segunda-feira, 15 de setembro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (2)



Tudo que é sólido apodrece no ar, e tudo sempre pode piorar. O trombadinha desaparecera no mundo. Para completar o roteiro do desastre, talvez também tivesse levado o celular, fora que, durante a busca na sacola e nos bolsos não havia encontrado nenhum tablet ou laptop. Depositei as esperanças cadentes em alguma etiqueta na mala que pudesse devolver-me, senão uma identidade, ao menos um nome e algumas roupas do meu número. Mas, qual mala era a minha, naquele insano arraial de modelos e cores e formatos serpenteando na passarela de borracha?
Porra nenhuma a fazer, a não ser esperar pela bagagem que sobrasse por último, ou seja, resgatar-me por exclusão. Saí do bololô de gente para aguardar sentado; com mais tempo e lucidez de espírito, comecei a investigar os dados imediatos da minha mente em estado de choque. Percebi que lembrava alguns fragmentos de fatos e cenas, mas não tinha acesso a nenhuma narrativa, verdadeira ou falsa, para costurar um sentido a eles. Eu sabia algumas coisas, por exemplo, ajudei o meu vizinho de vôo a reconectar seu smartphone na rede depois da aterrissagem, mas ignorava como, por que e, principalmente, quem sabia fazer isso com tanta desenvoltura.
O mais sensato talvez fosse procurar a polícia e comunicar o roubo, mas uma outra voz interior dizia para esperar que o conteúdo da mala revelasse mais sobre mim. E se eu fosse um ladrão, um assassino procurado, talvez até uma “mula” carregando drogas clandestinamente? Ri sozinho desta última hipótese ― mesmo que tivesse engolido papelotes revestidos de aço, estariam imprestáveis a esta hora. Passei então a escrutinar a aparência geral e os sinais particulares: uso a barba curta, cerrada, aproximadamente um metro e setenta e cinco de altura, cabelos e olhos castanhos, nem gordo, nem magro, tatuagem na omoplata direita (um ideograma), idade indefinível, possivelmente entre a quarta e a quinta década, marca de vacina, cicatriz de cirurgia no joelho esquerdo, sem aliança, pulseira ou gargantilha; relógio: Rolex falso.
Espontaneamente prestava mais atenção à parcela feminina do meu entorno, porém, a julgar pela diversidade de corpos e estilos que fixavam meu olhar, não devia ser dos mais específicos nas preferências desse tipo. Era como se me houvessem instalado uma divisória virtual no cérebro, ambas as metades permaneciam operacionais, apenas não se comunicavam entre si. A lembrança de uma tabuleta escrita à mão: “Chapéus para homens de palha”. Parecia uma cena antiga ― um trocadilho familiar, talvez ― embora descrevesse com acurácia a minha condição atual, eu era um homem oco, um sujeito recheado de memórias sem sujeito. O homem de palha.
Lentamente, o salão foi se esvaziando. Uma única mala preta, inútil e sozinha, continuava a entrar e sair pelas cortinas do compartimento de bagagens. Peguei-a e saí para a área de desembarque doméstico, onde uma nova pequena turba aguardava. Foi só quando cruzei a porta automática que entendi o absurdo da situação. Familiares se abraçavam, namorados, esposas, maridos, pais e filhos, amigos e amantes matavam as saudades ― e havia pessoas com placas, aquelas placas com nomes escritos. Várias possibilidades se abriam e fechavam, também os outros não me reconheciam, chamavam, nem abraçavam.
Os portadores de placa aparentavam querer que eu fosse o ser da placa, claro, mais para acabar com suas esperas do que pra me tirar deste limbo. Algumas, com nomes bonitos, eu fitava por mais tempo, como se, à força de olhar para aqueles nomes, pudesse me tornar o ser correspondente. Vinícius Piedade, Élio Siridião, Rogério Marques, Giulio Gabbana, Tito Lima, Mr. Vollard, Ambrose, Saulo Sakata... Porém, os seres atrás das placas logo encontravam seus destinatários, ou desviavam de mim o olhar entediado; todos menos um: o cara de bigode, óculos, sorriso, pança e um cartaz onde havia apenas 3 letras: D S K.
― Dê-esse-cá?
― O quê?!
― Quê não, cá! Seu vôo atrasou.
― Sim, claro, atrasou um bocado, faltou teto pra pousar... ― esperava que ele me esclarecesse, ou fizesse uma pergunta iluminadora, mas o camarada foi logo pegando as minhas coisas e dirigindo o carrinho para o estacionamento. Não me chamava por nenhum nome, portava-se em relação a mim com a deferência respeitosa e entrona que se dispensa às celebridades. Será que eu sou alguém famoso?
― Desculpe, esqueci de me apresentar, Viwelson.
― Prazer, Vinelson, é... pra onde estamos indo?
― É Viwelson, com “w” no segundo “v”. Vou te levar pro Marriott, padrão, né?
― Muito bom, imagino. Tarde pra você estar trabalhando, não?
― Tô de boa. Vão liberar a manhã pra mim, mas você, eles vêm pegar logo cedo. Oito da matina. O roteiro já vai estar na mesa do seu quarto no hotel.
No carro em alta velocidade pelas ruas de uma cidade qualquer à noite, eu me perguntava se não estaria roubando o destino do verdadeiro DSK, que neste momento no aeroporto procurava desesperado a plaquinha que assaltei. Não estaria furtando seu passado, sua personalidade, raptando-lhe a posição social e os sonhos, usurpando sua profissão? Teria eu despojado um legítimo cidadão de sua mulher e filhos, sua chácara no campo, seus cães de raça, arrebatado uma vida inteira num só golpe? Imbuído desse espírito pirata, comecei a me debruçar sobre a conversa do Viwelson, ele me consultava como se eu fosse uma espécie de autoridade em relacionamentos.
― Então, né, eu e essa mina temos uma relação exclusivamente física, tipo eu te uso e você me usa, saca?, mas aí vem o problema: me amarrei nela, à vera.
― Aí é que a porca torce o rabicó ― parecia-me para lá de surpreendente que aquele cara de bigode, óculos, sorriso, pança, e que ainda há pouco segurava o cartaz do D S K, tivesse relações “puramente físicas” com alguém, e isso o incomodasse ― Esses lances foram feitos pra ser simples, leves... e sem love.
― É, eu achei que agüentava, deu não. Reparei que ela só me procura entre um relacionamento sério e outro, nunca me dá a camisa de titular. Acho que, no amor, pra mim não tem jogo amistoso, é tudo final de Copa do Mundo.
― Pois então, a gente acha muita coisa que não é, sexo é fodinha, meu amigo, amor que é fodão ― nem podia crer na facilidade com que debitava tais enormidades, devia ter feito isso a vida toda.
― Mas, e aí, que é que eu faço?
― Vai por mim, você entrou pela porta errada na vida dessa mulher, às vezes o cara consegue sair e achar a porta certa, às vezes não.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (1)




