sábado, 28 de maio de 2011

o menino quer acordar - parte 3 (final)





“O quadro inicial se esclarece. Estaria completamente morto para a beleza aquele que não se enamorasse da divina Anunziatta uma vez que a visse, e o novo Duque da República de Veneza, apesar da provecta idade, não ficou imune à aura virginal que dela emanava. Anunziatta vinha a ser filha de um nobre de antiga cepa, Oreste della Quercia, com várias gerações da família inscritas no Libro d'Oro, no qual se registravam todos os nomes da nobreza veneziana. As bodas foram realizadas com a pompa do patriciado e a pressa do ardente desejo que espicaçava Tonino Palocci, o salvador da república, o conde eleito Duque. São eles, Doge e Dogaressa, que o quadro a óleo retrata.



Fechava-se deste modo a teia de poder e influência que o talento de bastidores de Giuseppe Dirceo tecera: tornara-se fiador do líder máximo e, de quebra, apadrinhara uma aliança matrimonial com o influente círculo dos corretores da bolsa de Rialto. Fiel ao seu estilo de perfil baixo, o líder do influente Conselho dos Quarenta assistia ao Dia da Ascensão, que celebra a união de Veneza com o mar, de um balcão da Loggia do Palazzo Ducale. Na laguna à sua frente, tendo a Isola de Giudecca a limitar sua visão do mar para além do Gran Canale, assistia às manobras da galera oficial do estado, o Bucentoro.



O sol cadente resplandecia em brunidos tons de amarelo, vermelho e fúcsia, quando colossais massas de nuvens cobriram repentinamente os céus; o rugido apavorante dos trovões atroava, raios de prata iluminavam os ares, as águas, encapeladas por ondas gigantescas, balançavam o Bucentoro perigosamente aterrorizando a tripulação e o povo no porto. No trirreme de fundo chato, inapropriado para manobrar em mar tão agitado, viajavam 168 marinheiros, 90 autoridades da República sob um baldaquino de veludo vermelho e, no trono da popa, o Duque e sua esposa. Dir-se-ia que Netuno recusava o anel de ouro atirado às águas pelo Doge no ritual que marcava o dia da sua consagração.



Partindo do mole do porto de San Nicolò, um destemido gondoleiro faz-se ao mar manejando destramente sua pequena embarcação na tempestade, salvando Palocci e Anunziatta do naufrágio iminente. Era o belo Luigi Calamaro, vulgo Seppiolina. A multidão no cais carrega os três até à Piazzetta em delírio, pedindo aos brados que a Seppiolina fosse conferida a honra de ser o ‘Turco’ na festa do Giovedi Grasso. Oculto pela treliça de madeira de um muxarabi, Dirceo, que não perdera nenhum lance dos dramáticos acontecimentos, decide cooptar o novo herói popular, principalmente ao perceber o jovem magnetizado pela inebriante duquesa.



Chega o Carnaval, todos aguardam o ‘volo del Turco’, em que Seppiolina descerá uma vertiginosa tirolesa que se arma no campanário da basílica e cujo fio termina no balcão em inigualável estilo gótico da Dogana. Lá, em troca do ramalhete que traz em mãos, será recebido com honras e recompensado da proeza com régia quantia em ouro e ducados. Mas o boquirroto gondoleiro, alçado à condição de celebridade, não largara o hábito de se embebedar nas tascas e tabernas: numa destas esbórnias, um agente do serviço secreto de Dirceo aprende que ele reconhecera na duquesa sua meia-irmã, da qual fora separado em criança.



A história fazia sentido, era voz corrente que Oreste della Quercia gerara um filho bastardo, criado junto com filha legitima até à idade de dez anos, quando a Signora della Quercia descobriu tudo e expulsou a empregada e a criança de casa. Seria um escândalo se o novo queridinho das massas fizesse um discurso acusador aproveitando o palanque festivo. Assim que Seppiolina aterrissa e recebe sua recompensa, o consigliere o leva para conhecer o palácio, a um tempo, residência ducal e centro administrativo e judiciário da curiosa república, mistura de aristocracia e democracia.



