sábado, 26 de março de 2016

Red Star (6)



Carregaram os pertences e as compras no confortável utilitário de Lucí e saíram cedo no contrafluxo da quinta feira, teriam seu fim de semana prolongado numa agradável propriedade situada nas fraldas da Serra de Cádiz. Elas calcularam que os dois dias surrupiados ao trabalho seriam mais do que suficientes pra levar a cabo seus intentos. Grafites gritavam a poesia multicor dos arredores sevilhanos, paredes e ruas passavam inertes banhadas pela luz oblíqua da manhã. O dia se anunciava esplêndido para uma escapadela rumo ao campo.
Pegaram a Autopista del Sur quase completamente vazia e rodaram tranqüilos conversando amenidades. Sentada no banco de trás, Jaque se viu comentando a última partida dos rojiblancos, uma sova impiedosa do Real Madrid: quatro a zero, com direito a show particular do craque Cristiano Ronaldo. Nas margens da rodovia contemplavam a vegetação dos jarales, arbustos baixos e retorcidos como as mirras espinhentas, e prados verdejantes onde cresciam o cardo, as centáureas e os tufos de esparto. Na altura de Las Cabezas de San Juan saíram à esquerda, fugindo assim do monitoramento dos radares rodoviários cruzando através da cidadezinha para continuar pelo entroncamento de La Virgen de las Cabezas.
A estrada de mão dupla, a pista única margeada por uma fileira de imponentes choupos, apenas interrompida pela pitoresca seqüência de minúsculos povoados com suas casas de pedra, galinhas e cachorros soltos, azinheiras, homens a cavalo ou em carroças, e aldeãs carregando o luto eterno nas roupas escuras. Conforme se avizinhavam da serra, sentiam no ar um misto dos aromas do pinus e do rosmaninho que cobria os campos florindo-os do seu inconcebível tom magenta.
― Galo que não canta, algo tem na garganta ― Lucí provocava o subitamente silencioso convidado.
― O que as palavras podem diante da beleza deste vosso país, minhas caras amigas?
― É verdade. Nunca deixo de me emocionar com os nossos campesinos, é uma mistura de resistência, coragem indômita e religiosidade fanática que fazem tremer os ossos a qualquer um ― da janela, Jaque aproveitava o refresco do vento com ar sonhador.
― E já que sacaram um ditado, também tenho o meu: como sou do campo, aqui me descampo.
― Ah não, Slobodan, de nós você não escapa ― Lucí olhou pelo retrovisor para encontrar o olhar intenso da amiga.
― Hahaha. E quem disse que eu quero escapar? Só louco pra perder uma oportunidade destas.
Finalmente chegaram, uma propriedade isolada a meio caminho entre Prado del Rey e Villamartin no sopé do parque nacional de Cádiz. Piscina, churrasqueira, um pequeno pomar de oliveiras, e até mesmo uma casa de madeira na árvore para crianças, o caminho de pedrisco ladeado por canteiros floridos do amarelo das artemísias levava à casa. Estacionaram o carro na sombra de um magnífico roble cujos ramos gigantescos se dobravam até o chão. Simplesmente perfeito: o lugar era invisível da estrada, enclausurado dentro de um pequeno bosque de freixos e castanheiras.
Instalaram-se no mezanino, Jaque e Lucí dividiram o quarto. Radic aguardou-as descer contemplando uma reprodução sobre a cornija da lareira esculpida em pedra. Lucí resplandecia num vestido de cambraia leve com seus longos cabelos negros cascateando pelos ombros e costas.
― Não falem, por favor, já vi você num quadro, Lucía ― Radic arregalava os olhos muito azuis em êxtase. ― Dona Aña qualquer coisa, de Ramon Casas.
― Acho que lembro dessa pintura, sim. Não sabia que era admirador de arte ― Jaque disfarçava, também comovida com a beleza quase displicente da amiga.
― Verdade, estava observando esse Da Vinci sobre a lareira, até mesmo os esboços dele têm a grandiosidade dos monumentos. Como, aliás, as damas que me acompanham: até num invólucro casual, deslumbram.
― Hahaha, aceito o piropo Radic, mas o talento que você vinha ocultando na verdade é o de galanteador barato ― Lucí sorria, ainda mais sedutora.
Em Da Vinci não se distinguem rascunho e obra, porque a verdadeira realização não está na forma definitiva, mas na série de aproximações para atingi-la. Cada esboço testemunha uma extraordinária batalha com a linguagem, cada linha híspida e nodosa procura a expressão mais rica, mais sutil e precisa ― o espião falava como para si mesmo.