            Há uma metade do nosso corpo que nunca se adestra e coabita em nós como passageira clandestina de um lotação idem ― em geral, é o hemisfério canhoto a permanecer estabanado e indispensável pela existência a fora. (Embora isto não se aplique perfeitamente aos chamados sinistros, ou os que, como eu, alternam as lateralidades de perna, pé, mão e orientação política). Como num espelho de circo onde nossa imagem se confunde, derrubamos a chave, desaprendemos o nó, mudamos de caligrafia, erramos o salto parecendo grogues. Assim, dissimétricos, fomos nos construindo e sendo construídos: a atitude de resguardo à integridade, um certo atabalhoamento destruidor do ambiente, a auto-percepção desproporcionada da motricidade fina. Nosso lado canhestro move-se como um astronauta na lua, saltando bêbado de leveza, derrubando alegremente o que encontra no caminho, eternamente indeciso entre bagunçar e servir.
            Isto me ocorria difusamente naquele exato instante em que ajeitava a alça da mochila sobre o ombro esquerdo. Tinha acabado de sair do avião, atravessei o finger marcando passo no meio da multidão de passageiros e me dirigia à esteira das bagagens quando fui abalroado por um desconhecido. Nossas bolsas e sacolas de mão se esparramaram no chão. Trocamos as desculpas protocolares, em civilizado acordo com a impessoalidade de um saguão de aeroporto, e nos desembaraçamos o mais rápido que pudemos um do outro.
            ― Caramba, você estava distraído checando o celular!
― Foi mal. Estas pastas caíram da sua... não?
Sentia-me um tanto tresnoitado pela viagem noturna, mas tudo corria bem, tirando, talvez, a leve sensação de náusea começada ainda no vôo. Havia dormido o sono torturado das viagens aéreas, despertei espavorido e já meio virado com o toque da campainha daqueles avisos de bordo. Sonhava com o bairro da infância, na verdade, com os cães de um vizinho pancada: três tristes cães da raça boxer, ele os criava no quintal forrado de cerâmica e lajota da frente da casa; uma alta grade de ferro pintada de verde, toda furadinha, permitia acompanhar a vida feroz daqueles machos que viviam se atracando em brigas feias. Como costuma acontecer nos sonhos, as aparências eram instáveis, os focinhos dos cachorros esticavam e encolhiam num jogo de anamorfoses que, ora definiam as feições achatadas dos boxers, ora se afilavam feito focinhos de porco, compondo o aspecto típico dos bull terriers.
O curioso é que agora eram as paredes a executar o bailado do pesadelo, tanto se fechavam sobre mim, como se alargavam numa extensão demencial, enquanto o chão ondulava no mesmo diapasão inesperado de concreto movente. Um violento enjôo me atirou numa cadeira de metal, já não podia observar neutro o desenrolar dos fatos: o mal estar turvava-me a vista e a consciência, a cabeça e o estômago giravam, orbitando um ao outro furiosamente. Tudo girava.
Ondas de calor me percorriam, no entanto, sentia frio, um suor frio cheirando a cão assustado colava minha roupa ao corpo. Com a curta capacidade de planejamento restante, antevi a necessidade de atravessar os metros que separavam meu assento do banheiro masculino: nas entranhas convulsionadas uma tsunami se formava ameaçando eclodir a qualquer momento. Temia que a vertigem me derrubasse a meio do caminho, temia o escândalo público de uma queda retumbante no salão de desembarque entre pessoas estranhas.
― Está passando mal, moço?
― Hmm, obrigado, não se preocupe, vai passar. Costumo ter essas coisas em viagem... Estou bem.
A senhora idosa, muito senhorinha na sua combinação de vestido e cardigã de malha leve, devia estar me julgando pela cara. Não desviava o olhar do meu rosto. Invejei seu autodomínio e o colar de pérolas que arrematava sua vestimenta correta, mas, por alguma obscura teimosia, recusei a ajuda que o juízo mais chão recomendaria aceitar. Esperei que fosse embora, ainda a acompanhei se afastando, girava a cabeça para trás na minha direção, incerta de me abandonar à própria sorte. Fui aos tropicões para o toalete, apoiado nos frios lambris metálicos das paredes, rezando para que a pororoca das tripas me poupasse de constrangimentos antes de chegar ao vaso.
No banheiro, felizmente deserto, tive uma pane geral: vômitos, disenteria, e mais suadeira em bicas. Joguei a camisa e as cuecas no lixo, na mochila encontrei uma salvadora camiseta. Só retomei o prumo depois de beber e me lavar na água da pia, ajeitando o visual no espelho imenso do jeito que dava. Tudo estava mais claro, mas o mal estar ainda era tremendo. Voltei ao momento anterior à tontura, no burburinho em torno da esteira das bagagens enxerguei a boa samaritana, acenei à distância, entre agradecido e desejoso de reassegurá-la da minha integridade.
Só então me dei conta de um problema, um grande problema: não lembrava qual era a minha bagagem, pior ainda, não sabia nem quem eu era. Um nome ou lugar, uma profissão, uma família, nada me vinha sobre mim mesmo. Pensei que, quanto ao nome haveria jeito, lembrava de ter guardado a carteira no bolso interno da jaqueta. Pânico: a carteira não estava lá, revirei todos os bolsos e compartimentos da mochila, refiz o trajeto até ao banheiro. Nada. Mas como? Onde teria...?
― Puta merda! O cara do encontrão, ele levou minha carteira!