Ciceroneado por Beppe Dirceo, Seppiolina se deixava levar como que enfeitiçado: afrescos, marinhas, esculturas pagãs, frisos de templos, espólios de nações bárbaras, sucediam-se numa panóplia infinita ao longo das alas do Palazzo Ducale, que, apesar da imponente fachada voltada para a laguna do Gran Canale, possui uma arquitetura interna extremamente leve e arejada. Mesmo para um veneziano nato, era arte demais.



Circulavam então versões maldosas de que o velho Doge tinha já muitas dificuldades em acordar suas forças viris; falava-se à boca pequena de nefandos sabás, no qual chegaria a correr sangue de inocentes, realizados nas câmaras secretas da Dogana, apenas para espevitar fugazmente o ‘nervo’ micróbio do macróbio guerreiro. Num aposento de altas portas folhadas a ouro, adamascado em tons escuros, maciços lambris, movelaria exótica e uma imensa cama de dossel de veludo lilás e lençóis de seda chinesa, Seppiolina soube que a verdade ia além do imaginável.



Ali, nobres e mercadores nacionais, embaixadores estrangeiros e tutti quanti, faziam fila para desfrutar do corpo angelical de Anunziatta; a pobre criança acreditava assim honestamente servir a seu país, enquanto o caviloso Dirceo celebrava seus acordos ― e o Duque se comprazia destas abomináveis orgias e profanações ao seu próprio leito conjugal! Luigi Calamaro, conhecido como Seppiolina, descobriu que idolatrara uma entidade bela, mas efêmera, a sua amada Serenissima Repubblica incorrera na mesma desmedida que havia destruído o seu modelo e limite, Atenas.



Enquanto ele se refocilava no leito de Anunziatta, o povo cantava nas ruas em dialeto vêneto: ‘Il Dose Palocci/ della bella mujer/ I altri la gode/ é lui la mantien!*
Naquela noite dançaram a Bunga-Bunga."


***

“Nós tínhamos poucas diversões e passeios. Fui criada na primeira metade do século vinte, uma época em que o lazer era para poucos, e muito pouco para os pobres. Fazíamos muita economia porque havia um desejo mudo, mas sempre subentendido, de melhorar de vida. Festa de pobre, ao menos de pobres como nós, significava comilança.



Tenho vivas saudades dos piqueniques que fazíamos nas margens do Córrego da Água Rasa; também era comum pegar carona na camionete de frango e ir com merenda e parentada mais longe, até ao Tamanduateí.



Os rios de São Paulo são invertidos, isto é, correm para o interior em vez de irem para o mar. O Tamanduateí, por exemplo, desembocava no Tietê, mais ou menos onde hoje é a Avenida do Estado; já o Tamanduateí recebia as águas do antigo rio Anhangabaú lá onde a Avenida São João encontra o vale do Anhangabaú.



O vale sobrou, o rio não. Enterraram muito córrego, retificaram e desviaram muito rio nesta cidade construída em cima de várzeas. Foi numa destas várzeas, nas barrancas do Córrego dos Meninos, onde tudo aconteceu.



Eu não deveria ter feito dez anos e me encarregaram de olhar por Neuda, a caçulinha tão mimada por papai e mamãe. Neuda está com três anos, um verdadeiro azougue de menina a quem mamãe nunca disse não. Foi quando descobri a maldade, ao menos aquela que cabe no coração de uma criança.



Ela foge de mim, apressando o passo ao virar um capoeirão que ocultava a descida para a margem do riozinho. Corro gritando, mandando que ela esperasse por mim; na saída dos tufos de capim-gordura, paro no topo do barranco. Neuda me olha com uma expressão estranha no rostinho sardento.



Não, não é possível... não consigo ver o que acontece então! Quando volto a mim, Neuda rolou morro abaixo e está se afogando. Há gritos. Meu pai se atira nas águas para pegá-la, minha mãe corre para a margem. Meus irmãos chegam.



Daí mamãe me pega, a fisionomia retorcida, os cabelos revoltos ao vento da tarde quente de novembro. Ela berra comigo. A princípio não escuto, mas aos poucos as palavras me atingem como lâminas em brasa, ela me aperta os braços e grita na minha cara: ‘Que é que você fez? Por que você empurrou sua irmã?’ Tento responder: ‘Não fui eu mamãe, não fui eu, juro!’ O choro me sufoca.



