quarta-feira, 30 de outubro de 2013

a escolha do Supremo (3)


O Deus de um homem é o monstro do outro. De resto, o que se faz na vida é jogar. Tudo pode fazer parte do jogo no grupo de doze pessoas que trabalham na 1Q84, salvo política e religião. Menos pela primeira que pela segunda, em pouco tempo ficou evidente a necessidade de impor limites de cima pra baixo; maiormente por causa da bancada evangélica: majoritária, multifacetada e proselitista. Com o poder de Cristo não se bole.
Adotamos o sistema japonês: uma bancada contínua serpenteia em ângulos retos através do escritório, não há paredes, salas fechadas, nem divisórias, cada um dispõe de uma porta de armário, uma cadeira, um terminal e, eventualmente, alguns servidores. Todos vêem e ouvem todos, o tempo todo. Ninguém está imune à zoação geral, exceto o Capo di tutti i capi ― embora soe pretensioso, tive de proteger o Todo Poderoso de qualquer possibilidade de caçoada ou assédio moral.
Administrar pessoas não é brinquedo, aprendi errando.
Originalmente, era um bom programador para automação comercial, desenvolvi o sistema carro-chefe da empresa há quinze anos: um programa estável, eficiente, interface intuitiva, pouquíssimos bugs. Associei-me a um vendedor ambicioso, o Mamma Mia, e criamos uma empresa de serviços bem sucedida no altamente competitivo mercado de tecnologia da informação. O organograma é enxuto: são dois níveis hierárquicos, dois sócios e dez pê-jotas contratados; e três categorias funcionais: vendedores, técnicos e programadores.
― Gaúcho, tô cheia de todo mês ser a campeã de vendas e também das reclamações internas...
― Você é ninja, menina, tem o DNA do marreteiro: fala mansa, chavequeira e com sangue no zóio pra vender... Natural que a turma aqui dentro chie, você promete até casamento pra fechar a venda, depois os outros que se virem pra entregar...
A Gogrila é assim, vendedora nata, viradora, capaz de convencer esquimó a comprar freezer, mas o nível da baixo-estima dela oscila perpetuamente entre a meia e a sola do sapato. Com ela, tenho sempre que elogiar, apoiar, mostrar a face dourada da pílula amarga.
― Pô, mas os cara não dão uma folga, ficam no meu pé o dia todo, feito band aid.
― Don’t worry, be happy, com eles eu me entendo. Como é que tá o papo com a rede de magazines? Se entrarmos lá, ficamo bonito na foto!
― Humm, não quero nem falar pra não zicar, mas já tou com um pé e meio lá dentro!...
Um belo dia, ela resolveu trazer no escritório o imbecil com quem namora, noiva, desfaz o namoro/noivado, volta, rompe novamente, há uns oito anos. Um animal de tetas que a destrata publicamente, desdiz diante dos amigos, fala errado ― e ainda por cima ganha menos da metade do que ela ganha. Foi o suficiente pra que surgisse uma nova criatura mitológica no nosso bestiário: o Gogrilo. O namorado, ou noivo, ou ex-atual, ou seja lá o que for, ostentava um tórax largo como o de um gorila... encimando umas perninhas de grilo. Quem o Gogrilo ama, Gogrila será.
A natureza humana não tem forma definida, aparece e desaparece como uma fantasmagoria, foge ao entendimento, esconde-se na região nebulosa das crenças, do acaso, das taras. Qualquer um dos meus funcionários poderia ser o patrão. Por que isso não acontece? Difícil explicar. Há um misterioso mix de timidez, auto-sabotagem, infantilidade, ignorância e acoelhamento, que impede a maioria das pessoas de atingir seu potencial.
            O caso mais intrigante pra mim é o Dozão. Uma inteligência alienígena superior nascida numa favela, um cara brilhante que não suporta a autoria, se acomodando na colaboração do projeto de outrem. Negrão de um metro e oitenta e cinco, gênio autodidata da programação, killer no design de software, e, no entanto, um simplório capaz de cair na mais manjada das casas-de-caboclo.
― Fala aí, meu irmão, um negão dessa idade... é verdade o que dizem?, quer dizer, o tamanho da mandioca...
― Ah mano, aqui é dozão...
― Dozão?! Dozinho, isso sim, pô meu, isso daí é um isqueirinho bic!...
― Quer deixar eu falar?
― Mano, tu é a vergonha da raça!
― Caraca, doze? Hahaha! Um gambitinho de sabiá...
― É, é! Com esse palito de fósforo tu deve fazer a mulherada gozar... de tanta cosquinha!
― Cês querem me ouvir, porra, é dozão... mole! Mole, entendeu?!
― Não é mole, não, fio, um homão desse com um gancho de toalha de rosto...
Dozão ficou ensandecido, virado no cão, saiu feito um louco, o rosto distorcido num esgar de louco, olhos injetados, prometendo que íamos ter de engolir aquela palhaçada. Ninguém entendeu nada, até que, uns quarenta minutos depois, ele liga de casa e põe a mulher na linha. Alguém apertou a tecla do viva-voz, todos pararam de trabalhar pra escutá-lo.
― Mulher, faça o favor, conta pra eles, vai... fala o tamanho da criança, vai!
― Desculpa gente, o Sebastião chegou aqui falando meio estranho, ele andou bebendo? Nem sei que história de centímetros é essa, ele inventa muito, não deve ser isso tudo que ele tá falando...
Em resumo, esta escolha do Supremo cabe a mim, na qualidade de aniversariante do mês. Ainda não decidi. Na minha lista tríplice despontam o Psai, a Gogrila e o Dozão.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

a escolha do Supremo (2)


