quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

do que falam os mímicos quando conversam

― Itzal, Itzal, você veio me ver, a mim, este velho combatente, seu camarada de armas, um pobre militante esquecido pelos burocratas do partido... Não posso dizer que não imaginei que seria assim, não, isto já vi acontecer tantas vezes... eh, bem, não faça essa cara, você sabe do que estou falando: la mano negra, por suposto. Hmm, você deve conhecer a própria fama: quando o Sombra vem te visitar, é porque a morte vai chegar ― ele variava, mas o interlocutor percebia que no seu discurso coabitavam delírio e fato, fábula e verdade, segredos de fantasmas onde espreitavam histórias idas e outras nem tanto. E era isto que fazia o outro estar ali: a memória. ― O que me espanta é que tenham mandado alguém tão importante. Por quê? Só muito recentemente me ocorreu, como costuma acontecer com tantas coisas na vida, que tudo pelo que lutamos é o que o poeta chamou de tarde conocido desengaño, um espantalho capaz de atravessar séculos e gerações ― hoje me sobra tanto tempo para exercitar a autocrítica! ―, uma maldita ideologia religiosa Itzal, fomos os sacerdotes de um concílio leigo que se acreditava ciência, uma irmandade de facínoras sob o manto da facção política, falsos profetas, sicários travestidos de idealistas... ― com o indicador, descrevia círculos no ar ― Não foi atrás da revolução que nos estafamos, o que buscávamos era negar a desalentadora falta de sentido da história... caímos na ilusão milenarista, meu velho, a lorota do eterno retorno, dos ciclos de evolução e degradação: capitalismo, socialismo e comunismo, ou melhor, queda, penitência e redenção final; toda essa papagaiada apenas para exumar os restos mortais do sagrado!... O fanatismo, que nos fez pensar que se podia agir em função de uma justiça histórica superior, tinha a propriedade mágica de devolver propósito ao mundo, de lhe conferir uma missão a que chamávamos práxis revolucionária. Lembra? As pontas se encontram: a velhice é tão frágil quanto a infância; aquilo que termina onde começou, acaba por devorar a si mesmo ― Então, pôs-se a cantar: ― Euskara, jalgi hadi kanpora, Euskara, jalgi hadi dantzara!

― Mas... que cantoria de puta madre é esta agora? ― Xabier Lizardi estava incumbido de uma tarefa diferente das habituais, diurna e extramuros, o que o irritava mais ainda. Não havia como transladar o velho daquela cama sem chamar muita atenção, além do que o desgraçado era carne de pescoço.

― Língua basca, mostra tua cara, língua basca, sai para dançar. É uma canção. Abuelito quase só fala assim... ― Minervita, a neta de 10 anos, tinha se esgueirado para dentro do quarto; não fitava o estranho nos olhos, como a ninguém aliás, agarrava-se a um pedaço descascado da parede do quarto. Certas texturas que lhe davam a sensação de segurança.

― Ah, não, assim não dá, até a monguinha pode entrar e sair desta merda a qualquer hora? Lupe, Lupe, me tira a chica daqui, porra! ― Xabier não entendia aqueles destroços de uma família: Lupe, mãe adotiva de Minerva, cuidava bem do pai entrevado, apesar dele nunca ter ligado a mínima para ela ou para o meio-irmão, Huáscar, transsexual que mantinha um salão de manicure na frente da casa de 3 cômodos naquele musseque nos arredores miseráveis da capital de Mirassoles.

― Escuta bem Esteban Urkiaga, não estou pra charlas, vim até aqui porque você nos deve OITO, apenas 8 números que estão aí, dentro dessa sua cabeça confusa. O partido necessita desse dinheiro para a campanha de reeleição da presidenta; trata-se de uma conta numerada na Suíça à qual só você e Luís Amiana tinham acesso. Já temos os códigos-fonte e os backups digitalizados do Banco de Custódia de Zurique, são mais de cem milhões de dólares que podem ficar enterrados lá, compreende? O problema é que Luisito morreu num acidente de barco, você sofreu um derrame e nós, nós estaremos fodidos e mal pagos se não conseguir se lembrar; PRECISAMOS desses números, companheiro ― qualquer um que acompanhasse minimamente a política de Mirassoles temeria encontrar-se com o Sombra, aliás, Xabier Lizardi, aliás, Johnny Abbes García, aliás, Joaquín Balaguer, aliás... ninguém sabia ao certo quem ele era, embora todos soubessem muito bem o que ele fazia. A “restauración democrática” de Mirassoles, uma genial invenção dos marqueteiros, permitiu aos governos de esquerda que sucederam a longa ditadura do Generalíssimo Benfeitor chegar a uma cômoda divisão: a polícia podia continuar torturando os pobres, enquanto os partidos mantinham tonton macoutes como Xabier em prontidão. Uns e outros só tinham de ser discretos, agora que vigorava uma relativa liberdade de imprensa.

