domingo, 30 de março de 2014

O seqüestro de Alda Espinosa (#3)


Tomada por um branco total radiante, na posse precária de faculdades mentais em pleno apagão, dirigiu-se a ele caminhando firme para disfarçar o desconcerto. Anna fazia as desnecessárias apresentações quando aconteceu a bizarrice: uma moça que estava no saguão surtou e se atirou aos pés do Caetano, beijando-os, banhada em lágrimas. Foi aquele constrange geral, teoricamente, ali não devia ter ‘bicos’. Ninguém sabia de onde ela tinha vindo. Alda agradeceu ao Pai do Céu que alguém pagou o mico, porque a moça fez exatamente o que ela mesma esteve prestes a fazer.
            ― Caetano... Caetano...
            ― Fale, Alda, que foi que te deu?
            ― É que, eu tô aqui falando merda sem parar, tô tendo um ataque de falação e não consigo conversar com você.
            ― Normal, isso também me aconteceu quando entrevistei o Mick Jaegger.
            ― Tudo que eu não queria é que você me visse como a velha louca e esquisita que sou... e agora me pego tagarelando sem parar do canteiro de ervas de poder lá da minha casa!
            ― Olhe, mais importante do que tudo isso é a fruição da imensa grandeza de sua música, suas parcerias, a generosidade deste show... a grande beleza é coisa que paira acima da guerra de idéias e egos.
            ― Ah, como gostaria que o Beleléu estivesse aqui...
            ― Hum, o Nego Dito, é verdade. Personalidade artística rebelde, sempre me impressionou esse modelo. O samba, por intermédio de seus gênios, é a afirmação de um poder de outra natureza.
            ― Disseram que você não vinha, que tava viajando...
            ― Estava sim, cheguei agorinha. Sempre que dá, passo na Bahia as duas festas do 2 de fevereiro: o presente de Iemanjá no Rio Vermelho, e o encerramento da festa da Purificação em Santo Amaro. Minha casa é no Rio Vermelho, conhece não?, da varanda dá para ver os barcos que se arrumam em frente à igreja de Santana e partem para o local em alto-mar onde o presente será jogado, não sem antes virem margeando a costa para virarem em ângulo reto em direção ao horizonte; digo vêm, porque é justamente à frente da minha varanda que eles mudam de rumo. Antigamente eram sobretudo velas que coalhavam o mar, hoje são lanchas e escunas, todas brancas, a exceção sendo a grande embarcação cinzenta da Capitania dos Portos. Fazendo espuma e deixando rastro, todas seguem o saveirinho que leva o presente. A igreja da Purificação em Santo Amaro é uma jóia barroca, adoro os azulejos, o teto pintado, as pessoas religiosas do Recôncavo. Mas fico intoxicado de beleza é na praça: o parque de diversões cheio de crianças, o chafariz apinhado de grupos de samba de roda, de burrinha, de bumba-meu-boi, sobretudo as pessoas conversando nos bancos, nos passeios, nas alamedas. Minha gente.
            ― Caê do céu, você fala a língua dos anjos, abre a boca e as palavras vêm direitinho cair no lugar certo. Isso é tão difícil, criatura!
            ― Deixe de bestagem, menina, nem tudo que reluz é puro, nem tudo que é ouro brilha, mas tudo que brilha pode cegar.
            ― Viu só? Já tenho vontade de anotar o que cê disse e fazer uma música.
            ― Então, quando alguém já tem esse privilégio de tocar um instrumento, vai querer mais o quê? Acho que você pede da arte o que ela não pode lhe dar, considere, a poesia se paga com a vida, e nada mais. Glória, aclamação, reconhecimento, são bilhetes da loteria dos trouxas, já vivi demais para acreditar em falsos brilhantes.
            ― Ai, mas será que não existe alguma outra coisa? Vou ficar, assim, sempre de alma arregaçada, com os nervos feito fio desencapado, sempre o mesmo coração cata-vento girando no vendaval?
            ― A beleza é um país estrangeiro, no qual reconhecemos, tão logo o visitamos pela primeira vez, a pátria perdida de onde nunca deveríamos ter saído. Isto para mim é a Bahia, princípio e fim de tudo que faço.
            ― Sim, você tem a Bahia, sempre vai ter. Mas, e eu, que saí novinha do Mato Grosso? Não tenho pra onde voltar, sou urbana, confusa como a vida que levo.
            ― O importante é saber se situar dentro de uma linha evolutiva. Como eu: o tropicalismo é a conseqüência necessária da música que vem de Caymmi e passa por João Gilberto, na minha imodesta opinião, é o próprio processo de internacionalização da música brasileira. Sossegue, você também tem seu lugar num certo desenvolvimento destas linhas de força.
            ― É tão duro poetar com os boletos atrasados, os cachês de fome, a casa cheia de filhos, os perhaps da vidinha.
            ― Esqueça, se você não tem o Recôncavo, tem São Paulo: prédios feios e crack, violência e vulgaridade. Sua única amiga é a música. Um adulto criativo é uma criança que sobreviveu. Não devem ser muitas as que conseguem, a julgar pelo escasso número de adultos no mundo. A vida não é para qualquer um (a arte sim), ela é um rio largo, informe, e sempre pode acontecer de nos tornarmos quem mais temíamos.
            ― Só uma última coisinha, sei que cê não pode ficar muito, como é que você faz isso?
            ― Isso, o quê?
            ― Esse truque: seus pés não tocam o chão, Caetano.
            ― Ah, é uma coisa que aprendi há muito tempo, vivo a dois centímetros do chão real das coisas. Levitação discreta. Permite que eu acompanhe a topografia da realidade, mas com um certo descolamento crítico, um surf ontológico. Ninguém percebe, aposto com você que a moça que acabou de beijar meus pés não se ligou.