sábado, 30 de agosto de 2014

Sezefredo Taveira (final)




Nem eu me conheço. Os outros?, só imagino. Cada vez mais me pergunto se deveras aprendi algo com o passar dos anos, e cada vez menos dou por fato consumado as respostas, parcas, que recolho sem método aqui e ali. O mundão é grande e sem porteiras, só a beleza nos salva. Descobri que não é necessário acreditar no belo para ser vítima dele, pois o arrebatamento vem como os terremotos: não respeita feriado ou dia santo, e nem há onde se esconder. Tentar não, fazendo ou deixando de fazer, tentativa não há. Fugir do mundo não protege de quase nada, a não ser do pior e do melhor ― justamente as coisas mais importantes da vida.
As etiquetas e as palavras falham. Devemos desconfiar delas como das verdades reveladas, palavras servem se pensarmos nelas como meras estações de um trem sem parada, nas quais a ignorância pousa brevemente o segredo que a língua vela e descobre. Livrar-se do que excede, livrar-se de si mesmo e permitir que o instante se configure, se instaure pleno, e em seguida desapareça. O existir é poema em fluxo, sua impermanência está no desmanchar constante do tempo, sua essência, no reconhecer-se parte integrante de um ciclo contínuo, uma viagem de fora para dentro repleta de indefinições, mas que ainda assim sugere o recomeço na primavera, a alegria no verão, a introspecção no outono e o silêncio no inverno, numa sucessão infinita e derradeira.
Este é o meu testemunho, a confissão daquilo que o tempo tatuou em mim de uma vez e para sempre, aquele nome, inatingível figura do ar. Muitas vezes, passeando sozinho pelas ruas baldias ou junto ao mar, eu repetia esse mantra sagrado, desfolhava-o na brisa como se fosse um malmequer, juntava de novo as pétalas das sílabas que cantavam mesmo momentaneamente esquartejadas. Sezefredo Taveira!, gritava até perder os bofes, gritava para que os costados dos navios pudessem devolver-me em forma de eco essa primeira lição de poesia, essa interminável soletração do absoluto.
Não há pedra que pense o vento como o vento pensa a pedra. Tenho a dor das conchas extraviadas, uma dor de pedaços que não voltam, eu sou os destroços de muitas pessoas. Em caso de perda, e também em todos os outros, melhor será contar histórias, enquanto as narramos, os futuros se prometem e os passados se acumulam. Só assim é possível abrir as tramas e soltar as pontas amarradas. Quanto ao que restar fechado, não devemos desistir: é importante prosseguir com os contos, libertar relatos, sonhos e devaneios, até que a contraluz de uma fala comece a delinear contornos na obscuridade.
Muitos anos depois, desintegrada a Maceió da minha infância, e já estrangeirado de raízes e paróquias, voltei à curva da rua do Farol. O portão trancado e as janelas vedadas por tábuas sinalizavam a deserção do palacete Taveira, lá dentro, no pomar carregado de fruta madura, a gataria se espreguiçava à sombra de bojudas porcelanas azuis. Metade de um século se passara desde os dias em que o bonde, na volta da escola, nos fazia ver a misteriosa morada do amor, o universo branco e verde estriado de grossas grades negras e manchas róseas. Seus antigos dramas e habitantes já deveriam andar por outra, e mais metafísica, morada. Mas parei diante do portão cerrado, espiei o jardim silencioso, os vasos azulejados, as escadarias de mármore, o azinhavre no ferro das balaustradas. E chamei: Sezefredo Taveira!
Chamei a quem, a quê? Repetia inebriado a fórmula mágica, encantatória, conjurando o fantasma da mulher que em todas as outras mulheres busquei, encontrei e perdi ao longo da vida. Porém, a Rainha dadeira do meu reino maravilhoso de antanho emigrara em arribação de nuvens, transfigurada em legendas de musgo na pedra de cantaria, sublimada no cipó bravo a ingresiar as calhas derruídas do casarão; seu nome para sempre ignorado voou pelos ares como um pássaro, chocou-se contra o costado dos cargueiros de além-oceano, e voltou metamorfoseado em eco aos meus ouvidos, já agora na soberba hierarquia dos nomes que não precisam mais de figura ou anedota, e se tornaram para sempre algo sonoro e puro, deslumbrante e enxuto.


domingo, 24 de agosto de 2014

Sezefreo Taveira (2)