― Tou falando procês... rapaziada, é a Primavera do Leste Europeu, a ponta de estoque desses países vocês não acham aqui nem no shopping de luxo: Estônia, Lituânia, República Tcheca, Albânia, Valáquia, Ucrânia...
― Tá bom, tá bom, mas daí a dizer que a Ana Hickman na Ucrânia não serve nem cafezinho, é meio over...
― Que nada. Lá ela não paga pule de dez. Vou trazer a Olienka aqui pra cês babarem na gola. Só não pode encostar a mão na minha deusa do Cáucaso...
― Escuta, Aber, na real, tu comprou essa ucraniana?!
― Bem, essa é uma maneira feminina de colocar as coisas... são os azares da globalização, prefiro pensar que estou ajudando uma família em apuros. Mas é que os coitados... lá rola uma pindaíba sinistra: crise econômica, invernaço de quarenta negativos, meu, se faltar aquecimento morre metade da população!
― Abre seu Face, mostra as fotos senão ninguém acredita ― eu já conhecia a Olienka, uma loiraça difícil de tirar os olhos de cima, um metro e meio de pernas ―, além de quê, com o seu retrospecto, quanto menos gente você apresentar ela, melhor...
― Hahaha, na boa, Aber... quanto?
― Aí é que a coisa fica linda: mando o equivalente a mil e quinhentos por mês, acho que uns dez ucranianos sobrevivem dessa grana. O melhor é que a sogrovska me idolatra, e ainda vive do outro lado do mundo. Melhor que isso, só dois disso...
― Pô, meu, picanha de primeira... certeza que a Sharapova aí deve ter umas amigas da hora pra apresentar pra nóis!
― Muita calma nessa hora, isso ainda não tá ao alcance da classe C... primeiro, a passagem aérea da Ucrânia é uma bala, e depois, ela exige passar o Natal com a família. Fora os gastos dela aqui, correndo por minha conta. Bom mesmo era quando ela não falava uma palavra em português...
O Aber talvez seja o ser mais humano que conheço: consegue a proeza de ser digno de desprezo, inveja e pena no mesmo grau e proporção. A firma dele presta serviços à minha, judeu arquetípico, é sócio do irmão e mora com a mãe aos cinqüenta anos de idade. É um serial corno. Recusa-se a entender porque a mulherada dá com o pé na bunda dele depois de seis meses, em média. A última foi um verdadeiro nocaute egóico: meteu-lhe uma galhada de envergonhar as renas do Papai Noel, deu até pro moto boy da empresa.
E com a ucraniana a presepada já começou, ou antes, recomeçou. A mãe não deixou o Aber morar com ela, solução: instalou-a num flat. O tontão virou entidade mantenedora, enquanto a Olienka, que progride na língua a olhos vistos, tratou de estabelecer convênios alternativos. A situação nas ex-repúblicas soviéticas não está bolinho pra ninguém.
Sem perceber o que até surdo vê, o paspalho acha de usar camisas da marca Abercrombie & Fitch ― sim, isso mesmo, a marca de roupas norte-americana cujo logotipo é um frondoso alce. Daí pro pessoal começar a chamá-lo de Abercrombie foi um passo, a abreviatura Aber veio como conseqüência natural. “O chifre é próprio do Aber, o alce usa de enxerido”, virou trending topic na 1Q84.
Quando contratamos um funcionário é sempre a mesma água: na entrevista inicial comparece o homem (ou a mulher), mas quem vem todos os dias pegar o batente, é a criança. Incrível o quanto as pessoas regridem num grupo relativamente fechado. É como se voltassem ao tempo de escola, ou até àquele manicômio primeiro e primordial, a família. Mais incrível ainda é o fato de ser o enforcado, invariavelmente, a trazer a corda que o enforca.
― Boa tarde, senhor, isso são horas?
― Foi mal, chefia, teve fuzuê no trem, acabou que atrasei...
― É, Gaúcho, perdoa aí, o cara mora na zona Lost, dois pontos depois da pequepê, lá onde o vento faz a curva.
―... e onde o Judas perdeu as pregas!
― Ih, mano, foi mó resenha... bem do meu lado, o CPTM com gente saindo pelos tampo, maluco tava lá descascando uma bronha na maciota... disfarçava pondo uma pastinha na frente, daí, na hora de gozar, o mané largou a pasta e borrifou em cima de uma mina. A mulher começou a berrar, armou um bafafá do carai, os passageiros foram pra cima dele... nego só não foi linchado porque os guardinha da estação seguinte apareceram.
― Hmm, suspeito... borfaram na sandalinha...
― A pergunta que não quer calar: sobrou uma gala espirrada pro teu lado?
― Que nada, mano, eu tava esperto. Maluco tinha pinta de treze, deu até dó o jeito que a fuça dele ficou... O cara tem que ser discreto. Eu, por exemplo, quando tô na necessidade, bato uma aqui no banheiro...
Pronto, falei. Morria desta forma o cidadão Kléver da Silva Gomes, e nascia o instantaneamente famigerado Gozadinho. Além da alcunha, o vacilão ganhou dos colegas a cronometragem rigorosa de cada uma das suas idas ao toalete, aliás, hoje todos evitam usar o banheiro depois do Gozadinho. E também mudou a forma comum de saudação ― inclusive com as mulheres ―, adotou-se o cumprimento black: punho contra punho, ambos fechados.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

a escolha do Supremo (1)