Neuda teve muitos problemas a vida toda. Bebia demais, aprontava demais. Sempre cuidei dela, como também cuidei de mamãe e papai até morrer. Passei a minha vida querendo provar que não tinha feito aquilo, que podiam confiar em mim, que sempre fui boa. Servi aos outros porque achei que não prestava para outra coisa.



Estou cada vez mais certa de que meus pais deram aquele filho que nasceu antes da Neuda para a adoção. Só isso pode explicar as trevas que envolvem a minha infância depois disso, só assim para entender os mimos e quindins com que criaram a filha que veio depois. Não acho outra explicação para a raiva que havia naquele olhar de minha mãe.”


***

Quanta ironia. Quanto mais vivemos, mais voltamos para a infância. O professor não consegue abandonar seu amor incestuoso pela irmã gêmea, Maria da Anunciação. Nunca se conformou de a ver casada com um homem bem mais velho, nunca deixou que outra mulher ocupasse o lugar dela, a mulher com quem se iniciou sexualmente e a quem nunca conseguiu renunciar completamente.



Já a senhora à direita do meu leito tem um problema também infantil, mas com uma volta a mais no parafuso. Ela não pode saber o que realmente aconteceu naquele dia. Ninguém pode. Por baixo da versão não há fato, apenas outras versões. É quase impossível sermos irmãos, queremos o amor de papai e mamãe só para nós. Que ela não tenha ido além da narração familiar foi um tremendo desperdício de vida.



Fui concebido por meio de uma técnica de fertilização assistida. O médico responsável encontra-se foragido da justiça acusado de inúmeros crimes. Nunca consegui contar aos meus pais que não sou filho deles, ao menos não em um sentido biológico. O tal especialista em reprodução utilizou material genético de outros, fez experiências comigo.



Há outras 44 crianças de várias idades em coma com a Doença do Sonho ao redor do mundo, todas foram geradas com a técnica de inoculação intracitoplasmática. Resumindo: injeta-se uma célula na outra furando-a com uma agulha muito fina. Isto fica bem bonito em telas de alta definição.



Embora este não seja o linguajar que se espera de uma criança da minha idade, devo lhes dizer que, neste momento, já existem governos e empresas que estão manipulando o genoma humano. Continuem sonhando.



(* Em tradução pudica: ‘O Doge Palocci/da bela mulher/os outros a aproveitam/e ele a mantém!’)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Enrosco


Queria tanto ouvir a pergunta...tanto...

livrar-me desse engulho

desse nó de enforcado

que ainda me prende


Pergunte ...

e eu lhe direi :

que não quero nada

que não espero nada

que não estou no jogo

que estou em outra


Pergunte...

mas você não pergunta…

terça-feira, 24 de maio de 2011

o menino quer acordar - parte 2

“Agosto de 1354. O intrépido almirante genovês Emilio da Medici acaba de infligir um duro golpe ao império do leão marinho, causando pânico e destruição na cidade aliada de Parenzo e já ameaça o próprio centro dos seus vastos domínios marítimos. As galeras do inimigo rondam ao largo de Veneza como feras predadoras sedentas de sangue, o povo se reúne nas igrejas e praças da cidade esperando pelo pior. Da Medici, conhecido como Garra Azul, é famoso por não fazer prisioneiros. No porto de San Nicolò, o populacho e os nobres membros da Signoria tentam, em esforço desesperado, bloquear a entrada do Gran Canale afundando barcos, gigantescas toras e barrotes de madeira ligados por pesadas correntes de ferro.

E quando tudo parecia não poder piorar, o Doge Tancredo Nivio morre repentinamente durante suas preces matinais. Os poderosos armadores e banqueiros do Rialto se perguntam quem poderá lhes valer, quem seria o homem forte a guiar os destinos da Serenissima Repubblica em hora tão extrema? Então, faz-se ouvir a voz do multifário conselheiro Giuseppe Dirceo: ‘Não será entre vós que encontrareis tal homem; olhai para o norte, até Avignon, para onde mandastes Antonio Palocci congratular o recém-empossado Papa Inocente’. Assim lhes falou e, contentes, pronto equiparam uma frota com a qual o novo Doge arrostaria o oceano para oferecer combate aos genoveses.