Ignoro se ele era alagoano ou mais um dos muitos imigrantes portugueses estabelecidos em Maceió que enriqueciam no ramo de tecidos, passamanaria, secos e molhados, e terminavam comendadores antes de se retirar para a terrinha. Porém, no bangalô da rua do Farol, na exuberância equatorial do jardim, caminhando pela sombra de árvores tronchas com o mormaço equatorial, havia algo que era a fusão improfundável dos mais faustosos elementos nativos com uma substância remota ― a esposa do Sezefredo Taveira.
O passado é esse animal que nunca termina de agonizar, até hoje me maltrata não ter retido o nome daquela deusa, a jovem senhora que a cidade, uníssona, proclamava adúltera. A mulher do Sezefredo. As coisas sem forma são as mais pronunciadas por crianças: recordo-me especialmente de seus olhos garços, cintilando infixos entre esverdeados e azuis, uma cor na fronteira de céu e mar. Toda vestida de branco, ela se aproximava da varanda do sobrado e seu olhar seguia o trajeto do amante que vinha caminhando pela calçada defronte, pausado, elegante, insaciavelmente feliz.
Quando ele passava diante da varanda, ela lhe sorria, e nesse sorriso, que tornava mais oscilante a cor dos seus olhos, fremia um universo de desconhecidas volúpias, toda a glória da carne à espera. Possivelmente, a memória, com suas tintas falsárias, pintou-a para mim de branco, envolta em sedas e tafetás na antecipação do êxtase vespertino numa alcova misteriosa. A cama larga, de patente, haveria de ter travesseiros altos e rendados e castos lençóis de linho cheirando a alfazema, e não faltaria mesmo um mosquiteiro para resguardar o idílio da investida dos piuns vindos dos mangues e sarjetas.
Inclinando levemente a aba do chapéu chile, roupa de imaculado linho cru e sapatos de duas cores, o amante dobrava a esquina saudando-a uma última vez. Ela se retirava da janela (e da vista da molecada escondida e à espreita), ia dedicar-se aos afazeres domésticos, cuidar do de-comer do marido manso; sumia no interior do sobrado cheio de vasos de flores e bibelôs sobre o piano.
Ninguém perdoava ― embora muitos, silenciosamente, compreendessem ― Sezefredo Taveira por dividir a beleza deslumbrante da mulher, usufruindo a meias (quiçá a quintas) o lânguido pestanejar daqueles olhos garços. Não ousava separar-se dela ou matá-la, apesar da tradição local assegurar aos machos traídos em seus brios pronta absolvição no tribunal do júri, caso resolvessem, como então se dizia, “lavar a honra com sangue”.
Nisto residia o mais arcano aspecto que o mundo confrontava ao olhar e à fantasia de menino: mal podia imaginar como era possível aos adultos viverem na confusa amálgama de putaria e moralismo em que, efetivamente, vivem. Mas é inegável que o arranjo do casal a três bafejou aqueles anos distantes com a doce maciez da infância dos curumins; a mansão Taveira, crivada de sacadas, cegas janelas e vitrais coloridos, em sua rotina devassamente plácida, no balançar das copas das mangueiras e cajueiros do seu jardim com a viração no fecho da tarde, foi assim me ensinando paciente cada rococó da inesperada arquitetura do desejo.
E foram aquelas duas palavras, tão imbuídas para mim de misturados sentidos, que tiveram o poder de extorquir a única opinião política que cheguei a ouvir de meu pai. O grande silêncio gravado na parede da memória, a mudez rombuda e obstinada de papai. Foi na época de uma grande eleição, a nossa casa, normalmente pacata, estava cheia da parentada vinda do sertão brabo; alguém comentou que Sezefredo Taveira declarara publicamente seu apoio à candidatura Góis Monteiro.
― Quem, o corno? Belo incentivo o Silvestre teve, um monte de bacharelismo em papel de jornal... Parolagem!
― Se ao menos ele botar comida nos comícios do Góis Monteiro, já é alguma coisa. Mas rapaz, é verdade verdadeira, fato sabido e havido por certo, a bandalha no palacete do Comendador come solta e sossegada?
― Dizem que ele gosta demais da ingrata; tem o coração mole, é o que é. E depois, fazer o quê, se nos particulares do amor, tudo que não pode, manda?
― Ah, mas não se preocupem, cornos somos todos ― fosse pelo teor da assertiva, fosse por papai ser orador bissexto, fez-se pesado silêncio ― Não se iludam: nas eleições, todo mundo é corno.
― Oxe, mas que conversa é essa, macho velho? E como é isso?
― É simples, na política o chifrudo é o povo, sempre o último a saber.



sábado, 16 de agosto de 2014

Sezefredo Taveira (1)




Em nossa casa havia muitos livros em prateleiras que alcançavam o teto, raros tinham o dom de interessar-me. Meu pai costumava trazer para casa grandes livros negros com lombadas de pano ― livros-caixa, anuários, registros de fretes e notas fiscais ― e passava as noites em silenciosos trabalhos de contabilidade. Eu deixava-me ficar ao seu lado na mesa da sala de jantar, e terminava sempre dormindo, a cabeça apoiada no vértice superior do triângulo formado pelo braço direito.
À meia noite, ele interrompia as contas e cálculos, fechava os livros, armava-se de um revólver, e saía sob o céu estrelado para dar três voltas de corrente no cadeado do portão. Vez por outra, era despertado pelo tiro para o alto que ele costumava dar de aviso aos ladrões ― os gatunos desafiavam a vigilância dos cachorros Dito e Zorro, vezeiros em roubar galinhas do quintal dos fundos.
Quase nunca encontrava o que queria nas estantes abarrotadas. Lembro do The Story of the Romans, de H. A. Guerber, da Geografia Ilustrada do Brasil de Borges dos Reis, livro cuja maior atração eram os mapas coloridos, além de inúmeras obras sobre direito e leis, que não diziam nada a quem vivia à cata de histórias de fadas, relatos de aventuras, mistérios e crimes. Muito raramente, Florencinho, meu primo, trazia exemplares do Tico-Tico e folhetos do Nick Carter.
Em revistas antigas, como Eu sei tudo, encontradas na casa de tia Dora, mãe do Florencinho, eu agarrava novos retalhos desse mundo evanescente. Isolava-me, lia, e as fotografias em sépia, cor de cinema, ampliavam ainda mais o milagre daquelas páginas. Uma constelação de palavras encantadas fulgia na minha infância gris, além dos galhos floridos da paisagem, no claro do céu azul, embaixo do sol grande. Eram palavras azuis como o anil das lavadeiras, navios brancos, iguais às nuvens boiando acima dos negros anuns em revoada.
Swaíli, Bessarábia, Guatemala, Mississipi, Tasmânia, Cunhambebe, Pajuçara, Fernão Velho, Trapiche da Barra, Ponta da Terra.
Mas não havia nome para tudo. Nomes de lugares, nomes de pessoas, nomes de nomes, palavras sem pele, despojadas de toda a sua carga de história, mais figura que acervo, catálogos do aleatório, índices de chuva e pedra, efígies abstratas. As coisas tinham nomes, mas que nome poderia eu dar a certo momento veludoso e odorante, ao minuto em que só havia maresia e gaivotas no ar, as notas distantes do piano de vovó, a assuada dos moleques em torno do quebra-pote nas tardes de domingo? Um dia seria preciso, adivinhava, inventar palavras, seguir as indicações perdidas do velho mapa dos piratas para desenterrar do sótão a arca empoeirada, e, então, retirar dela amorosamente o inestimável tesouro do novo.
Na ganga bruta daqueles tempos nímios se aderiu um nome, Sezefredo Taveira, morava na rua do Farol, no final, onde o bonde fazia a curva de volta para o centro. Os muros brancos cercando o quarteirão semi-escondiam o sobrado, também branco, que aparecia por entre as grades e as pinhas do portão. O palacete branco exalava riqueza, luxo, secretos esplendores. Além dos balcões fechados, mudas venezianas e sacadas, impregnado nas estatuetas de mármore espalhadas pelo jardim musguento, daquele universo de opulência e finos azulejos transudava constantemente o perfume do rosmaninho, das dálias e do jasmim em flor.
Era o palácio de Sezefredo Taveira. E esse nome, ao qual sou incapaz de ligar um rosto, uma pessoa, ocupou toda a minha infância com a sua magia, era o preâmbulo das encantações, demorava-se no meu peito como uma bolha de sabão, para se estilhaçar em solfejos no ar eternamente perfumado pelo Oceano. E assim, Sezefredo Taveira era apenas um nome: a belíssima sonoridade de um caco de mitologia, uma flor alienígena que, no lugar de pétalas, possuía sílabas.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Blecaute (final)