            ― Perfeito, sem problemas. Agora arredondou, a coisa vai sair redonda desse jeito... tá, tou mandando agora mesmo um e-mail... isso, com o meu de acordo... Hmm, isso daí vou ver com ele e te retorno ainda hoje. Quem vai trazer? Ah, sim, o Daniel...
― Daniel, Daniel... Daniel Boone!
― João Paulo e Daniel.
― Danny DeVito!
― Ei, ei, peraí, tem certeza que Danny vem de Daniel?
― Claro que vem, seu sem noção, já viu americano chamar Danilo?
― Mas ele é americano? Pra mim, era italiano...
― Se for assim, Dan Brown também pode!
― Daniel Day-Lewis.
― Daniel e Samuel.
― O, o… o James Bond...
― Daniel Craig!
― Não vale, essa era minha!
― Daniel na cova dos leões…
― O quê? Chupa essa manga: Daniel Harry Potter.
― Chupa tu, cabeção, é Daniel Radcliffe!
― Daniel, o cantor.
― Já foi: esse é o Daniel do João Paulo...
― Daniel Filho.
― Oziel e Daniel.
― Continuando no sertanejo: Gustavo e Daniel.
― Daniel Passarella.
― Daniel... la Mercury!
― Não pode! Já decidimos que é pra ser exatamente...
― Ah, mas é Daniella com dois ‘eles’. Pra quem sabe ler, um pingo é letra.
― Daniel Barenboim.
― Essa não! Daniel Boeing?! Vou dar já um Google, esse cara tá inventando, não é possível!
Mas era. O Psai tinha ganho aquela.
Assim começava uma das mais populares tradições culturais da 1Q84. Sem nenhum motivo explícito, às vezes por causa da repetição, ou de uma entonação diferente, uma palavra ou conceito eram destacados do discurso corrente e se tornavam a senha de um concurso de associações. Ganhava quem achasse o último exemplar, podiam ser nomes, sinônimos, partes de listas, verbos, acrósticos, símiles, quase qualquer coisa.
E havia ainda o fenômeno associado: a proliferação das regras, que deviam ser aprovadas por unanimidade, e que, uma vez sancionadas, ninguém esquecia nem ousava desrespeitar. Vários jogos internos surgiram por geração espontânea na empresa nestes quinze anos de existência, mas nenhum alcançou o grau de adição da escolha do Supremo.
Outra mania, menos inócua, são os apelidos. O Psai, por exemplo, não ganhou o nom d’artiste em homenagem ao saltitante coreano do Gangnam Style, vem de Psycho mesmo. Não que o Edilei não faça jus à fama, mas o recado é direto demais, cru demais. Tentei chamá-lo de quatro-e-um, em referência à hora fixa em que ele se levanta e, simplesmente, vai pra casa. Entra às sete, sai às quatro, não fala com ninguém, não aceita gozação ― o que, claro, pendura nas costas dele o alvo do bullying geral assim que deixa o ambiente.
Porém, verdade seja dita, o Psai é o melhor técnico que se poderia encontrar. Mito. Resolve qualquer problema de hardware ou software que lhe botamos na mesa. Quase não conheço a voz dele.
A 1Q84 foi batizada assim por causa do conjunto que ocupava no treme-treme do centrão da cidade quando começou. Naquela época, ainda nos chamávamos Global Network Services, nome que perderíamos dois anos mais tarde: um cara de uma banquinha de celulares já tinha registrado. É Flórida. E, desta vez, mesmo com várias sessões de diarréia mental, não chegamos nem perto de um consenso. Mais por desistência que por convicção, ficou desse jeito mesmo.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

vozes (III)



― Que bagaça, esses seus amigos! O que os caras mamaram no churrasco não foi brinquedo... no final, já tavam tomando sorvete no mesmo prato que comeram a carne, todo mundo bebia no copo de todo mundo, arrgh! Nojeira...
― Pronto, lá vem dona Luísa falando de alguma errada minha; hoje o tema mudou da minha família pros meus amigos... Que tem?, eles são toscos demais pra você, é?
― Pára, que mania! Você só sabe falar com as mãos? Sabe que detesto esses beliscões... Além do que, cê tá dirigindo, lembra?
― Fazer o quê, cê fica tão gostosa bravinha...
― E as conversas, então? Sempre alguém lembra de uma bebedeira de dois dias que acabou em alguma versão nacional de Jack Ass...
― Caretona!...
― Sou mesmo, se é pra achar graça num desmiolado que tomou todas e mais uma, e acabou dormindo no cemitério... com o carro suspenso entre duas lápides!
― Vai, essa até você riu...
― Dá pra você entender que passei a tarde toda rindo amarelo pra não ser a chata do rolê?
― Putzgrila, Luísa, tira esse limão amargo da sua alma azeda...
― E você, vê se não tira as mãos do volante. Escuta, não quer mesmo que eu dirija? Cê tomou várias a mais, tá correndo que nem louco...
― Não quero pegar a marginal entupida na chegada. Esquece, este aqui só eu dirijo. Cavalo, mulher e carro...
― Ah, sim, só estava faltando mesmo aparecer o macho-alfa... essa daí está bem no nível das conversas de hoje!
― Ok, ok, vamos mudar de assunto, tá bom assim procê?
(...)
― Antes de te conhecer, eu tinha uma amiga, a Telma. A gente vivia junta, pra cima e pra baixo; tanto, que começou a zoação: Telma e Luísa.
― Tem um filme assim, não?
― Então, todo mundo falava, mas eu nunca tinha visto... um dia, tô lá sem fazer nada, e pego esse filme no cabo. E aí é que me caiu a ficha: minha amiga Telma era uma Telma.
― Não pesquei, rebobina a fita...
― Cê lembra do filme?
― Hã-hã, pouca coisa.
― É o seguinte: a Telma é aquele tipo de amiga que só te põe em roubada, programa de índio, enfim, sempre acaba que ela faz uma merda que fode ela e quem tá junto...
― Hahaha! É que... a parte que lembro é que as duas fazem um ménage com o Brad Pitt!
― Pára de me cutucar, porra!!
― Caralho, você me empurrou, Luísa, perdi o controle...
― Que barulho foi esse?! Em quê o carro bateu?...
― Luísa, a gente atravessou a mureta da ponte, tamo caindo na represa... ABRE AS JANELAS, RÁPIDO, ABRE AS JANELAS!!
― Nós tamo caindo, caindo!!