― Lancei a âncora no entardecer, tovarisch, ponho o pé no outono... A memória tem sido a minha prisão, uma prisão irônica de todo modo... Sabe o que o meu filho Huáscar me ensinou?, que os esmaltes de unha são todos ruins a despeito de preço ou marca, o que acontece é que alguns são piores... o mesmo se dá com os destinos humanos, cuja diferença é uma ou outra cor mais rara. Meu pai nasceu no mesmo dia e ano da Revolução Russa, meus avós, fundadores do partido comunista basco, foram fuzilados pelas tropas franquistas durante a Guerra Civil; com a minha mãe já grávida de mim, meus pais se exilaram logo depois, quando Mirassoles acabara de banir o PC. Nasci e vou morrer na clandestinidade e, cúmulo dos cúmulos, pelas mãos de um cidadão inexistente!... Acredita-me Xabier, esse maldito acidente vascular cerebral não me jogou somente nesta cama, tirou de mim também a capacidade de calcular... não consigo me lembrar de um número que seja ― baixou os olhos e, mais lentamente, virou a cabeça de lado, só então o visitante notou que o quarto havia mergulhado numa sombra opaca.

― Esteban, você me julga mal, não sou seu anjo exterminador, quero apenas os números. Quando ainda estava no movimento estudantil comecei cobrindo seus “pontos”, lembra? Caí preso como você, agüentei choques e pau-de-arara por 3 dias sem “cantar”, quando abri o bico a meganha não podia pegar mais ninguém, assim salvei a operação em que estava a sua irmã mais nova. Isso você não pode ter esquecido. Companheiro, você sabe o que está em jogo: nossos adversários políticos não são a verdadeira esquerda, eles fugiram do país, foram dar aulas em universidades estrangeiras bancados pela CIA; não estão, nunca estiveram, do lado do proletariado, nunca quiseram libertar o povo! ― a pequena debilóide continuava ali, lambendo o estuque da parede; Xabier nutria um horror físico para com os “loucos”, motivo pelo qual não arrastava a menina dali pra fora a tapas. Onde andaria Lupe, perguntava-se.

― Ninguém liberta quem não quer ser libertado, Xabi, a ditadura militar em Mirassoles acabou por esgotamento senil, corrupção generalizada, corrosão da hierarquia... tal como na Itália do pós-guerra assumimos o poder fazendo acordos humilhantes com um leão desdentado, mudando tudo para manter tudo igual, substituiu-se a ditadura do proletariado pela da imagem, ganhamos eleições... e o que conseguimos?, fizemos um país de verdade?, ou somos ainda, como nos filmes de Hollywood, um refúgio de ladrões, terroristas, mafiosos, traficantes, nazistas e ex-ditadores? Com as rédeas do país na mão, já não assaltamos bancos, nos vendemos aos donos deles, não mais seqüestramos diplomatas e empresários, achacamo-los na hora de financiar eleições, deixamos de fundar jornais, preferimos comprá-los com propaganda oficial, não nos envolvemos mais com movimentos sociais e sindicatos, damos-lhes verbas para que se calem. Itzal, perdoe o desabafo deste náufrago... bem vejo que você imagina que lhe escondo algo, olhe em volta, repare a pobreza da minha família... Espere, há algo que pode ajudar... outro dia sonhei com uma palavra enorme, acho que tem a ver com a tal senha...

― Palavra?, não, nada disso; veja, nós recuperamos no notebook do Luisito uma parte da seqüência, são 3 letras: M, L e S, que conferem segundo o banco, mas ainda falta a parte numérica. Como já te disse, são 8 números apenas e o que achamos foi um código binário de 0s e 1s que não conseguimos decifrar. Veja, tá aqui no meu celular: 111001101000000010001101. Te diz alguma coisa, essa porra?!

― Yamátárájabhánasalagám. Foi essa a palavra que sonhei... anotei também, quer?

― Esquisito, vale, creio que andamos em círculos, mas... vou mandar para a equipe de criptoanálise da Casa da Caoba, quem sabe? ― levantou-se e começou a disparar telefonemas para a sua poderosa rede de contatos.

― É sânscrito, o abuelito... ― Minerva podia não compreender o que se passava naquele quarto, mas fazia a sua parte para entregar logo o que aquele homem odioso queria para que deixasse seu avô em paz.