A morte não dói no morto, mas nos outros ― com a estupidez passa-se o mesmo. A consciência é o enganche: faz nascer o eu, ainda que ao preço de o fazer sofrer. Mas não acontece de inventarmos apenas um eu, inventamos sobretudo os outros.
A roda travara. No meio do círculo de famintos, Bob e o menino não tinham como fugir, o pai, postado a dez passos do limite externo do grupo, mantinha a arma engatilhada. Ninguém se atrevia a dar um passo. Ninguém recuava. Os olhares de todos relanceavam de um para o outro em busca de alguma reação.
Evitavam desencadear a tempestade sabendo que ela viria, certa e segura.
Cedo ou tarde.
O problema é que quem fizesse o primeiro movimento chamaria para si fatalmente o ataque inicial. Havia uma flecha e um tiro engatilhados que dificilmente errariam seu alvo, o bando estava desarmado, mas certamente massacraria os autores dos disparos aproveitando a superioridade numérica.
“Gente, temos comida suficiente pra todo mundo. Será que não podemos resolver esta bagaça na boa?”
“Cala a boca Bob! Será que você ainda não esgotou sua cota de tosqueiras por hoje?”
“O rapaz tem razão, dividam sua comida conosco e ninguém precisa se machucar”, o gordinho líder da horda assumiu um tom conciliador.
“Aí maluco, meu acordo é o seguinte: vocês dão o fora e ficam todos vivos, se resolverem arriscar alguém vai se dar muito mal... Quem vai querer tirar a sorte grande? Pensem bem”, ele mirou a espingarda bem na cara do pica. A bandeira branca acabava de ser arriada.
Imperceptivelmente começaram a se mexer, arrastando os pés com cautela como se pudessem abandonar o impasse de maneira gradual. Queriam chegar à omelete sem quebrar os ovos.
“Que foi isso?”
Neste exato momento disparou um charivari de alarmes e ring tones de celular, bafafá desconcertante e cacofônico em franco desacordo com os ruídos da floresta. Ninguém conseguia localizar a origem da barulheira, até que o Bob sacou o celular do bolso.
“Ih, rapaziada, é o meu, deixei ligado just in case. Nossa, a internet voltou, tá chegando uma pá de mensagens... o apagão acabou!”
Um silêncio constrangido se instalou na cena. O círculo se desorganizou. Ele abaixou a arma, no que foi imitado pelo filho.
“Bom, é, acho que podemos dar um pouco da comida pra vocês... Ei! Vocês estão indo embora?”
O ex-líder do grupo ainda se virou pra responder, os outros simplesmente sumiram pelo mato.
“Não precisa mais, vou pra casa. Todos vão, acho. Agora é voltar cada um pra sua vida. O futuro já não é mais o que era.”



quarta-feira, 30 de julho de 2014

Blecaute (5)