sábado, 12 de outubro de 2013

vozes (II)



― Por mim não há mal nenhum, tá certo, o camarada batalhou, conseguiu acesso a um crediário, já dá pra comprar um carrinho popular, e tal... só que é de foder a paciência ficar entalado atrás de um desses motoristas de carroça.
― Na minha imodesta opinião, o maior problema são os Corollas, os Citys e, principalmente, os Civics...
― Puta merda, é mesmo, dá pra ver esses babacas de longe: é o carrão da vida dele, ele tá perdidão, simplesmente não sabe o que fazer diante de um câmbio assistido!
― Hahaha! Pode crer, o tipo de imbecil que estoura o air bag a cada duas freadas... hahaha!
― Rapazes, rapazes, pensem por outro lado, é melhor mesmo Deus não dar asa pra cobra: imagina o perigo que é um roda-presa sentado numa turbina de verdade?...
― Isso, deixa, não tem gente que acha que Camaro é carro?
― Peraí, peraí, não é bem assim, há casos em que a lerdeza está mais do que justificada... Pensem no nosso amigo Cacau, com aquele Bentley dele, tem que chegar o mais devagar que puder no Antiquarius...
― Mas também, a bordo de uma milheta e meia, pô, tem mais é que desfilar, esfregar bem na cara de todo mundo!
― Certeza. Se fosse comigo, quem pedia gorjeta pro manobrista era eu: só pelo prazer de ter sentado num puro sangue...
― Caraca, as nossas meninas estão animadas hoje, a discussão lá tá pegando fogo.
― Hmmpf, na certa é a nova coleção do Marc Jacobs...

― Ai, vocês viram aquela história do rato que entrou na garrafa?...
― ... de Coca-Cola? Sim, vi, um horror!, parece que a pessoa que bebeu teve a garganta toda queimada, o queixo derreteu na hora...
― Mas como é que... como foi possível?
― Ora, o bichinho estava cheio de veneno!
― Não entendo, Nana...
― O quê você não entende, querida?
― Um ratão nojento, e você ainda chama ele de bichinho! Isso é levar longe demais o amor pelos pets...
― Já eu, não entendo como é que o bicharoco foi parar dentro da garrafa...
― Ah, mas é fácil: ele conseguiu entrar no gargalo porque é um invertebrado!
― Rato é invertebrado?!
― Claro que sim, eles se espremem pra passar nas frestas. Nunca viu?
― Ai, graças a Deus nunca vi um de verdade! Acho que eu mudava de casa no mesmo dia, nunquinha que ia voltar a dormir num lugar com ratos... O Zé Luís que se virasse.
― Não pode ser. Os invertebrados não têm pêlos, nem focinho.
― Sei não, cobra tem focinho e é sem pêlo, e outra: cobra não tem osso!
― Nada disso, invertebrado tem que ser gosmento que nem lesma!
― Bom, aí já não sei, mas rato tem osso, sim. Sabe por quê? Tipo, que nem nos desenhos animados: quando o ratinho leva um choque elétrico, aparece o esqueleto dele...


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

vozes (I)



            ― Fala mais alto, o trem tá gemendo mais que parede de barragem no calor!
― Então, tava te falando, acordei c’uma inziquizira ruim que nem...
― Mas, tomém, ocê mistura farinha com pinga, fia. Dá certo não. Isso empanzina a barriga do freguês, que é a gota.
― Ave Mãe, passei mal de mais de manhãzinha! Vou é fazer um chá de boldo...
― Bom, então vê se não esquece de ponhar tomém um pouco de melissa e cansanção. Tu ainda exagerou demais nas fruta, mulher, sabia não?, fruta de tarde é veneno: melancia de noite dá sezão; manga com banana, forma tricnina no bucho; e abacaxi, então?, mulher de chico e grávida num pode nem chegar perto!
― Que moleira no corpo, meu Santo, como é amargoso o limão do mundo! Como se já não tivesse meus poblema...
― Não é assim que fala...
― Assim como?
― Poblema. São duas coisa diferente: poblema e pobrema.
― Mas... num é tudo uma coisa só?...
― É não, minina, poblema tem quem nasce com poblema: pé torto, lábio chunchado, ou titela afundada...
― Entendi! Os pobrema, então, são aqueles da vida de todo mundo: prestação atrasada, dívida no cartão, parente em casa... é não?
― Isso daí. Pior coisa é os outro tirar nóis por burraldo.


domingo, 29 de setembro de 2013

os construtores de instantes (final)