― Ah, claro, e entendes também dessa língua de pagãos né, pirralha?... Alô, Quiñones, não esqueça de dizer que pode ser que a palavra esteja em sânscrito, ou seja lá que bosta de língua for, hem? OK, mas rápido, então, quero respostas! ― esperou em pé junto à janela que dava para um corredor que interligava as habitações da casa. Meia hora depois, a resposta: negativo, não era sânscrito nem nenhuma língua conhecida; a tal palavra não codificava nada. Sentou-se de novo de frente para o doente. ― Você não está me ajudando Esteban, se você não me ajuda como é que eu vou poder te ajudar?...

― Estou fazendo tudo que eu posso, juro... Hmm, compreendo a sua função, não o julgo... mas, e de que vai adiantar, Xabier, matar quem já está morto? ― naquele momento, ouviu-se a voz de Lupe vinda dos lados da cozinha. Olharam-se. O rosto do velho crispou-se, subitamente vincado pela dor; as palavras saíram-lhe trêmulas, arrancadas a custo num murmúrio lancinante: ― Não... não a maltrate muito, por favor... você tem experiência nessas coisas, vai ver logo que ela não sabe nada, vai ver que é um sofrimento inútil... so-só te peço uma coisa: acaba comigo antes, não quero ter que encará-la depois, sabendo... sa-sabendo que mais uma pessoa sofreu por minha causa...

***

Os capangas do Sombra fizeram uma razzia naquela noite: reviraram a casa toda, espancaram brutalmente Huáscar, não sem antes destruir todos os espelhos e equipamentos do salão dele, levaram Lupe prometendo devolvê-la em 3 dias. Pouparam apenas a aterrorizada Minerva ― nem precisaram, já que ela própria batia a cabeça contra a parede durante a operação. No entanto, era a única que poderia ter lhes dado o que buscavam. Dias mais tarde, quando Lupe voltou, ficou evidente que algo nela se desligara para sempre; Esteban Urkiaga já tinha sido enterrado, a casa estava mergulhada num silêncio só entrecortado pelo barulho das teclas do computador de Minervita; ela conversava pela internet com um dos seus amigos hackers no PC antigo que se salvara da destruição.

― Uau! 100 mijones de doletas $$$$!!! C/o q vc crackeou a senha?
― Meu vô tava estudando sistemas autovorazes, uroboros, a cobra que come o próprio rabo, yamátárájabhánasalagám não quer dizer nada, os hindus inventaram para mnemônica de ritmos, tripletos, o segredo é a acentuação, substitua silabas acentuadas por 1s e as outras por 0s e temos: 011101001, seqüência que codifica todos os triplos possíveis de batimentos curtos e longos, é só se deslocar uma casa p/ esquerda...
― Pesquei! 0 fica 011, 1 fica 111, 2 fica 110 e assim por diante... duca!
― Então ficou: M, L e S, são Marx, Lênin e Stálin, os heróis do meu avô, e os números são 17, revolução russa, 36, início da guerra civil, 64, revolução em Mirassoles e 73, o ano em que os pais do meu vô foram mortos pela ditadura do Generalíssimo na guerrilha rural.
― E o q vc vai fzr agra?
― Esperar. Quando fizer 18 vou até lá (escondeu que era na Suíça) e pego a grana.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ensaio de Mudança



Em silêncio
sonhei
com um sentir
possível

Me perdi
sou tão tola!
nem percebi
que sonhava
sozinha

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Efêmero


Não sei o que trazem os dias
que hoje traço
nem sei o que abraço
nem qual é o traço
que traço nesse retrato
retrato fugidio
retrato de mal querer
de cores pálidas
cansada

Fazes os traços do laço
de nó bem apertado

-sufoco em notas de dó-

domingo, 9 de janeiro de 2011

"0"

odeias

o ódio te dói

adentro

ab ovo

vaso

que o amor só

constrói

e podes gozar

a teu modo

e medo

o ódio esconso

que em ti

rói


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

a norma

a coisa mais normal do mundo
é querer ser considerado
respeitado
amado
enfim
ser tido e tratado como um
dos nossos
lado a lado com o desejo
de ser incomum original nunca visto
ou seja
único
então o normal é querer
o que não se pode
sonhar como se tudo fosse possível
e nada satisfaz ao ser
atingido
para além da ordem um imenso
vale-tudo
depois do ser um impensável
nada

(lá fora frio e aqui a cerveja quente)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Deixei de me Importar com Você