as melhores coisas da vida não são coisas




sonho de desejo
objeto de consumo
nem tudo que reluz
é puro
nem tudo que é ouro
brilha
mas tudo que brilha
ofusca



quinta-feira, 27 de março de 2014

o rio ávido da vida



e se as pontes fossem abraços
enredo de cipós e rama
e seiva
suspensos cabos pilastras
tomadas de trepadeiras mato
e mais nada?

e se as avenidas fossem risíveis
rios de capim santo
margaridas leitos transbordando
tulipas
a rebeldia líquida
da flor?

e se os edifícios fossem gigantes
com folhas e galhos
assustados metros quadrados
playgrounds no asfalto amarelo
ou jardins?

e se nós
a bolha a moda
a média o urgente
dólar e a bolsa
explodíssemos em sinfonias
de trânsito
templo ao tempo
perdido?

sábado, 22 de março de 2014

O seqüestro de Alda Espinosa (#2)




            Noite de lançamento do novo disco, a sala de espetáculos lotada, alto verão no Rio de Janeiro. Na platéia, políticos, artistas, amigos e personalidades trocam abraços, sorrisos, posam para selfies. Se a longa carreira de Alda Espinosa não lhe valera sucesso popular nem estabilidade financeira, ficava patente que ao menos obtivera o reconhecimento de uma geração: a apoteose merecida e tardia de uma artista completa. Todos ali tinham vindo testemunhar seu carinho à compositora de tantas canções fundamentais da trilha sonora de suas vidas.
            Ela falava diretamente ao tempo, e como Nana Caymmi, podia responder que se ele aprisiona, eu liberto, que o tempo adormece as paixões, eu desperto. Alda podia até esquecer, mas já não seria esquecida. Pela primeira vez ela tinha uma produtora ninja, Anna negociara tudo: captação de recursos, gravação, mixagem, shows, entrevistas para rádio e televisão, notas em colunas especializadas, canções gravadas por artistas consagrados, etc.. Anna, uma dessas amigas que pareciam ter nascido no seu jardim, um ser elemental, poesia e pragmatismo; Alda e Anna, uma parceria genial e óbvia.
            ― Um, dois... um, dois, três...
            A bateria e o baixo entraram, logo a seguir, as guitarras. A voz esperava na garganta da cantora, pausada, traindo a vacilação de não ser nada, nem sequer música, apenas um esforço de som. Por um momento deu a impressão de uma máquina posta em marcha após milênios de inatividade, como se atravessasse toda a história para ser ouvida. Para fazer música não são necessários instrumentos, intérpretes, partituras, teoria, teatro, público... a única coisa realmente necessária é a música. O auditório captou o mistério de pronto: era uma oferenda, um regalo de arte e uma mensagem. Sobretudo uma mensagem. Não se tratava do pop redondinho do rádio, havia ali melodias sofisticadas, pouco óbvias, toda uma região de ritmos distante do muzak dos elevadores e pegpagues da vida. A harmonia parecia combater a si mesma, num afã insensato de exprimir-se, de dizer coisas estranhas, nunca ditas antes, e essa vontade se disseminava além do razoável. Todo mundo sabe que há coisas que não podem ser ditas com palavras, o que ninguém sabe é quais coisas são essas. Havia invenção e risco nas divisões, aparições e sumiços na clara obscuridade do palco, os amplificadores funcionavam como a caixa preta surrealista: de um lado, entrava o inesperado, do outro, surgia qualquer coisa. As frases se repetiam segundo a casualidade do metro, cadências e células rítmicas avançavam independentes, criando séries abertas como as coleções de selos. Excessivo esforço se despendia para lograr um efeito minúsculo, o menor e mais significativo de todos: a comunicação. As diversas unidades e medidas se recuperavam no artístico do gesto, no meio da levada dançante pressentia-se uma dinâmica de intenções, que ora se economizavam voltando-se sobre si próprias, ora se transmutavam em pura emissão de energia. A forma que tomava este mecanismo de excesso-carência autoconstituía sua expressão vital, mas tudo isto ainda era apenas preliminar à canção, a concertista, de olhos fechados, tateava delicadamente os contornos de um continente desconhecido.
            O público aplaudiu de pé por dez minutos ao final do segundo bis.
            Alda ainda se recuperava no camarim quando Anna confirmou que ele tinha vindo. Aquele momento de se livrar da pele que usava no palco parecia-lhe o despertar de um sono de pedra; sempre se perguntava, enquanto reassumia os pensamentos, a postura e a voz da sua persona comum, como é que se acaba por voltar à mesma identidade entre tantas possíveis.