Antes que pudesse impedi-lo, correu para o alto de um morro e pôs-se a gritar como um louco. Dirigia-se em altos brados, pregando feito profeta de rua, aos súditos daquele estranho reino. Belo de um porra doida esse meu marido, defensor dos frascos e comprimidos, um energúmeno em guerra permanente com o mundo.
― Dragotiranenses, irmãos e irmãs, plebe rude, meus iguais, meus semelhantes, hipócritas e queridos, vocês já não precisam mais se submeter à maldade do dragão! Vocês me escutam?! As mortes inúteis podem, e devem, cessar!
Saí correndo no pinote doido, pra ver se o detinha antes de chegar ao topo, gritava, gesticulava, me descabelava ― mas dizer que alguém pára esse surtado depois que ele começa? Sérgio vive lançando campanhas contra o avanço contínuo da estupidez, a qual, na sua modesta opinião, atravanca a marcha do progresso e a confraternização universal dos povos.
― Sérgio, cê tá maluco? Criando quizumba num país desconhecido, com pessoas que nunca viu?... Cala a boca, cretino! ― me esgoelei em vão.
Lembrei do revólver, procurei nos bolsos sem parar de correr. Em vez da arma, encontrei uma flor murcha, pouco útil diante da confusão que estava se armando. Uma multidão se havia reunido ao pé da montanha pra ouvir o sermão do meu marido, enquanto isso, os cortesãos confabulavam ameaçadoramente e o rei posicionava seus exércitos.
― Dragonenses, tiranianos, por que não usais o que já possuís, as ferramentas que tendes nas mãos?! Há muito que dominais os meios de vos livrar dessa opressão sinistra, esperar, por quê?
― Sérgio, mas que catso?... ah, meu Cristo, lá vamos nós, de novo...
O primeiro tiro de canhão foi seguido de uma longa salva de obuses e o silvado arrepiante de uma nuvem de flechas voando... na nossa direção! Ele virou os olhos de celerado pra mim, então acompanhei na mímica do seu rosto transfigurado a ficha caindo.
― Caralho... Sujou, Dó, e agora?
― Agora?, agora é: hit the road Jack and don’t come back no more.
Puxei-o pela camisa e escapamos dali, escorraçados até pelas pedradas do zé-povinho, descendo aos tropicões a encosta traseira do morro. Tava puta das calças com ele, e não fiz muita questão de esconder.
― Isso que dá levar luz a surdo, seu tapado!
― Só quis ajudar...
― Essa é a frase de abertura de todas as suas batatadas. Seu samba é de uma nota só?
Demos com uma trilha no meio do mato que se nivelou progressivamente até sair num descampado de onde seguimos por uma estrada de chão batido. Doralice não parava de reclamar das minhas iniciativas humanitárias. Continuávamos correndo, com as balas de canhão caindo cada vez mais perto.
― Cê viu, Dó? A estrada tá nos levando de volta.
― Mas, como?, não pegamos nenhuma bifurcação...
― Sei lá. Este limbo que nós caímos desde ontem à noite parece um ninho de tudo que existe, mais o que nunca foi sonhado... Tudo aqui é verso e reverso.
Invertemos o sentido da nossa fuga e nos afastamos do reino do Dragão Tirano. Senti que ela progressivamente voltava a confiar em mim, era como se agora fosse eu a guiá-la por uma teia de cidades que se sucediam num território instável e desconhecido.
Com uma lente de aumento e alguma atenção, bastava fixar um ponto, não maior que uma gota de sereno, pra ver em seu interior telhados, antenas, caixas-d’água, jardins, tanques, prédios, pontes, pistas de corrida de cachorros; o ponto não permanecia imóvel: em um ano, já está grande como um limão, depois, um prato de sopa, e eis que se torna uma cidade de tamanho natural, contida numa outra, invisível, uma nova cidade que abre espaço em meio à primeira cidade e a impele pra fora. O entorno cresce em esferas concêntricas como epiciclos, uma árvore-mundo cuja circunferência está em toda parte e o centro em lugar nenhum, exercendo pressão centrífuga de cidades que despontam umas de dentro das outras, mas é difícil distingui-las, as cidades originais e as vindouras, a crescer pra dentro e pra fora indefinidamente.
― Pra quê continuar, se todos os lugares são o mesmo e único?
― Sérgio, você pode partir quando quiser, mas você chegará a um outro povoado, igual ponto por ponto; o mundo é recoberto por uma única metrópole que não tem começo nem fim, só muda o nome no aeroporto.
Mas a região das cidades também acabou e atingimos setores desolados e frios, os confins longínquos. Apavorados, em silêncio, do fundo da nossa dimensão infinitesimal, experimentávamos a proximidade aniquiladora da história das galáxias e buracos negros. Bilhões de anos-luz aconteciam na duração de um piscar dos sentidos. Doralice apertava a minha mão enquanto rolavam aquelas imensidões de pesadelo.
Subitamente, uma paisagem perfeitamente normal.
Um pasto, grupos de árvores, colunas caídas e cobertas de hera, e... uma porta elegante: branca, maçaneta e dobradiças douradas. Uma porta sem sentido, que não dá acesso a parte alguma; pode-se-lhe dar a volta completa. Porém, quando aberta, vislumbra-se uma maravilhosa paisagem ensolarada, com flores estranhas, montanhas verdejantes e rios claros como diamantes.
― Bom, nós ficamos por aqui, dessa porta em diante é só você...
― Como assim?! Que história é essa de não vir comigo, Doralice?
― Vou cuidar da minha vida, e a minha vida não é com você. Toma esta flor, ela está murcha, mas não ligue: é uma orquídea, vai brotar de novo. Entre uma floração e outra, passa a vida, o tempo, o universo.
― Mas... e os nossos filhos, nossa... nossa casa, não quer nem tentar voltar?
― Sérgio, nada daquilo existia: nosso casamento, a casa, os filhos... Eu sou uma fantasia sua, achei que tinha percebido, meu nome é composto, como a minha personalidade é uma mistura das mulheres da sua vida. Vá atrás de uma mulher real, não de uma que você criou.
― Você... só existe na minha cabeça?
― Sim, e lhe agradeço muito ter me inventado. Ganhei existência, sou uma criatura sua, mas agora eu preciso me criar, me reinventar. É a minha chance de ser alguém, e a sua também.
― Vou sentir saudades, Dora...
― Eu também.
― Como sempre, você está certa. Melhor tomarmos cuidado: sentir saudades é puxar conversa com os mortos. E precisamos ficar bem vivos.
― Lembre-se disto: salvar os outros não vai salvar você, nem vice versa ao contrário. Encare de frente o que tiver de fazer, beije no coração, ame rolando no chão, não esqueça de manter objetivos, e não esqueça de os trocar de vez em quando. Cuide bem do seu amor.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

os construtores de instantes (parte 4)