domingo, 20 de março de 2016

Red Star (5)




Às vezes as coisas saem dos trilhos e o mundo parece ter ficado de pernas soltas e pontas afiadas, e é então que podemos abandonar as vias habituais para experimentar caminhos novos e desusados porque tudo parece ter se tornado possível. Era assim que Jaque se sentia naquele primeiro dia quando deixou a casa de Lucía, de repente aquela moça passou a existir na sua vida, e mais de repente ainda, tornou-se amiga, aliada, e finalmente cúmplice num esquema mirabolante de caça a um predadoir sexual. Exatamente aquele que a marcara para sempre.
Tinha tudo pra dar errado. Mas as coisas foram caminhando rapidamente nas semanas subseqüentes, a identificação pelo programa de reconhecimento deu positivo, Slobodan Radic era mesmo o agente especial Kemper Boyd: 96% de certeza. Quem não entendia nada era Paco, a súbita aproximação entre as suas amantes parecia-lhe uma fulminante paixão feminina a empurrá-lo prum escanteio desonroso e mortificante. Talvez ficasse ainda mais alarmado se soubesse que Lucí agora fazia uma corte bastante descarada ao vizinho do terceiro andar, que por sua vez mostrava-e totalmente deslumbrado com a deslumbrante morena de sobrancelhas grossas, literalmente caída do céu.
Nisso no entanto Paco não se enganava de todo: as duas viviam noites febris de maquinações assassinas regadas a álcool, confidências descabeladas e pegação liberada. Como aconteceu depois do primeiro jantar romântico de Lucí com o falso comerciante sérvio. Assim como se nada, depois de 3 garrafas de Torre de Oña, ela lhe falou abertamente das suas preferências sexuais:
― Então, meu amigo, não sei como são essas coisas na sua terra natal, mas aqui costumamos ser diretas nesse particular. Não é que apenas me sinta atraída por homens mais velhos, como você reparou bem, mas tenho também outras fantasias menos... digamos, corriqueiras.
― Ora, ora, este país ensolarado e quente não cessa de me surpreender. Seria muito pedir que fosse ainda mais explícita quanto a essas preferências menos... corriqueiras?
― Não me obrigue a ser vulgar, os homens que deduzem me excitam mais. Vou lhe apresentar uma grande amiga minha, Jaqueline, se gostar dela, poderíamos passar um fim de semana numa casa de campo. Só nós três.
― Parece uma idéia encantadora, um presente do destino nesta minha vida de cigano. Por que não?
O plano seguia de vento em popa: as apresentações transcorreram num clima de descontração no apartamento de Lucí, o gringo estava que não se agüentava em si. Parecia uma criança ganhando presente de Natal em julho. Nem desconfiou quando Jaque lhe foi apresentada, afinal, em vinte anos ela não deixara apenas de ser uma menina para se tornar uma das mais respeitadas engenheiras de segurança da Espanha: ela também havia mudado de nome. Tinha sido a única maneira de continuar estudando, seu nome chegou a sair nos jornais da época.
Era uma justiça histórica, vendeta a ser saboreada na frieza dos pratos longamente aguardados: a menina abusada pelo monstro com imunidade diplomática seria resgatada pela mulher bem sucedida e autoconfiante de hoje. E tudo isto pelas mãos da namorada do ex amante, Lucí, o encontro favorável, a buena dicha lhe sorrindo como o gato de Alice nas curvas irônicas da vida. Também ela havia sido molestada por um tio, e enxergava nesta louca aventura em que se metiam irrevogavelmente a sua revanche contra um abuso tolerado por sua própria família.
Marcaram o fim de semana seguinte numa casa de campo em Villamartin, a 20 km de Sevilha. Lucí trabalhava com imóveis de luxo e conseguiria as chaves de uma propriedade vazia fora das câmeras de vigilância. O plano era ousado: seqüestrariam o canalha, drogavam a bebida dele e o matavam com uma overdose de heroína. O corpo elas jogariam numa represa do Parque Natural de Alcornocales amarrado a coletes de chumbo. Tomaram a precaução de desligar o GPS do carro e dos celulares. Na noite anterior à viagem Jaque teve um sonho.
Estava numa tourada noturna, mas a noite era incrivelmente clara iluminada por uma brilhante estrela vermelha bem próxima da lua. O animal dispara, um meteoro de meia tonelada de carne emergindo do touril, ele rodeia toda a arena como uma ratazana encurralada, bufa, raspa os cascos no chão. Então arremete na direção de um cavaleiro enterrando seus chifres até o crânio no flanco da égua, que galopa absurdamente picadeiro afora, escoiceando, deixando escorrer por entre as pernas uma massa de entranhas de cores abjetas, branco, rosa e cinza-carmim. A bexiga rebentada do animal agonizante lançava uma poça de urina sobre a areia ― tamanha era a tensão nos músculos das pernas e do baixo ventre, ela gozou.