            Entrou em choque, lá fora, em pessoa, aguardava Caetano Veloso.

            

quarta-feira, 19 de março de 2014

O seqüestro de Alda Espinosa (#1)


            Por mais que eu tenha ensaiado com os músicos, ficado duas, até três horas, na passagem do som, no ajuste dos retornos, testando cabos e caixas, combinando as marcações com o hold, ainda estranho esse momento de vácuo: as conversas cessam, as luzes baixam, chega a hora de entrar em cena. A hora da estrela.
            Aí não contam a tarimba, os anos de estrada, aí o que vale é ter estômago, o ponto exato que concentra todo o espaço à minha volta. Apenas um aperto naquele lugar indeciso onde termina o peito e começa a barriga, no entanto, a partir deste nó de tripas vem a alma até o meu gogó e faz o cântaro cantar.
            Quando piso no palco, somem os desvãos, os enganos, todo o medo de ser ― cada canção é um porto, uma porta, um parto, e uma partida. Tenho de me esfoliar, deixar de ouvir a mim mesma, simplesmente ignorar e fluir, voltar ao clímax do começo do mundo. As metamorfoses da vida são incontáveis, sequer vale a pena tentar entendê-las... Há que entrar.
Fixo-me num olhar, numa pessoa. E basta um sorriso para ficar gravado a todo sempre. Basta um anônimo escondido por óculos de hastes de acetato, eis que o demônio da imagem prega na minha memória. Sofro de um tipo de memória, ao que me consta, afeita a se apegar livremente.
            Encaro ligeiramente vesga o microfone, respiro, mergulho em queda livre para o alto, na direção do túnel prateado que despejam os holofotes e canhões de luz. Uma viagem desde o início da minha carreira até o agora, que é o presente, mas o presente reconstruído inteiramente no seu pretérito explicado, algo assim como o tempo verbal do tempo.
            A verdade está em nós sem ser dita, a dor não pensa. Muitas vezes, culpa-se o próximo pela infelicidade que nós mesmos trouxemos para dentro de casa; freqüentemente, inserimos a própria história nas entrelinhas do que outros escreveram. Fantasmagorias truncam o radar da realidade: ouvimos o que não está na partitura, lemos além do que foi escrito, projetamos frustrações, desejos, e esperanças na tela de smartphones. As brigas com ela, cada vez mais feias, agora acontecem todos os dias.
            ― A minha vontade era rasgar a sua bíblia e o seu véu de beata em mil pedacinhos!
            ― Já não é o bastante interromper os meus salmos com Darwin, Dawkins, pontos de macumba e gargalhadas forçadas?
            ― Será que é tão difícil perceber o puro sadismo da sua atitude?
            ― E por quê? Só porque ouso querer atingir a paz em meio ao caos? Parece que isso te incomoda demais...
            ―Me pergunto, vez e sempre, como isso pode ser: tragédia em cima de tragédia, e você ali, ajoelhada, rezando.
            ― Ninguém se importa, porra! Todos estão inseguros e tudo sussa, o mundo acontecendo e ninguém se ligando no movimento. Eu tenho fé por nós duas.
            ― Na época, acreditei que a sua fé vinha da persistência, e através dela, a sua persistência, voltei aos bancos de madeira, às novenas, aos rituais.
            ― Você nem sabia ao certo o que estava fazendo, mas voltou. Voltamos...
            ― Não é isso, não, é justo o contrário... Como é que você, musicista, cantora, compositora, pode ficar tão apegada àquilo que não funciona mais?
            ― É esse seu trabalho solo,. está lhe subindo à cabeça, a sua nova melhor amiga pra sempre encheu você de sonhos loucos...
            ― Que bom que ainda posso sonhar loucamente! Talvez seja porque estou viva, ao contrário de você, meu bem.
            ― Ontem, meu bem, contei até cem, hoje já nem sei... Escuta, o nome vai ser esse mesmo?...
            ― Sim. É disso que se trata: o que vim fazer aqui.
            Acontece que nunca mais voltamos às boas, aos bons e velhos tempos, a relação estava bastante desgastada. Claro, “relação desgastada” é um dos mais sórdidos clichês de fim de caso, no game over do amor nem sempre primamos pela originalidade ― e, menos ainda, pela suavidade ou clareza de propósitos.
            Neste último quesito, porém, estou tranqüila sobre o que devo fazer: vou seqüestrá-la e dar um fim nela, a outra, a mais velha das duas. Estou cada vez mais certa de que só assim vou ter sossego.