Grande foi o acerto do avisado consigliere, Antonio Palocci não só era um experimentado comandante, temperado nas duras batalhas do Levante, como era amado pelos venezianos, que o tratavam afetuosamente por Tonino, il caro contino. Após cruenta luta, na qual muitos barcos e vidas foram tragadas pelas frias águas do mar Adriático, a frota adversária foi obrigada a fugir desbaratada por impiedosa tunda. Salva estava a pátria, festejos eclodiram em extemporâneo carnaval que se alongou por uma semana de licenciosidades e regozijo. Mas, para Dirceo, o jogo estava só começando, sabia ele que o velho comandante era viúvo, o que não quadrava bem ao líder máximo da cidade-estado. Planejava apresentá-lo imediatamente à deslumbrante Anunziatta.”


“A riqueza do pobre são os filhos.
Nós éramos bem pobres. Nove filhos, onze bocas para dar de comer. Uma vida dura, mas cuja dureza era atenuada pela sensação, que trazia em si uma espécie de orgulho, de estarmos juntos no mesmo barco. No mesmo barco. Acho que a canoa virou nos anos que antecederam ao nascimento da minha irmã caçula; antes da Neuda, mamãe perdeu um bebê recém-nascido. Meus pais nunca mais foram os mesmos.

Os filhos nasciam em casa. Vinha a parteira, dona Ermínia, uma senhora bem velhinha, rezadeira que também tirava quebrante, e a molecada saía, espalhada na casa de um e outro parente. Nessas ocasiões sempre me mandavam para a casa da vó Balbina, eu era o xodó dela. Isso, a Neuda nunca aceitou.

Estou na casa da minha avó, mas já sou adulta, no entanto, ela e o meu avô falam aos cochichos, como faziam nos acontecimentos sérios que as crianças não podiam saber. Meu avô deixa escapar que tinha sido melhor assim, já que meu pai estava desempregado. Minha avó, sentada numa cadeira desproporcionalmente alta, assente: ‘Deus, em Sua imensa misericórdia, há de perdoar... num transe destes, não havia outra coisa a fazer...’

Uma escuridão sobe do assoalho e engole toda a cena. No instante seguinte, já estou na sala da nossa casa, mamãe está passando pilhas e pilhas de roupa com o ferro de carvão. O cheiro de madeira queimada me envolve numa névoa de lembranças descabeladas. Mas algo corre mal.

Minha mãe, desconsolada, os olhos muito fundos empapados no rosto magro de mamãe, a sombra da tristeza de mamãe que cairia durante anos infinitos sobre toda a nossa família. Ao menos para mim, até ali, tínhamos sido tão felizes...
O retrato do bebê na parede parece muito maior do que antes. Será possível que nunca tivesse reparado nisso? Neuda está na sala, ao lado de mamãe, como foi a vida toda."


Conhecer o sonho das outras pessoas é conhecer a toca do coelho, é ganhar uma chave que dá acesso aos bastidores daquilo que elas desejam, coisa que, em geral, são as primeiras a desconhecer. Percebi que quase todo mundo utiliza dois tipos de mapas caolhos: poucos entendem o tempo e o lugar onde estão, e menos ainda são os que sabem quem realmente são. Por isso é que somos tão facilmente manipulados.

No princípio, gostei de fazer o papel de menino precoce, bancar o sabe-tudo; cheguei a aparecer na TV, era um daqueles meninos-prodígio de programas de auditório, um menino-monstro; na real, todas as crianças ficam meio monstruosas na televisão. Virar uma espécie de aberração de circo mambembe acabou me cansando; acordados, os seres humanos na maioria das vezes são banais, não criam nada.

Vejam o meu caso e o dos meus companheiros de UTI: só estamos vivos enquanto pudermos inventar uma outra coisa. Quando alguém aqui esquece disso, vai. O professor, à minha esquerda, teve um caso incestuoso com a irmã, o que o preenche de culpa e apego a uma antiga história italiana, a senhorinha, por outro lado quer remontar um episódio da infância sobre o qual tem muitas dúvidas.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Momentum


Fica o dito pelo não dito

o feito pelo desfeito

você realmente acredita

que mudar a historia

apaga a memoria?

que não falar do feito

desfaz o fato?

que rasgar o retrato

refaz o ato?

que com o homem morto

morre o sonho?