O sonho e a memória têm a mesma desmedida, ambos cabem no curso de uma noite; já os pesadelos, caem sobre nós a qualquer hora e em qualquer lugar. Os dois rapazes giravam o corpo, mas não achavam uma rota de fuga no campo de visão: em volta deles, a pequena multidão famélica cerrava fileiras compactas e ameaçadoras. Havia ali as sobras encardidas do que teriam sido vinte pessoas.
“Comer!”
“Já dei tudo que tinha, acabou”, Bob tentava em vão fixar-se em algum rosto, alguém que fosse o representante daquele aglomerado que parecia rosnar de todas as bocas e nenhuma ao mesmo tempo.
“Mais, quer mais...”, era como aquelas pinturas representando as várias encarnações dos deuses hindus, embora aqui o resultado fosse uma massa informe ao invés de uma figura discernível.
“Não chega perto, afasta, afasta!”, o menino engatilhou a balestra e a apontava para o grupo sem individualizar um alvo. A almôndega humana afastou-se alargando o círculo.
“Ei, ei, pára com isso cara! Tá maluco?! Você pode ferir alguém com esse bagulho, mano”, Bob começou a ficar preocupado com as atitudes do companheiro armado.
“Ah tá, e o que tu acha que eles vão fazer com a gente, manézão?
“Comida, precisamos comer. Levem a gente ao seu acampamento, dêem o que precisamos e nós vamos embora”, um gordão com cara de poucos amigos se destacou do grupo falando como líder.
“Pô, se é só isso, não tem problema. Vamos...”
“Bob, você consegue parar de falar merda um minuto? A gente não vai a lugar nenhum, cara, e quem se aproximar leva prego.”
“Certo, moleque, mas você vai conseguir disparar uma flecha só pra se defender. A chapa vai esquentar pro teu lado se ferir alguém antes de ser pego.”
Olhou incrédulo na direção do “cunhado”, e constatou: estava desarmado.
“Caralho, Bob, cadê a porra do teu facão?!!”
“É... acho que deixei lá perto da bomba d’água. Foda carregar essa parada pra cima e pra baixo...”
O círculo voltou a se fechar em volta deles, lenta, mas continuamente. Um estrondo paralisou o estranho balé de avanços e recuos, causando um rebuliço na passarada escondida na floresta.
“Muito bem, acabou a brincadeira, este foi pro alto, mas a próxima bala eu vou meter nos cornos do imbecil que der o próximo passo”, vindo de trás da roda de molambentos, o pai surgiu de um matagal empunhando uma espingarda de dois canos.
Silêncio.
Longos instantes passaram antes que voltassem os sons característicos da mata.
“Na boa, meu irmão, o problema continua: no máximo vocês derrubam dois de nós. Os que sobrarem jantam cês tudo, melhor dividir o que têm com a gente... escuta, não vou deixar que toquem no garoto.”
“Escuta você, quem tocar no garoto, morre.”


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Blecaute (4)



O pior engano é a certeza, as viravoltas do imprevisível espreitam nas cercanias da vida. E, se parece patética a preocupação constante de isolar e prevenir cada pequena minúcia, é porque estas são infindáveis, como a água de um mar que transbordasse, em pequenas quantias mas por toda parte e ao mesmo tempo.
Chegaram ao abrigo fortificado na madrugada de terça feira.
Dormiram nove horas seguidas de pura exaustão. Luz e internet ainda não haviam voltado quando acordaram. Os cinco sentaram nas cadeiras de campanha, dobráveis como a mesa onde foi servida a primeira refeição. Ele distribuiu à mulher e aos filhos os pacotes da ração de exército estocada que poderia sustentá-los pelos próximos dois ou três meses.
“De qualquer maneira, não podemos nos alimentar só com isso.”
“Como assim? Essas gororobas não são balanceadas, e tudo mais?” Bob sofria para abrir a embalagem marrom da MRE, a mítica ração de combate dos marines americanos. A namorada o ajudava derramando cuidadosamente a água pra reação química no aquecedor exotérmico.
“Acontece que esses kits são pensados pra situação de stress, daí os caras atocham sal e tempero flavorizante. É uma carga pesada nos rins de quem vai ficar relativamente inativo como nós. Mesmo em combate, eles não recomendam alimentação exclusiva com a MRE por mais de vinte e um dias.”
“O senhor acha que precisamos ficar aqui enfurnados muito tempo?”
“Bob, imagino o quanto é difícil pra você ficar longe da sua família, mas aqui nós temos que seguir uma estratégia...”
“Pai, ele tá mais perdido que cachorro em tiroteio, nunca fez os nossos acantonamentos, não tem nenhuma habilidade sobrevivencial, zero bush craft.” A menina tocava o dedo na ferida: os próprios filhos, e até a mulher no começo, reclamavam dos constantes períodos de treinamento. Ficou feliz com a ponta de orgulho que transparecia nas palavras da filha.
“Puá!! Esse suco tem gosto de maçã podre, eca!”
“Hmm, meu bem, põe um mel. Tem ali, naquele pote.” A mãe se desdobrava em cuidados com o caçula depois do ataque que sofrera. Ajudou-o com a tampa.
“Prova o frango com feijão. Sugestão do chefe: chicken fajita.”
“Pai, porque tem esse gosto de mofo em tudo?”
“É do processo da conserva, pelo menos não é liofilizada e o aquecedor químico funciona bem. Por um tempo é melhor a gente não cozinhar: a fumaça denunciaria a nossa posição. Precisa ficar claro que segurança total, só temos aqui dentro, será necessário esperar, monitorar, e só fazer saídas planejadas. Pelos próximos dias ainda pode haver gente por aí atrás de comida, depois vai diminuir, esta é uma zona rural.”
No dia seguinte começaram as ações externas, primeiro, foram pequenas excursões exploratórias nas imediações ― só iam os adultos. Não havia ainda uma situação clara na opinião do chefe do grupo, ou seja, o pai. Bob ficou indignado com a rígida hierarquia da família: o pai era o comandante; a mãe, a capitã; a namorada, sargenta; o irmãozinho, soldado... e ele, a mosca do cocô do cavalo do bandido. Sequer havia um cachorro que pudesse chutar.
Mas aí vieram as “missões” mais importantes.
Dividiram-se em duas equipes de dois integrantes cada, a mãe ficaria na base, controlando as operações a partir do bunker, acionando-os de cinco em cinco minutos pelo talk about. Palavra-chave: João de barro, só João, sinal de problemas. O pai e a filha desceriam até à chácara para verificar o estado da roça, colher o que pudessem no pomar e recolher o que ainda houvesse de útil na casa. Pelo lado oposto da encosta, Bob e o caçula iriam à nascente próxima com a missão de desobstruir a bomba d’água.
Por decisão do alto comando e estado maior, os dois namorados não iriam juntos em missões externas. Mais um sapo que o rapaz teve de engolir: na hora da saída, entregaram-lhe um facão de mato, mas a balestra Panzer ficou com o menino. Coronha de polímero, quatro flechas de dezoito polegadas (com ponta) e aljava acoplada. Do alto dos seus dezoito anos, não se conformava que não o deixassem nem chegar perto das facas de aço carbono, e ainda lhe pespegassem como superior um pirralho de onze!
“Cara, não conhecia direito teus pais... cheios de regras, né? Achei que a sua irmã exagerava um pouquinho nas histórias, mas é tudo verdade.”
“O que é que é verdade, Bob?”
“Bem, essa coisa de... sei lá, ordens, senhas, cronometrar tudo que faz...”
“Olha bem isso”, o menino levantou a blusa expondo o ferimento no abdome, “Você acha que eles tão exagerando? Véio, tá todo mundo muito pirado.”
“Certo. Ói lá, chegamos.”
“Deixa que eu sei o que é, são algas que entopem o comando de válvulas do carneiro hidráulico. Enquanto eu limpo, dá uma vigiada em volta.”
“Ok, parece que aqui todo mundo é fã do Bear Grylls...”
“Aí mano, você tem aí pendurado no pescoço um apito e duas pederneiras, você sabe a diferença, né?”
E assim, tendo que chupar mais essa manga sem tirar os fiapos, lá se foi o Bob dar um rolê nas adjacências só pra fingir que fazia alguma coisa. Não que esperasse encontrar uma loja de conveniências aberta. Se pelo menos pudesse levar a balestra, ainda dava pra caçar um que outro preá.
O garoto rapidamente desincumbiu sua tarefa, preparava-se para ir procurar o companheiro, quando soou o rádio.
“Alô, base, câmbio.”
“Câmbio, grupo dois, João de barro, câmbio.”
“Ok, câmbio, desligo.”
Deu de cara com uma cena apavorante: o Bob abria a mochila, tirava alguma coisa lá de dentro e entregava pra uma mulher molambenta e curvada como um tronco seco. A mendiga sumiu como um espectro na mata densa da montanha. Puxou o cunhado paspalho dali e também deram o fora quase correndo.
“Tá louco, bro?! Que é que cê tava fazendo, maluco?”
“Calma, meu, não precisa gritar comigo. Só dei umas barras de cereal pra coitada. Nós temos bastante...”
“Cala a boca, não, não acredito que você fez uma merda dessas...”
“Pô, mano, não é porque a situação tá pastosa, que a gente não vai ajudar quem tá passando fome!”
“Pois agora ela não passa fome, mas nós estamos passando peri...”
Antes que conseguissem acionar o rádio, ou mesmo engatilhar a besta, viram-se cercados por um bando de maltrapilhos.