domingo, 6 de março de 2016

Red Star (4)



Ressabiado, Paco deixou as duas sozinhas já que a ironia de Jaqueline tinha fundo e forma de verdade: o álibi dele em casa estava mesmo expirando. Evitou se despedir de Lucía com um beijo dadas as circunstâncias. Tão logo ouviu o elevador sair do andar, esta última quebrou o silêncio e o gelo tentando abreviar qualquer conversa mais constrangedora entre conhecidas que se desconhecem.
― Segundo o Paco me disse, você é uma mulher inteligente e pouco afeita a expansões sentimentais. Por isso não acredite que vá me contar algo sobre vocês que ele já não...
― Sossegue, meu assunto não é esse ― Jaqueline interrompeu a dona da casa com um gesto e se recompôs no sofá. ― O que realmente me interessa é saber sobre o Americano.
― Agora sim, você está me falando uma novidade, que história é essa de americano?
― Olha Lucía, sou muito grata por ter me acolhido em sua casa e tudo mais, realmente não vim aqui pra te encontrar, não era do meu interesse conhecê-la pessoalmente, apenas queria flagrar o nosso, digamos, amigo em comum e pôr fim a um caso amoroso que já só respirava mesmo por aparelhos. Não tive uma hipoglicemia, nem uma enorme comoção ao constatar que o namorado me traía, o que aconteceu foi que na portaria hoje de manhã, Paco, coincidentemente, saiu junto do seu prédio com um homem do meu passado.
― O tal americano?... ― Lucía começava a se interessar verdadeiramente por aquela história.
― Exato. Sou muito boa pra lembrar de rostos, Paco deve ter lhe contado que inclusive estou desenvolvendo um software de segurança especializado nisso. Mas mesmo que não fosse, não tenho nenhuma dúvida sobre a identidade do homem que vi hoje cedo, nunca vou esquecê-lo enquanto estiver viva.
― Caramba, Jaque, desculpe chamá-la assim, é a maneira como o Paco sempre se referiu a você. Não sei se era essa a intenção, mas você está me deixando assustada.
― Pois é, acho que não existe uma maneira sutil de te contar esta história: esse homem me abusou sexualmente quando eu era criança. Sou filha de pai militar, como conseqüência disso, nossa família viveu uma vida errante ao sabor da carreira dele, minha mãe era professora primária, de modo que eu passei a infância sendo mudada de cidade e de casa, mas sempre estudando onde ela dava aulas. Vinte e cinco anos atrás, vivíamos na vila militar de La Línea de la Concepción, que como você sabe é vizinha ao território britânico de Gibraltar, onde há uma base da OTAN. Naquela época estourou a primeira Guerra do Golfo, quando Bush pai começou as incursões americanas no Iraque. A região ficou cheia de tropas e a tensão era quase palpável no ar; esse sujeito, vamos dar-lhe nome: Thomas Kemper Boyd, era um agente secreto da CIA, que por algum motivo ia e vinha da base da OTAN para a base militar espanhola em algum tipo de missão escusa, suponho. Meu pai travou intenso contato com o canalha porque fazia parte do alto comando de logística do exército espanhol, algo de que os americanos dependiam criticamente naquele momento. E foi assim, Lucía, que Mr. Boyd teve acesso a mim.
— Lucí, prefiro que me chame de Lucí, já que você me deixou tratá-la por Jaque. Se acalme um pouco, imagino o quanto é difícil... você aceita um chá?
— Obrigada, estou bem agora. Mas quando o vi saindo do seu prédio, de verdade eu fraquejei. Fiz anos de terapia pra superar o trauma, segui em frente, mas é diferente dar de cara com a pessoa que marcou sua vida com ferro em brasa.
— Jaque, você... conseguiu falar disso com os seus pais na época?
— Sim, chegaram a abrir um inquérito, posteriormente arquivado por falta de provas. É, assim eram as coisas naquela época. Depois meu pai foi transferido pra abafar o caso e a coisa virou apenas um drama familiar que tivemos de remoer em silêncio.
— Inacreditável! Aposto que os ianques molharam a mão de uma meia dúzia dos nossos valorosos generais, e vida que segue.
— Meus pais nunca foram mais os mesmos, se aposentaram cedo, hoje vivem reclusos na província e se recusam até mesmo a votar no conselho da comuna. Quis entrar pro serviço secreto espanhol, mas então ainda não aceitavam mulheres, trabalhar com vigilância foi a maneira que encontrei de ir atrás desse monstro. Na verdade, consegui saber muito pouco dele nesses anos todos, como pode imaginar essas pessoas são bastante protegidas pelos governos aliados.
— Como ele é fisicamente?
— Alto, corpulento, cabelo curto, loiro pra grisalho, por volta dos cinqüenta... levemente estrábico. Lucí, sinceramente, não sei se deveria envolver você nisso.
— Filho de uma reputíssima mãe! O senhor Radic, Jesus, será possível? Bate com a descrição de um morador do terceiro, Slobodan Radic, um homem simpático, fala um bom espanhol com forte sotaque, se apresenta como sérvio representante comercial de empresas de tecnologia. Jaque, e se ele for mesmo o tal Mr. Boyd, o que você quer dele?
— Vingança.