Que tolo!

domingo, 22 de maio de 2011

o menino quer acordar - parte 1


“A imagem inicial é um imenso quadro a óleo; em primeiro plano, banhados por uma luz celestial, aparecem as figuras esplêndidas de um Doge de Veneza e sua esposa que avançam na direção de uma balaustrada. Trata-se de um homem velho de barba cinzenta, seus traços revelam, sob o bronzeado marcante, uma grande mistura de sentimentos, ora impetuosidade e orgulho, ora hesitação e inquietude; ela é jovem, quase menina, e não precisamos de muita imaginação para ver nela a aparição de um anjo, sua expressão cintila delicadas fulgurações de arrependimento, desesperança e fé. Atrás deles, paramentados com rico libré, um homem segura um guarda-sol ornado de borlas douradas e uma mulher carrega nos braços uma bacia de prata com água e toalhas brancas.

De um dos lados da balaustrada, um rapaz sopra uma concha de tritão e, nas águas abaixo dele, desliza uma gôndola ricamente decorada de onde se ergue a bandeira veneziana ladeada por dois remadores. Na larga extensão marinha que se vê ao fundo do quadro flutuam centenas de velas; à esquerda, divisa-se o campanário da basílica de San Marco, enquanto que, mais para a frente e à direita, as cúpulas da igreja de San Giorgio Maggiore e, mais além ainda, pontificam as torres arredondadas em estilo mourisco dos palácios de Veneza, a Magnífica. Na parte inferior, pintadas como se houvessem sido esculpidas num brasão de pedra, liam-se as seguintes palavras:

In una cascata di sangue
navigherò con una rossa vela
per orridi silenzi
ai cratèri
della luce promessa
A. Pozzi”



“É a velha casa da minha família, onde morei por toda a minha infância e onde meus pais moraram até morrer, na Ponte Rasa; mas a disposição dos cômodos lembra a dos meus avós, na verdade, o terreno de todas as casas era comum, meu avô foi construindo aos poucos no sistema de mutirão de vizinhos: nos fins de semana minha avó fazia uma galinhada, uns traziam pão caseiro, outros, maionese, farofa ou vinagrete, e assim se juntavam os homens e os rapazes com força de homem para ‘bater a laje’. Virar adulto, na época, era o mesmo que casar; todos os tios e tias ao casar ganhavam um puxadinho de parede colada no entorno da vila operária. A exceção foi o tio Miro, que se mudou para a casa dos fundos da família da mulher.

Não sei dizer o que mais fortemente ficou gravado em mim da casa da vila. Poderiam ser os pratos americanos de bordas bisotadas com desenhos de flores geométricas. A fruteira de palha trançada no centro da mesa. Os talheres, comprados um a um, de tamanhos e formas diferentes. Ou ainda os copos, de vidro para os pais, de plástico opaco para nós, as crianças. O porta-guardanapos de ferro polido, presente de casamento, que ficava na cabeceira da mesa junto ao lugar do meu pai. A lata sem tampa onde se guardavam as fatias torradas do pão de véspera, de um azul desbotado em que estrelinhas douradas resistiam sob os arranhões e as partes enferrujadas. O feijão mulatinho, o arroz, que nos dias de festa vinha acompanhado de tomate, coentro e colorau.

Mas talvez sejam mesmo as fotos ― as únicas enquadradas ― que ficavam na sala, ao lado do rádio a válvula: uma casinhola de pedra em Brubno, na Croácia, de onde a família da minha mãe fugira na 1ª Guerra e, ao lado, a foto de um bebê. Coisas soltas e descasadas como eram os objetos daquela casa, coisas que venho carregando há tantos anos e com tanto trabalho, equilibrando-as para que não caiam e quebrem, levando junto consigo as relíquias memoriosas daquele tempo mágico.”



Eu sou mais sabido do que deveria para os meus onze anos incompletos. No começo, meus pais acharam que era a internet e a TV; bloquearam sítios e canais impróprios. Nada a ver. Depois veio a fase holística, me levaram a médiuns, benzedeiras e até mesmo a uma monja budista. Se eu dizia coisas tão surpreendentes, vai ver era ‘sensitivo’, ‘evoluído’, ou coisa assim. Ruim mesmo foi a fase dos psiquiatras infantis, fui tachado de bipolar, autista, DDA e superdotado. Atualmente, são os neurologistas.