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Acumulação primitiva das sombras (final)


            O chiado das cigarras aumentou de tal forma que nos deixou surdos e não notamos a hora em que apareceram por lá. Pareciam estar de passagem, prontos para outros apuros e não para aquele momento. Esperávamos deixar passar os anos para então voltar ao mundo, quando mais ninguém se lembrasse de nós. Tínhamos voltado a criar galinhas e de vez em quando subíamos até a serra para buscar veados. Foi fácil.
            Mas tudo isso durou muito pouco. De repente ficou o vazio, espiando bem, só se viam os que estavam deitados no meio do caminho, meio tortos, como se alguém estivesse vindo pegá-los naquele lugar. Atividades diárias de então: lavar os copos, contar os corpos, e sorrir, com resignação e morna rebeldia. Os vivos desapareceram. Depois tornavam a aparecer, mas de repente não estavam mais ali.
            Para a carga seguinte, tivemos de esperar.
            Desde muito antes de chegar vimos que os ranchos estavam ardendo, das tulhas erguiam-se labaredas negras como se um charco de aguarrás estivesse queimando. As chispas e os rolos de fumo se trançavam na imensidão do céu, formando nuvens alumbradas.
            Os costumes se esgarçaram. Durante a noite era comum, por exemplo, se encontrarem em frente ao totem do nada um homem e uma mulher desconhecidos, e se apoderar deles um frenesi sexual. A praça deserta, um desses lugares que testemunham indiferença mortal pelo destino dos homens, os quais nunca se acostumam a atravessá-los descuidadamente, sem que um nó lhes aperte a garganta e os reenvie ao medo das savanas mortais, das agressões súbitas e degeneradas.
            Uma vez que há campo de batalha, a batalha torna-se inevitável. Uma vez que são inúmeras as lógicas transversais operando na história, o caráter contingente dos fatos deixa sempre aberta a possibilidade do inesperado. Abruptas hostilidades irrompiam com freqüência.
            Ficou c’o cu trancado, lazarento?
            Ih, cara, segue teu caminho, aqui não tem nada procê não.
            Arrombado!
Seu pau-no-cu!
Fica frio que tu já tá pedido.
            É mesmo?, e pra quem que cê fez meu resumo, cagalhão?
            Conheço uma pá de gente no apetite de te fechar, seu filha da puta...
            Valente é?, e por que não resolve é já? Nós dois, aqui mesmo...
            Tá zoró seu merda, tu tá bem louco?
            Vai se foder!
            Vai se foder você!
Décadas depois da cidade ser varrida por uma epidemia de riso louco, um forasteiro chamado Juan Nepomuceno andou por lá. Mas já só encontrou sombras.