Narciso
não e´beleza
é fascínio
laço
som que reverbera
hipnose
teia
sedução

Que paralisa
traciona
quebra
aprisiona

E nem percebe

E você que se dane


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

a favor e contra

sou a favor da pena de morte
para o Criador

sou contra o aborto
da natureza

sou a favor das drogas
para dores de parto

sou contra o trabalho infantil
e adulto

sou a favor do casamento gay
para humanos, ETs e outros

sou contra qualquer tipo de racismo
afinal, há raça humana?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ao Bentinho


Na palavra
não dita
o segredo

O ato, o fato
sugerido
nos Sinais

Crença
do desejo
em sua urgência

A desconfiança
-limbo da alma-
atoleiro
quase imóvel

No desamor
o vazio
a obsessão

domingo, 26 de dezembro de 2010

Conto de Natal

Todo mundo vê os tombos que levo, e todo mundo se apressa em apontar as cachaças que tomo. Uma terrivelmente simplificadora confusão entre meios e fins; a bebida, ao menos no meu caso, sempre foi um meio tolerado de apressar o fim ― um instrumento do inevitável entre tantos outros disponíveis, com um quê de indulgência romântica que convém ao estilo de vida que adotei. Para você, que está dentro da minha cabeça neste momento, não é difícil constatar que abomino a dor física e que receio mais ainda a vergonha de falhar no intento. Não há engano quanto a isto, faço meu cálculo de conseqüências: não quero legar às minhas filhas o peso de um suicida, embora me agradasse deixar esse estorvo à mãe delas. O veredicto social busca culpados para a autotanásia, no alcoolismo basta um.

De modo que fiquei restrito, por tibieza e hábito, a me aboletar em mesas e balcões de bar e esperar. Beber é um requinte da milenar arte da espera; já fumar, usar drogas, destruir carrões e motos, me dão a impressão de pressa, de uma certa displicência, algo como acelerar os ponteiros acrescentando peso aos mecanismos do carrilhão no relógio da vida. E se há uma coisa que detesto é a falta de critério dos tempos que correm, as pessoas saem a esmo imitando qualquer tendência para não ter que criar nada de intimamente seu. Nem mesmo a despedida. Comecei a beber de forma, digamos, mais competitiva, depois que a Yolanda se foi, deixando-me com as meninas; no ano em que a mais nova se formou, perdi meu último emprego registrado em carteira.

Não sei o que há comigo; por que continuo se já ultrapassei o préstimo?, o que é que ainda tenho que ver ou viver?. Já passei faz muito dos sessenta (meu pai, um avô e uma avó morreram do coração antes dos cinqüenta), parei com todos os remédios, estou pré-diabético, hipertenso e uns bons trinta quilos acima do peso, todas as madrugadas enxugo hectolitros de destilados, fermentados, perfume, desinfetante, qualquer coisa que contenha álcool... e nada me acontece. Acordo todos os dias inchado, sem poder fechar os dedos da mão sobre as palmas, meu nariz é um obsceno morango recortado por veias escuras no rosto semi escondido pela barba branca; às dez em ponto, ainda de fogo, chupando a primeira bala de menta do dia, chego no promocenter onde estou defendendo uma graninha de fim de ano.

Até às sete fico lá, vestido com um roupão acetinado, botas e cinto de fivela, além do gorrinho vermelho de bolinha, com uma sineta na mão anunciando as ofertas imbatíveis do mini-shopping de bugigangas chinesas. Neste calor de fritar calango no meio-fio, não sei o que é pior: a canícula, as crianças me puxando a barba (“é de verdade, mãe!”) ou ter que passar a seco oito horas e meia, descontada a meia horinha do almoço, quando engulo uma esfiha, um torresmo ― e um martini com duas pedras de gelo, que ninguém é de ferro. Moro de favor nos fundos de um estacionamento próximo, o que me introduziu na seleta casta de habitantes do centro da cidade-dormitório. A cidade faz parte da Grande São Paulo; não é tão ruim quanto parece, os políticos daqui praticam o saudável esporte de se fuzilarem uns aos outros, o que vem estimulando a imprensa e o setor de serviços locais.

O centro comercial e administrativo é pequeno, mas o município é amplo; a maioria vive em subúrbios meio distantes, descampados, com ruas de terra batida servidas por excelente malha de córregos que também faz as vezes de esgoto. Mas não posso reclamar, vou a pé para a firma que fica na Avenida Brasil com a Araújo de Castro; o duro é que, como lá não tem vestiário masculino, tenho de já ir vestido de Papai Noel, e tome-lhe gozação no caminho. Nos estandes predominam as vendedoras, umas meninas enfiadas em calças jeans dois números menores do que o recheio, que passam a maior parte do dia coladas no celular falando com Deus e o mundo. Tomei gosto por conversar com a Jucilaine, uma dessas coitadas, que ainda por cima está grávida; a velha história: dezoito anos, segunda barriga, segundo pai que desaparece, a avó cria o primeiro brasilino, a mãe trabalha em São Paulo em casa de família.