É osso. Ninguém sabe o que está acontecendo e saem falando um monte de groselhas na maior cara de pau. Não sei como isso aconteceu, o que sei é que aprendi, ou vai ver já nasci sabendo, a entrar no sonho dos outros. Basta dormir perto de uma outra pessoa que está dormindo, e ploft!, já estou dentro dos sonhos e fantasias dela. Descobri isso depois de sonhar noites seguidas com músicas (as músicas mais lindas que já tinha ouvido!) e vôos pela cidade. Voava de árvore em árvore, cantava, escutava, procurava, pegava insetos, migalhas e minhocas e morria de medo dos gatos. Não existe nada melhor do que poder cantar e voar.

Levei meses para entender que estava dentro do sonho de uma sabiá que tinha feito ninho no galho perto da janela do meu quarto. Daí trouxe meu cachorro para dormir na minha cama e comecei a ter sonhos perfumosos, um mundo de cheiros incríveis que eu desconhecia totalmente. Me arrependi MUITO de ter pedido para voltar a dormir na cama dos meus pais. Mas aí não parei mais e, de tanto dormir, esqueci como se desperta.

Os médicos dizem que estou em coma sem causa aparente, mas dão esperança aos meus pais dizendo que há atividade cerebral. Se soubessem! Esses dois sonhos aí acima são dos meus vizinhos de UTI, uma senhora velhinha que sofreu um derrame e um professor de história que teve um acidente de carro. Eu só quero acordar.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

caleidoscópio de ouvir



homem
árvore
sol
sol entre ramos
como ao nascente

uma certa
juventude
eterna e irreprimível

minha prosa
não é poética
minha poesia
algo prosaica

quarta-feira, 18 de maio de 2011

18 de maio 2011

Dasdoida: Qual a sua Loucura?

Teorema da Incompletude


Ai! Esta eterna desconfiança de mim mesma

esta impressão de sempre

deixar algo para trás

uma palavra por dizer

um adeus não dado

um gesto por fazer

um carinho negado

um desaforo não respondido

algo esquecido em algum lugar

tudo é tão incompleto

sempre falta

sempre estou em falta

e o pior o pior de tudo

o que mais atormenta

é aquilo que esqueci

e sei que esqueci.

e não sei o que é.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Tempos Modernos.

Ela não era muito chegada nessas modernidades eletrônicas como a maioria das pessoas nascidas antes da década de 70. Faltava-lhe um chip ou algo do gênero acrescido do fato de não gostar de mudanças, por ela tudo permaneceria igual e teve o azar de nascer em uma época em que tudo muda muito rápido. Qualquer criança era melhor que ela. Tem medo desses objetos que não entende como funcionavam. Aprendeu a usar o computador para coisas básicas. Morria de medo de ficar como aqueles idosos que não tinham coragem de descer pela escada rolante da Prestes Maia (uma das poucas dos anos 60) e vacilavam na beirada dela com aquele mundaréu de gente atrás esperando para descer. Não queria ficar assim em frente ao caixa eletrônico.

Claro que pagou todos os “micos” que quem é dessa geração sabe quais são e quem não é também sabe por que teve que socorrer uma tia, a mãe, o pai etc.

E-mail?! Grupos sociais?! Ela demorou uns dez anos para começar a usar e isso só aconteceu por conta do encontro da turma de faculdade. Fax só o da papelaria perto de sua casa e porque o rapaz passava para ela. A tal da modernidade foi entrando em sua vida numa velocidade que não conseguia assimilar.

O telefone celular foi outra história. Resistiu o mais que pode, achava desnecessário e não gostava daquele aparelho. No aniversário deste ano (isso mesmo deste ano) ganhou um celular dos irmãos. Argumentaram que a mãe estava idosa e que eles já não eram tão jovens e que um celular poderia ser de grande valia principalmente para ela que morava sozinha.