Saímos pela porta do quarto, mas, em vez de encontrar do outro lado o nosso lar em escombros, fomos sugados para dentro de um buraco de minhoca, um túnel escuro e gosmento em cujas paredes passavam cenas da minha vida, vibrando emoções soterradas por anos de esquecimento diversionista. Caímos, ou pelo menos assim parecia, por um tempo sem margens; às vezes a velocidade aumentava, e então me sentia invadir por uma euforia de vertigem, outras, a lentidão e o peso se instilavam, como se me aniquilasse o arrastar dos aeons. Perdi o Sérgio de vista.
Reencontrei-a numa escadaria insana, dédalo propagando-se em todas as direções e dimensões, bifurcando em excessivos atalhos, por caminhos múltiplos de estratos que se desviam, confluem, anulam, ramificam, num sem-fim de alternativas coexistentes. Pelos degraus subiam e desciam uns curiosos insetos, bichos-rolapé, louva-deus, tatus-bolinha rolando, esbarrando nas pernas, derrubando-nos de uma escada a outra, de um mundo a um mapa, de um mapa a si mesmo, passando por outro mundo, do desenho ao desenhista que retrata seu relicário de planetas e galáxias flexíveis numa gota esculpida na cabeça de um alfinete.
Tudo que sentiam agora era maciço, arcaico e dúctil, um labirinto cosmicômico de possibilidades impensáveis. Mas permaneciam juntos, lado a lado, afinando a arte de viver só. Doralice e Sérgio nunca mais haviam experimentado despertos a sensação de ser, imaginar, fazer, absolutamente qualquer coisa. Tamanha liberdade fazia com que eles deslizassem de um cenário a outro, de uma realidade ao seu inverso, sem o menor controle. Tanto podiam ser uma nuvem, como fundir-se aos pássaros, ou se tornar hectares de planícies, sobrepostas a incontáveis peixes nadando nos abismos sem fundo. Do mar, subiam através do hipertexto aos planisférios siderados, pairando, como as estrelas, os sólidos simples, metamórficos, irregulares e a n-dimensões, habitados por camaleões que caminham em bandas de Moëbius.
Os espíritos deles podiam finalmente abandonar a reclusão da casca de noz onde viviam julgando ser os reis do espaço infinito. Compreendiam, com a alegria e a clareza inaugural dos recém-despertos, que não pode haver o espaço senão no tempo, e que nem este sem aquele existe. O tempo, lápis rombudo, lascas a escavar feições, arestas e contrafações no devir; percebiam descortinar nos olhos da mente o ponto a partir do qual tudo é, as ondas do nada que embalam o sono do deus-colosso a sonhar pelo umbigo todas as geometrias possíveis e inverossímeis. A festa do tempo zero.
Deram as mãos, temeram perder-se naquele caleidoscópio irrefreável.
Até que chegaram ao reino do Dragão Tirano.
Ali vivia um dragão maior que a torre de cem catedrais. Enroscado no cume da montanha mais alta do reino, exercia o terror sobre a população; seus olhos vermelhos vertiam o ódio, da sua bocarra medonha e faminta exalava uma pestilência mortal ― tanto quanto o fogo que soltava das ventas ―, suas escamas negras brilhavam refletindo os últimos raios de um pôr do sol temido por todos. A cada final do dia o dragão devorava sua cota de vítimas: dez mil súditos lhe eram sorteados e entregues quando a estrela vespertina surgia.
Muitos partiram para o combate, se eram bravos ou tolos será difícil dizer; inúmeros os que, sozinhos ou em bando, atacaram o dragão: morreram carbonizados antes de sequer escalar a montanha; magos e alquimistas invocaram sortilégios e destilaram venenos poderosos, mas tudo isso só fazia aumentar o apetite do bicharoco. O rei, conformado, mandou construir uma linha de trem para levar diretamente ao topo da montanha a taxa diária em sacrifícios humanos que o monstro lhe cobrava.
Homens do espírito confortavam as pessoas prometendo-lhes uma vida além da morte, quando viveriam felizes e eternamente libertos do flagelo. Oradores sustentavam que o dragão fazia parte da natureza e tinha o direito moral de se alimentar como qualquer um, argumentavam, com boa lógica, que o sentido da vida é ir parar na barriga do predador: o ser humano seria um ser-para-o-dragão. Outros ainda, viam na tirania do bicho uma forma racional de manter o controle demográfico. O quanto estas doutrinas realmente confortavam o povo é incerto, cada um tentava viver da melhor forma possível e não pensar sobre o destino que pesava sobre as suas cabeças.


sábado, 21 de setembro de 2013

os construtores de instantes (parte 3)