sábado, 12 de julho de 2014

Blecaute (3)


O ferimento foi superficial, mas não a cicatriz.
Pelo menos, dali em diante ficou claro que desconfiar de tudo e todos era a receita vencedora a fim de conservar a pele. As pessoas não estavam se guiando pelos seus programas habituais de conduta e reação, amigos e conhecidos da vida inteira tornavam-se imprevisíveis como qualquer estranho da rua.
Os paranóicos, os eremitas, os fóbicos sociais, estavam um passo à frente, mas nada garantia a ninguém o cobiçado prêmio de sobrar pra contar a história.
Enquanto pedalava na estradinha de terra iluminada pelo farol do seu capacete, pensou no poder devastador das palavras: paranóico. Durante anos lutou com a etiqueta fácil colada no lombo pelos seus detratores, em vão repetiu mil vezes nas redes sociais que um sobrevivencialista não é um maluco das teorias conspiratórias, dos apocalipses espetaculares.
Pelo simples fato de que não há uma narrativa unificadora, o mundo não precisa acabar em apoteoses hi-tech de efeitos especiais, nosso cotidiano apenas deteriora imperceptivelmente na sua cantilena brutal e diária de tragédias. Grandes e pequenas.
Nada acontece porque estamos anestesiados por sonhos de consumo. E aconteceu de ele, e sua família por extensão, estarem preparados. O passado já saiu das nossas mãos, é lenha queimada. O futuro será o que fizermos dele, é promessa de fogo. Todas as escolhas da vida prática se dão entre pensamentos, pois será sempre tarde demais pra escolher sobre os acontecimentos.
Este é o motivo primeiro e último da preparação.
Sinalizou para os retardatários passarem à sua frente. Parou. Consultou o seu relógio Suunto Ambit. Estavam no local exato.
“Vai mesmo fazer...?”
“Óbvio que vou. É a única via de acesso pra carros.”
“Quer ajuda?”
“Não precisa. Leva as crianças pro morro, vou ajeitar os explosivos.”
Fixou as cargas com fita adesiva nas pilastras da ponte rústica, ativou o timer e se afastou rapidamente. Dispunha de três minutos.
“Desçam das bikes, abriguem-se atrás do tronco de uma árvore grande. Estilhaços podem vir da direção a oito horas deste ponto.”
“Mãe, posso ir na curva com o Bob ver a explosão?”
“Seu pai já não falou dos estilhaços? Agora tapa os ouvidos, menina, que o deslocamento de ar é bruto.”
Com efeito, dali a pouco foram sacudidos por um tremor que ecoou nos vales ao redor. Os pássaros saíram em revoada assustados na mata, depois, novamente o silêncio e a noite fria.
Chegaram extenuados ao sítio Recanto da Encosta, que, contrariando o nome, ficava no alto de uma montanha nas fraldas da Mantiqueira. A porteira escancarada, cachorros sumidos, a criação de gansos, cabras, coelhos e galinhas roubada. Previsível.
Tomaram o rumo norte pela trilha que saía por trás da horta, também ela rapinada. Doía pensar que tamanho estrago havia sido provavelmente obra dos vizinhos. Assustava pensar que a casa, assestada no pequeno platô antes do topo do morro, estivesse ocupada por invasores hostis. Mas não era pra lá que se dirigiam.
“Porque o senhor está jogando esses bagulho?”
“Bob, isto aqui são ‘bombas de sementes’, combinados de germinação dos frutos, folhas e legumes necessários nos próximos meses: espinafre, agrião, abóbora, quiabo, jiló, nabos, beterrabas e os sempre ligeiros rabanetes.”
“Acha que vai durar tanto... meses?”
“Acho só que não sei. Mas não quero ser pego de calça curta. Quem rapelou nossa chácara não vai voltar pra cultivar. Na próxima chuva isso já começa a brotar, e a nossa reserva dá justo em cima.”
“A gente consegue viver do que a terra dá?”
“Sustentabilidade, garoto, temos uma mina d’água no terreno. Podemos complementar com caça, quem sabe, achar algumas cabras e galinhas perdidas no mato e recomeçar uma criação. O importante é resistir aos primeiros dias de balbúrdia.”
Como antevira, a queda generalizada da energia elétrica paralisou também a governança local e mundial. As agências públicas veiculavam pouquíssimas informações confiáveis, e, quando o faziam, competiam entre si na inépcia e falta de coordenação. Por exemplo, a clássica recomendação “fiquem calmos, evitem deixar as suas casas”, resultou no extremo oposto.
Uma sucessão de erros macabros: como a maioria das pessoas não estoca alimentos em casa, a população correu a saquear os mercados; colocar exército e polícia nas ruas só serviu pra expor imagens de saqueadores armados e fardados sem uma linha coerente de comando.
Sua grande obra, o Recanto da Encosta. Horta orgânica, pomar, oficina, placas de captação fotoelétrica, cantinho da compostagem, de tudo isso abriria mão naquele momento pela verdadeira jóia da coroa: o bunker enterrado no topo da montanha. Lá estariam seguros, protegidos sob grossas paredes de concreto, além das duas portas blindadas com chapas de aço balístico reforçadas por barras anti-arrombamento feitas de mola de caminhão.
Abaixo um esboço do Ninho do João de Barro:


