuprou?
            — Esperando o DNA. Mas, se liga no naipe... isso não é gente, é bicho solto...
            Runa se aproximou do suspeito e vomitou bem na cara do safado; uma 'borfada' com gosto, classuda, daquelas sem medo de molhar a sandalinha. O carcará sanguinolento gemeu uma latomia de queixas enquanto o líquido fedorento, bilioso, de quem não tinha comido quase nada até o momento lhe escorria pelo rosto abaixo — não se deu por satisfeita: catou um spray de pimenta e jateou-lhe a fuça. A sala, convenientemente guarnecida de revestimento acústico, se encheu com os gritos do prisioneiro. O ar ficou irrespirável, os policiais saíram.
            

2 comentários:

angela disse...

Que dureza!!!!
Por enquanto só está sobrando o Tunico.

Dídimo Gusmão disse...

Belo texto!
Adorei o sequestro do Tunico.
Voltarei mas vezes, para ler os teus textos.
Abraços literários.
Carlúcio Bicudo
http://didimogusmao.blogspot.com.br/