Eu sou profeta do agora, disse a menina.

A pura, frágil, família Arkenon.

O quarto se aquietou.

Cada palavra, cada movimento, desapareceram como se fossem ecos do tempo.

A mãe mastigava uma batata, como se não estivesse realmente incomodada, mas olhou.

O pai queria cantar, tossiu para limpar a garganta.

O filho seguia os números do relógio, com três dedos simultaneamente.

Ainda faltavam sete minutos.

Então, finalmente, chegou a hora de fazer um brinde.

Todos se levantaram, animosos e solenes.




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Acumulação primitiva das sombras (#3)



            A vida passou de morosa, a difícil como nunca. Pensavam nos outros povoados ao norte mais afortunados, construídos em vales floridos, cheios de árvores frutíferas perfumando o ar, e riachos de águas frias e límpidas. Começaram a se dar conta de que viviam numa planície estreita e cercada de montanhas escarpadas, varrida por um vento quente que lhes soprava poeira nos olhos. Encontrar água virou uma batalha diária, porque os poços, até os mais fundos, quase sempre estavam secos. Havia um rio, mas os aldeões precisavam enfrentar uma caminhada de meio dia para chegar lá, e mesmo assim as águas corriam lamacentas o ano todo. Efeito da feroz estiagem, os canais de irrigação pareciam trilhas pedregosas sem sentido; eles trabalhavam duas vezes mais para conseguir metade do necessário para sobreviver.
            Por que você não compra um carro?
            Porque teria que comprar logo dois.
            Ah, ia esquecendo dessa sua mania duplicadora... É verdade o que dizem?, que há uma réplica de cada objeto em sua casa?
            Na verdade possuo um exemplar repetido de tudo em minha vida: dois cães, duas casas, dois infartes, etc., digo principalmente num sentido mental.
            Acontece que um procedimento assim, sem falar no TOC colecionista, superpovoa a realidade com espelhos, sexualiza o mundo no limite do insuportável.
            Sombras são mais confiáveis que espelhos, pelo menos não se põem a multiplicar, inverter as imagens! São os nossos dublês mais simples, veja, tudo pede seu ersatz: o outro nos sacode do sonho da identidade.
            O verdadeiro nó da questão reside na relação íntima entre dois termos, e não nas conveniências ou inconveniências que cercam toda relação. De toda maneira, recaímos no infinito ao dobrar a aposta: um substituto leva ao outro...
            Ah, sim, claro... os incas já conheciam isto, faziam calculadoras sofisticadas, começa com o zero e o um (sempre a dualidade fundamental), então, é só acrescentar novos elementos à seqüência somando os dois anteriores. Deste modo se constroem as catedrais, crescem as ninhadas de coelhos, as pirâmides, os mercados financeiros, as conchas, a disposição dos galhos na árvore, o arranjo das folhas no coração da alcachofra, ou o desenrolar das samambaias. Um simples deslocar da série, a partir da oscilação entre nada e alguma coisa.
            Bem, quando temos um princípio, passamos a vê-lo em toda parte, não?
            Aí é que está, não inteiramente. Passei anos colecionando os duos à minha volta: as duas igrejas, a estrada que se divide, a dupla vida de homens, bichos e plantas; se encontrava um assassino entre os meus vizinhos, logo aparecia um blasfemo, aos santos correspondiam os orates, e assim por diante. Até que surgiu esse obelisco atormentador... é um abismo à luz do dia, algo capaz de ir de zero a tudo, capaz de roer o oco do coletivo: um acontecimento sem sombra. Você não percebe a monstruosidade do conjunto vazio? A essa caixa que apareceu, não responde nada em lugar nenhum!
            Também não é pra tanto, cara, não entendo como é que um acontecimento tamanhamente besta pode tirar do sério tanta gente boa. Que diferença faz uma coisa que não faz diferença nenhuma?
            Se quiser ficar, fique, te dei a letra, por falta de aviso não foi. Pra mim, deu, vou nessa que é bom à beça.
            Foi o primeiro a se mudar. Posteriormente, em conseqüência de fatos que serão relatados adiante, outros moradores foram abandonando o vilarejo; neste período, inclusive, as pessoas já não se mudavam, simplesmente desapareciam. Ninguém mais ouvia falar delas, era como se tivessem sumido do mapa. Relatos de ousada imaginação falavam de anônimos sendo acordados no meio da noite por milícias, espancados, algemados e conduzidos para centros comerciais. Enfim, naquele contexto, crenças estúpidas achavam guarida em cérebros sadios; qualquer um, mesmo sendo rigoroso, racional e inteligente, podia errar gravemente na avaliação da conjuntura.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Acumulação primitiva das sombras (#2)