            — Senhor Sheldon...
            — Sholem, meu amigo, Sholem.
            — Que seja. Se o que diz é verdade, então basta a gente voltar a dormir, e amanhã vocês reconstroem tudo e o nosso dia recomeça normalmente, certo?
            — Hum, bem, não exatamente...
            — Tá vendo? Que nem serviço de atendimento ao cliente — Doralice falava em falsete —, não é bem assim que consta do nosso contrato, senhor... Lá vem enrolation!
            — Senhora, entenda, quando se levantou da cama inconsciente, nossos alertas falharam. A partir daí, criou-se uma dessincronia, inadvertidamente, vocês caíram num tempo/espaço alternativo. Não temos como levá-los de volta para a dimensão em que viviam antes de...
            — Mas, e os nossos filhos?, vão ficar sem nós? Daqui a pouco — Sérgio olhou para o relógio, parado à meia noite e um minuto — eles têm que ir pro colégio, quem vai levá-los, os seus bombeiros?
            — Quanto a isso não se preocupem, o nosso Departamento Capgras tem sósias de vocês que podem dar conta de tudo que...
            Nesse momento, surtei. Aquele filho da puta de fala mansa deu no meu saco, estourou minhas medidas. Pela primeira vez, comecei a achar que não estava tendo um pesadelo por ter exagerado na lasanha do jantar. A coisa era séria, e o piti da Doralice também.
            — Sósias!? Departamento de sósias?! Tá tirando uma com a nossa cara, é? Qual é a próxima novidade? Então será que também já não sou uma sósia de mim mesma? E o Sérgio também, por que não? Basta ter acordado uma noite pra mijar... e pronto, tá fora. Substitui por outro!
            — Moço, tá na hora de começar o papo reto — cheguei bem perto do cara pra lhe dar uma prensa — Vai explicando melhor essas histórias de dessincronizar, construir instantes, sósias, tempos paralelos, desembucha, vai!
            — Calma, gente, entendo que estejam inquietos. Nós temos como realocá-los, não se preocupem demais. Os descendentes de vocês daqui a milhares de anos, pensem neles como seus tatatatata...ranetos, se tornaram pós-humanos. Tentem imaginá-los como seres feitos de pura informação, memes, criaturas ideológico-espirituais, pura idéia platônica ou hegeliana, formas independentes da matéria.
            — Muita conversa fiada, cara. Que é que isso tem a ver conosco?
            — Já chego lá, se me deixarem. Tão logo a pós humanidade atingiu uma capacidade computacional que lhes permitiu a autonomia em relação ao substrato físico, ou seja, quando conseguiram reproduzir a consciência em processadores quânticos, decidiram criar uma Grande Simulação da sua própria história. Você Sérgio, você Doralice, são apenas possibilidades dentro de uma Matrix de dados.
            — Tava faltando só essa! Então, eu não sou eu, e ele não é ele? Não estamos casados há dez anos, não temos dois meninos, nada é o que parece ser, é isso?...
            — Claro que vocês são vocês, e até são quem pensam ser, a diferença é que a vida real de vocês já aconteceu. O que acreditam estar vivendo, pensando, sentindo, imaginando, hoje, é apenas parte de um grande simulador de hipóteses. Os humanos trans-biológicos querem conhecer em detalhe a seqüência de eventos que leva até o ponto em que "eles" se encontram, como as famílias fazem quando passam antigos vídeos ou folheiam álbuns de fotos de parentes que não chegaram a conhecer... Assim puderam observar diretamente os dinossauros, as interações sociais dos trogloditas, o surgimento da linguagem, etc., eles nunca teriam acesso à verdade factual da sua origem sem lançar mão de uma grande simulação computacional do passado.
            — Ah, que fofo, nem sei qual parte desse lero-lero gostei mais: se do álbum de família, ou daquele detalhezinho de nunca mais ver meus filhos! E nem temos que nos preocupar muito, o senhor Schwepps aí vai providenciar um cercadinho onde seremos "realocados" à espera da solução final. Que maravilha, não?
            Doralice contornou a cama de casal e dirigiu-se ao criado mudo. Para surpresa minha e do homem de preto, tirou de lá um revólver e o engatilhou. Apontou-o para o agente do sistema.
            — Dodó, como é possível? Nós não temos arma em casa!
            — Pois na minha versão desta comédia temos, sim. E você, paspalhão?, faça o serviço de homem: arranca o celular desse papagaio-de-pirata e amarra ele com a silver tape que está no armário!
            — Senhora, por favor, sem violência. Muita calma nessa hora...
            — Mas nós não temos sil...
            Desisti de argumentar com Doralice, aquele mundo louco haveria de possuir uma saída. Precisávamos tentar. Amarrei o cara com a fita que não deveria estar ali. Antes que eu vedasse completamente a boca dele, murmurou desesperado:
            — Não façam isso, vai gerar uma singularidade... por caridade, não olhem nunca diretamente para o Olho do Mundo...


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

os construtores de instantes (parte 2)