domingo, 6 de julho de 2014

Blecaute (2)


O ódio é o irmão mais velho do amor.
Sempre pregara que, sob condições de exceção, prevaleceria o primogênito sobre o caçula, mas só nos mais turvos cenários distópicos imaginara a guerra de todos contra todos que testemunhava abismado.
Pode ser que tenham existido conflitos que mobilizaram somente a destruição “necessária”, por exemplo, o mínimo de agressividade implicado na defesa de si mesmo. O que se via era uma explosão de violência ilimitada, racismo, xenofobia, assassinatos aleatórios, estupros, destruição de monumentos e habitações, tortura, assaltos e violações de todo tipo.
Um Carnaval do Mal. Fora de época e de controle.
Afetos de ódio extremamente potentes se desencadeavam materializando a fúria indiscriminada de um dragão de sete bilhões de cabeças. O blecaute atingira todo o planeta, e ninguém, na internet congestionada, sabia explicar a razão de tantos sistemas independentes caírem ao mesmo tempo em todos os lugares.
Passadas cinco horas sem luz, caiu a internet. Os celulares já estavam mudos a essa altura. No breaks, baterias e geradores responsáveis pelos backbones dos grandes servidores foram rapidamente consumidos pelo estado de hiperconectividade que seguiu imediatamente ao apagão.
A desorientação, por incrível que pareça, piorou ante a falta de transparência dos exércitos e das instituições de defesa: naquela emergência global, os militares pareciam mais preocupados em proteger armas e instalações nucleares do que em atender a população aflita.
Uma segunda feira que escoava modorrenta e trabalhosa como as outras, até quinze minutos depois das três da tarde. O que teria causado aquilo? Algum vírus de redes de geração e distribuição de energia? Uma tempestade solar?
Aconselhou o namorado da filha a desligar o telefone para poupar a bateria, iam necessitar do GPS para achar a trilha no escuro. Instintivamente, consultou o velocímetro: faltavam os derradeiros quilômetros que os separavam da chácara, a maioria deles numa estrada de terra que subia acentuadamente na parte final.
“Quanto ainda falta?”
“Treze. Dá uma boa golada no seu squeeze, você tá bem cansado... mas não podemos parar agora, no nosso sítio estaremos em segurança.”
“Pai...”
“Que foi?”
“As pessoas são... assim?!”
“Bom, elas ficam assim nas grandes calamidades...”
“Mas é que, não entendo...”
“Você sempre me ouviu dizer que existem apenas duas categorias de indivíduos, os que são maus e os que são muito maus...”
“... mas nós chegamos a um acordo e chamamos os maus de bons, e os muito maus de maus. Eu sei.”
“Me desculpe.”
“Pelo quê?”
“Por ter trazido você pra este mundo. Você merecia outra coisa.”
O menino não compreendia. Onze anos só. Não era uma boa idade pra rasgar os véus da ilusão e ser apresentado de forma tão crua à crueldade, ao medo e à estupidez que emergem no ser humano quando as instituições portadoras do sentido derretem.
Não compreendia, sobretudo, a gratuidade.
Aconteceu quando saíam de casa. Ele escutou um assobio, parou de pedalar pra ver quem chamava. Olhou pra trás e viu um rapaz magro, de cabeça baixa, usando uma camiseta surrada e um boné que lhe cobria os olhos.
Quando viu a faca na mão, o desconhecido já estava a um metro. O garoto tentou sair com a bicicleta, virou-se de lado rapidamente, e sentiu uma ardência terrível na barriga. Como uma ferida mergulhada na salmoura.
Viu a faca cair no chão: era de cozinha, daquelas pequenas, serrilhadas. O estranho não tentou roubar nada, nem mesmo a bicicleta. Só queria machucá-lo.
Olhou nos olhos do agressor, não havia dor, não havia raiva.