            Uma omertà secreta e muda, de gestos tensos, havia sido pactuada por todos os moradores desde o sucedido: sem se darem conta, esquivavam a mira do olho no olho. Pessoas outrora ajuizadas escutavam com ansiedade as mais simples cortesias, liam-se os lábios, freqüentemente pediam pela terceira vez para repetir um sim ou um não. O mais x era que se adaptavam insensivelmente (a consciência do problema chegava às raias do camaleônico), muito porque, na prática, se podia seguir fazendo o que se fazia antes, não havia necessidade de interromper nem modificar nenhuma atividade.
            Era uma espécie de magia, mas tão terrível, ou tão falsa, como o truque de serrar a assistente do mágico no palco.

            Procuro palavras com a urgência dos tolos.
            Já tinha percebido, é como se você fosse uma metralhadora giratória disparando signos contra o muro das coisas.
            ... quero atingir o que não sei, o que ainda não existe.
            Isso já deve ter acontecido a você, aconteceu comigo, também eu não sei onde vai dar esta história.
            A gente vai vivendo aos rabiscos, jogando nomes ao acaso, iscando e ciscando pra pegar o que está dentro, fora, ou além.
            É um bocado inquietante esse bloco no meio da vila, assim, surgido sabe Deus de onde...
            Não vai dar, não corre o risco de dar certo.
            Você acha?!
            ... as emoções... elas se chocam dentro de nós como os blocos de gelo no mar dos pólos.
            Tudo é a mesma matéria, mas a palavra se choca com a vida, você sabe.
            Alguns viram quando o furgão branco parou na pequena rotatória da bifurcação da estrada, e desceram os dois funcionários uniformizados que abriram as altas portas traseiras. Depois de instaladas rampas de metal na carroceria, um terceiro ajudante desceu de lá num bobcat, despejando junto ao marco do centro um paralelepípedo de dois metros e meio de altura por oitenta de largura. À luz do fim da tarde de outono, aquela geringonça de aço escovado emitia irradiações prismáticas singulares, a ponto das testemunhas divergirem unanimemente sobre a cor das roupas dos homens, a placa do furgão, e até mesmo a direção tomada ao sair da cidade.
            A princípio pensou-se em algum engano, uma entrega equivocada de alguma agência governamental. Ao cabo de uma semana cada agência pública do país havia sido consultada, cada obra em andamento contatada, pesquisas exaustivas em banco de dados ― as respostas invariavelmente negativas iam exasperando o conselho dos munícipes reunidos em sessão permanente. As primeiras desavenças não tardaram. Agremiações políticas rivais fizeram circular teorias abstrusas sobre manobras intimidatórias, conspiratóras, até mesmo derrisórias, com vistas a tumultuar as próximas eleições.
            Porém, as eleições vieram, e o pesadume daquele evento sem explicação continuou a angustiar os corações da comunidade. O estado de emergência se desfizera, mas as bizarrices do objeto permaneciam como um enigma lançado à cara de todos, interpelando-os sem cessar, desafiando a céu aberto. Fosse qual fosse o metal daquele monólito maciço, nenhuma broca sequer arranhava a superfície dele, dois tratores atrelados por correntes não o moveram um centímetro do lugar. Especulações corriam soltas, o padre admoestava nos sermões, multidões vinham em romaria.
            Até que a novidade cansou, os visitantes se foram, e eles voltaram a ficar sozinhos, entregues ao involuntário monumento da própria afronta. Foi uma criança da vila que descobriu a inscrição em baixo relevo numa das faces do troço reluzente:
            “Nothing Box”.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Acumulação primitiva das sombras (#1)