Entrei por ali.
Depois de um tempo andando, a estrada se reduziu a uma viela invadida por capoeiras altas e cipós, na beira do caminho entreviam-se os mourões das cercas dos fundos de um casario de taipa. Eram barracos sem acabamento, escondidos pelas tramas do varal das roupas, colorida e disparatada caixa de lápis balançando na brisa. Um galpão de madeira apodrece calmamente infestado de tumbérgias e capim, o pau-jacaré crescido no meio das folhas despencadas do portão. Calor. Grilos. Mutuns cruzam o ar. Coado pela rama das árvores, o sol imprime na grama as manchas amarelo-escuras da pelagem do leopardo. As abelhas zunem nos cachos das mangueiras, ou aglomeradas nas florações da madressilva, da calêndula e do melzinho-de-celeiro.
Um tranco no lado direito do corpo.
Sérgio acorda de susto, irritado pela brusca transição. É só mais uma ataque de sonambulismo da mulher. Às vezes acontece. São os soníferos.
Está indo para o banheiro. Tranqüiliza-se, vira de lado. Quer voltar para o mesmo sonho.
Havia perto a presença fresca de água corrente, não vista nem ouvida, mas sentida, como um espírito da mata. Dou mais alguns passos...
Ela o sacode pelos ombros, não há jeito. Abre os olhos.
― Sérgio, acorda, por favor. Sérgio!
Doralice parece aterrorizada. Barulhos e pancadas ressoam no quarto, como se estivessem marretando as paredes e falando em rádios lá fora. Sérgio senta-se na cama.
― Mas que?...
― Vem ver... tem um monte de gente na nossa casa...
O apartamento deles estava no chão. Literalmente. Entulho, pedaços de piso e ferragem retorcida atravancavam a passagem onde antes havia cômodos; a poeira grossa do ambiente turbilhonava ao ser cortada por fachos de luz branca acoplados nos capacetes dos operários. Protegidos por macacões vedados e máscaras de gás, uma numerosa equipe trabalhava sem lhes prestar atenção. Falavam sem parar na tela de comunicadores portáteis.
Somente os quartos deles e das crianças tinham sido poupados da demolição. Todo o resto, destruído.
― Você não vai fazer nada, Sérgio?
― Ei, moço, senhor... por favor, alguém pode me explicar o que está acontecendo?
Finalmente, um dos sujeitos deu sinal de ter percebido a existência deles. Ainda assim, continuou a falar numa espécie de walkie-talkie amarrado ao pulso.
― Câmbio. Gerenciamento de operações domésticas, temos uma situação aqui no setor quatorze, grupo esmeralda, câmbio.
― Hã, situação? O que vem a ser isto? O que estão fazendo na nossa casa? ― abraça a mulher confuso, não só o apartamento está praticamente em ruínas, como o teto e as paredes derrubadas tornam visível uma noite estrelada que não deveria estar ali.
― Eu quero saber se os meus filhos estão bem!
― Senhor, senhora, vou lhes pedir que aguardem a chegada do nosso supervisor de ocorrências excepcionais. Ele vai explicar tudo pra vocês. Por enquanto, a instrução que recebi é para que aguardem aqui sem interferir com o nosso trabalho.
Um grupo se aproximou do casal, cercando-o, dando a entender que qualquer resistência seria inútil. Capitularam silenciosamente, Sérgio sentou-se num monte de destroços onde se viam os pedaços do home theater da sala de TV. Passado um tempo que não lhes pareceu muito nem pouco, apenas excessivo, chegou um homem vestindo terno e sem o ridículo uniforme laranja dos outros. Também falava no mesmo comunicador portátil, do qual recebia continuamente instruções.
― Queiram aceitar nossas desculpas, creio que houve uma falha no sistema. Mas não se preocupem...
― Falha no sistema!? ― Doralice explodiu ― Pois saiba que a sua “falha no sistema” detonou o que nós construímos com muita dificuldade! Além do mais, esses seus brutamontes encapuzados nos impediram de ver os nossos filhos!
― Não seja por isso, venham ― um corredor polonês se formou e os três se encaminharam ao quarto das crianças. ― Por favor, é extremamente importante que não acordem as crianças.
― Vamos deixar uma coisa clara aqui, senhor Men in Black: você não vai me dar ordens no que diz respeito aos meus filhos, copiou?
Entreabriram a porta. Os meninos dormiam profundamente.
― Poderíamos continuar a conversa em particular, no aposento de vocês?...
Sérgio tomou a dianteira. Temia as reações da mulher, a fúria nos olhos dela era por demais conhecida.
― Bom, será que você pode nos dar alguma razão plausível pra esta confusão no meio da noite, senhor?...
― Scholem, sou gerente de ocorrências extraordinárias. O que aconteceu aqui hoje não devia ter chegado ao conhecimento de vocês, na verdade, acho que foi causado por um efeito colateral do sonífero que a senhora tomou, dona Doralice...
― Como é que sabe o meu nome, o que eu tomo ou deixo de tomar? Que ocorrências paranormais são essas?! Como é que você sabe tanto das nossas vidas?
― Calma Dodó, calma, tenho certeza que há um tremendo engano nisto tudo. Senhor Scholem, continue...
― Pra não dar muitas voltas ao assunto, serei direto: somos da equipe de construção de instantes, trabalhamos com a realidade percebida e por isso estamos demolindo a casa de vocês. Enquanto dormem, não precisam dela, não necessitam que ela exista fisicamente, quero dizer. Quando acordarem, tudo estará nos seus devidos lugares, objeto por objeto, paredes, piso, quadros, bibelôs, louças, eletrodomésticos, enfim, tudo.
Caíram sentados em cima da cama, boquiabertos, bovinamente estupefatos. Doralice se recuperou primeiro.
― Você está dizendo que a nossa casa não existe enquanto estamos dormindo?
― Pra ser totalmente rigoroso, nada existe sem que alguém esteja consciente disso. Pensem no tamanho do universo, o gasto enorme que seria se tudo existisse o tempo todo. Absolutamente insustentável em termos energéticos. Por isso, mantemos as coisas aí somente enquanto os seres as percebem, vivem nelas. Claro que com os telescópios e sondas espaciais o nosso trabalho aumentou bastante...
― Que puta absurdo! Nunca ouvi uma lorota maior que essa... cê tá acreditando nisso?
― Dó, eu acho que nós ainda estamos sonhando...
― Só se estivermos sonhando o mesmo sonho. E te garanto que, neste momento, eu sou eu mesma!
― Quando vocês sonham, nosso trabalho é muito menor: apenas uma questão de estímulos neuroquímicos. Muito mais limpo e prático. Difícil mesmo é reconstruir galáxias, supernovas, quasares, buracos negros... Pensem naqueles objetos que vocês têm a certeza de ter deixado num lugar, e quando procuram não estão lá. São pequenos erros da nossa equipe, a gente repõe numa gaveta esquecida pra ninguém desconfiar.