“Você tem pai?”

“Nem o Noel.”

“E o do... da criança, quem é?”

“Um motoboy do Pizza Express, chama Gabriel.”

Fim de expediente, numa sede da quenga, só pensava na hora de sair dali e já tomar a primeira breja da noite num pé-sujo da vizinhança, só pra lubrificar dando uma banana para quem achasse graça da roupa e para a tal Ceia de Natal. Não sou de ficar emotivo por datas, não antes de encharcar a alma de manguaça, não antes de relembrar que a Yolanda saiu de casa para viver com outra mulher, que as minhas filhas são gerentes de multinacional e já desistiram de me internar em clínicas de reabilitação. Só dei para a mais velha o telefone do estacionamento. Começou então uma daquelas chuvaradas que foi virando enchente em pouco tempo, trânsito parado, os ônibus e peruas passando apinhados de gente sem pegar ninguém no ponto. De repente, a magia das compras havia cessado e as pessoas foram para a porta assistir à fúria das águas que desciam em torrente na direção da parte mais baixa da avenida.

Jucilaine ia dormir na casa de uma amiga, já que no bairro dela o córrego transbordara e nada nem ninguém passaria por ali naquela noite. A mãe ligou dizendo que também não conseguia voltar de São Paulo; ligou para tranqüilizar a avó, que guardasse o peru, fariam a comilança e a entrega de presentes no dia seguinte, paciência. Mas a amiga também estava com problemas na sua quebrada, a Defesa Civil tinha acabado de mandar desocupar toda a rua por risco de desabamento. Ofereci-me para lhe dar um pouso naquela noite de caos; do estacionamento poderia ligar para saber como estavam as coisas com a avó ― ela tinha ficado sem créditos no celular. Não deve ter sido um belo espetáculo, uma dupla bizarra espremida sob o guarda-chuva virado do avesso pelo vento, meio a reboque da enxurrada e com rajadas de chuva batendo de tudo quanto é lado. Menos bonito ainda foi quando fizemos uma parada técnica num boteco, onde abri os trabalhos mandando duas Steinhäger com limão pra baixo; ela recusou o ovo colorido que o garçom lhe trouxe no pires.

Quase que ela poderia ser a neta que não tinha, mas, enquanto caminhávamos aos tropicões pelas ruas alagadas, pensei que tudo aquilo poderia estar ligado ao motivo de eu continuar, misteriosamente, vivo. Fiquei constrangido ao sentir o meu barrigão encostado no dela e, sem entender o que uma coisa teria a ver com a outra, não conseguia tirar a pergunta da cabeça: “qual lição ainda tenho que aprender?” Papo mais besta, esse; acomodei-a no muquinfo em que vivia, presenteando-lhe o colchão e me estiquei na poltrona. O banheiro ficava num puxadinho do lado de fora da edícula; você que neste momento tem acesso a tudo que penso, sabe que velei toda a noite porque faltavam ainda muitos graus GL para me derrubar nos braços de Morfeu, e também que ansiava vê-la levantar-se, ir ao toalete lá fora e voltar toda molhada, se aninhar ao meu lado.

Dar umazinha hoje até que não ia mal, já faz tempo a última. Quantos Natais? Mas o que ninguém poderia suspeitar é que ali, semi-adormecido na poltrona, mamando os restos de uma garrafa de Pitú esquecida no almoxarifado, eu lembrei. Veio tudo, o dia em que pedi a Yolanda que abortasse o que seria nosso primeiro filho, recordei o terror por estar desempregado, o olhar dela; mesmo que duas filhas saudáveis tenham vindo depois, nunca mais dormimos na mesma cama. Será que era isso, finalmente o destino estaria me dando uma mensagem cristalina, eu ainda precisaria conhecer o filho da Jucilaine? Certo, uma criança está vindo; pode não ser muito, mas sempre é alguma coisa. Não acha?

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

sopro


o ar saco de moléculas
onde há ondas sou como
o eco a te eco ar

de seda e sangue entendo
neste tempo inextenso
o dragão na lua desce

tem a sede da bestas a
cada mênstruo da bosta
da lesma do elefante

o cio está nas coisas
da almassolta se cheiro
na relva o orvalho doce

ácido é o pensamento
de quem chora a chuva do
dia que teria sido

você pode se enganar
o que eu não posso fazer
é me enganar por você