            E isto funciona.
            Mas funciona, como?
            Funciona, apenas funciona. Tudo funciona, e é isto o mais inquietante, que tudo funcione, e que este funcionar impulsione cada vez mais longe o funcionamento.
A organização moderna do caos.
Pode apostar.
Mas se aqui só há setecentos e poucos habitantes fixos, vá lá, que chegue a mil e trezentos no verão...
            Pensa, são setecentas pessoas, tira as crianças, o bicho gente é estatístico igual aos outros: por volta de dez por cento. Daí que temos uma metade da laranja que não interessa, e vice versa, sobram os outros trinta e cinco com gostos mais ou menos semelhantes.
            Trinta e cinco?
            Desses, digamos que dez não queiram nem pintado de ouro, ainda ficaram vinte e cinco. E sem contar os flutuantes eventuais...
            Vinte e tantos... plus extras?
            Estes últimos são menos regulares, mas mais emocionantes.
            E eu pensando que as cidades pequenas eram monótonas...
            A cidade era realmente pequena, mais para vilarejo que outra coisa. Um quilômetro de extensão ao longo de uma estrada que se bifurcava em Y na direção do sul. No entroncamento de onde partiam as três direções possíveis, ficava a capela centenária, marco zero do povoado; crescendo a partir da pista de duas mãos sem acostamento, um bordado irregular de casinhas e pequenas propriedades se esparramava rumo aos campos e montes circunvizinhos.
            A agência bancária, os correios, um posto de saúde, a igreja, a prefeitura, o mercadinho e o café, eram os pontos focais da escassa população. Apesar do extenso calendário de festejos e eventos religiosos e cívicos, havia em curso um acalorado debate público sobre qual a data mais adequada para se comemorar a fundação do município. No fundo era uma guerra santa, já que o aniversário da cidade coincidia tradicionalmente com o dia de São Simeão, santo da paróquia, embora não fossem poucos os que defendessem oficializar o dia do padroeiro da capela, São Leonardo, o que acarretaria mudar a maior festa da cidade do dia seis de novembro para o dia cinco de janeiro.
            Engana-se quem pensa.
            Não há um único homem que não seja um descobridor...
            E as mulheres são o quê, uma descoberta?!
            Bom, eu falava num sentido geral...
            ... claro, as mulheres costumam estar fora do sentido geral. É o hábito.
            Contudo, sempre há alguém que surge do nada e abre uma porta...
            ... para o infinito. Como esta discussão.
            Odeio adversativas. Contudo deveria ser com-tudo, mas, porém, todavia, no entanto, contudo sempre deixa de fora uma exceção: um mas.
            São os parasitos, partículas da disjunção, da confusão de alhos com bagulhos.
            Muito piores são os expletivos, perfeitamente dispensáveis.
            Senhores, senhoras... voltemos, assim nos perdemos no assunto principal, digo, do assunto...
            Pois é, voltemos e votemos, precisamos decidir entre o seis e o cinco.
            ... uma unidade, apenas.
            Qual, são dois meses de intervalo!
            Dois meses, menos um dia.
            Roma e Pavia...
            O fato é que não conseguimos decidir nada, está acontecendo o que acontece toda vez: não chegamos a lugar nenhum.
            Mas... se isto que chamo de lar, o chão onde descansam os ossos dos meus antepassados, é o próprio lugar nenhum...
            Nós nunca vamos sair daqui, somos os que ficaram pra trás.
            Por quê? Presos a quê?
            Ao dispositivo.
            Dispositivo?
            Não é só o sistema que demonstrou sua eficácia milenar, mas um lento, profundo e implacável enfeiamento do mundo que empobreceu a experiência de todos e cada um, substituindo-a por uma ciranda de desejos mesquinhos e jamais satisfeitos.
            Nada além de sombras, aqui nunca acontece nada.
            Todo indivíduo projeta a si mesmo no que está à sua volta.
            Quando souber de quem sou a sombra, indiferentes serão para mim vida ou morte.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

tocar a pele do agora


quando se abraça o instante
tudo que estanca
move
nasce pra morrer de novo
e voltar
adiante com os vermelhos
da manhã tão branca
e para que saibas
abismo
ainda estou aqui