Aceitou meio ressabiada e devagar foi aprendendo a usá-lo, não sem antes fazer algumas confusões típicas. Não conseguia que o telefone só tocasse, ele vibrava e tocava e ela tinha medo de mexer nisso, enviava mensagem para a pessoa errada e uma vez chegou a fotografar seu pé e enviar para seu irmão sem perceber e ele a reconheceu pelo sapato. Maior vexame. Assunto do almoço de domingo... Seus sapatinhos enviados por engano. Um dia tentou subir a escada rolante de um Shopping pelo lado errado distraída que estava tentando atender uma chamada. Vexame total! O pior é que o celular a deixava tensa achava que não podia separar-se dele e o levava para todo lugar. Ele possuía lugar de honra na mesa de refeição, na do escritório e até na mesinha ao lado da cama. O problema era arrumar um lugar para ele no banheiro, se entrava no chuveiro o colocava no assento sanitário, mesmo achando o lugar inadequado, mas quando ela estava usando o assento era o maior problema, se o colocava no chão receava que molhasse ou que distraída pisasse nele. Resolveu que o melhor lugar seria na pia, na parte mais larga dela, cuidava de secá-La e punha seu celular lá. Assim foi por vários dias até que um dia ele tocou. Tocou não! Começou a vibrar e tocar e pulava feito um doido, parecia que tinha adquirido vida própria e saltava mais que criança pisando em areia quente, demorou um pouco para ter condições de levantar-se. Conseguiu evitar o desastre e segura-lo a tempo. Só não conseguiu segurar o mau-humor. Decidida aposentou o celular.


PS Sinto ter perdido os comentários dos amigos que passaram por aqui ontem. Penso que depois desses dois dias, os transtornos da minha personagem ficaram por demais simples. A Blogger ganhou de longe e essa modernidade pega a todos até os modernos. .


domingo, 8 de maio de 2011

cheiro de cão molhado de chuva


afetos são vermes que roem
os invólucros da lembrança
voragem líquida da lente da memória
o mofo que recende na camera oscura
da consciência ― em tudo que deforma
os ritmos da luz e do sangue os encontramos
no Japão desocultam estes fluxos
rompem-se as eclusas da noite imensa
construída de trevas e espaço e olvido
carta fechada de um destino
a me ultrapassar por todos os lados
sob beirais e cimalhas nas sombras
dos portões de ferro a veneziana
que as formigas contornam subindo
a parede a beleza remida pelas idades
que impregna as coisas espécie de alma
das vidas vividas e daquilo que não poderá
ressuscitar o amor é apenas isso
um setembro guardado em papel
de rebuçado (rima rica solidão e sépia)
que todavia se apodera dos intervalos
comerciais das pedras de cantaria
dos antúrios da cidade sob
os escombros

amor de bicho


eu via
que ou visses
onde ele
déja viu


iconoclássica bobagem de quem não tem
dez paus
bilhete único vale-transporte ou a grana
do busão


microdespidas transex causam tremendo
rebuliço
agora escrevo o amanhã que já não sei
se há
se houve se haveria e
será


ao ir me indo vou
pasmo
porque o tesão não carna a rima
& a solução


tomo o elevador visionário (do shopping)
parei
de parar de balançar cem mil vezes o barco
bêbado
paixão é amor
de picas
jorrando ao céu
seus rufos


de que adianta construir pontes entre
os mistérios
e seguir caminhamando
sem sustos
?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Semelhanças


As pequenas gotas brilhavam nas grades do portão. Eram tão transparentes, tão puras como cristais pequenos. A luz do sol chegava ate elas, uma luz de fim de tarde de verão quando o calor e a claridade já não machucavam. Ficavam ali penduradas desafiando a gravidade.

Uma garoa fina e bem espaçada caia e refrescava ainda mais o dia. Sai andando aproveitando aquele tempo ameno e contornei o quarteirão. Acendi um cigarro (maldito vicio que pensei ter me livrado) e enquanto aproveitava meu pequeno intervalo vi uma mulher que me pareceu conhecida. Tinha o cabelo escuro, ondulado, farto e curto, a pele clara mais ou menos a mesma altura, peso e idade de uma amiga de trabalho perdida em algum volteio da vida. Chegando mais perto vi que não era ela e que deveria estar com a aparência diferente depois de tanto tempo.

Sempre acho estranho como vou encontrando “conhecidos” pelas ruas. É como se houvesse alguns padrões que se repetem e que com o tempo a gente esquece as particularidades. Ficam na memoria os traços gerais: o padrão. E é justamente esse esquecimento das particularidades que possibilita que eu imite as pequenas gotas desafiantes e por um segundo seja eu a desafiante das leis da natureza e reveja pessoas que já se foram e mate um pouco a saudades.