quarta-feira, 2 de março de 2016

Red Star (3)


O táxi parou do outro lado da avenida, Jaqueline desceu e foi sentar-se encostada no Seat amarelo do seu futuro ex amante, o plano era linear: esperaria ele sair do prédio, constatava o flagrante delicto e extirpava Paco da sua vida. Precisava ser assim, a mera apresentação das imagens renderia da parte dele negativas e invencionices que ela não estava disposta a suportar. Quando se tratava de finalizar romances, preferia a técnica do esparadrapo: arrancar com firmeza e de uma vez só. Parcelar a fatura ou procrastinar só aumenta a dor nessas horas.
Passaram-se quarenta minutos, uma eternidade quando se espera sem absolutamente nada pra fazer. Então, quase como um anticlímax, lá vem o Paco saindo do prédio em frente junto com outro morador, cara de satisfeito, cabelos um pouco despenteados. Tudo que ela preparara desaba em instantes, suas pernas fraquejam, o corpo congela subitamente, o coração acelera os batimentos como se fosse explodir no peito, aperta a vista pra poder ver mais claro, reconhecer melhor, mas não consegue manter a consciência por mais tempo. Desmaia.

Acorda deitada num sofá desconhecido de uma sala desconhecida, mas não se levanta. Paco conversa com alguém fora do alcance do seu campo visual, falam sobre ela.
― Então ela estava ali desmaiada do lado do seu carro, assim, como se nada?
― Lucía, acredita em mim, estou tão por fora como você...
― Bom, de qualquer maneira isso ia vir à tona uma hora ou outra.
Relanceou os olhos semiabertos à sua volta, na mesa em frente ao sofá havia um copo, uma garrafa de água e um saleiro. A sua bolsa jazia numa poltrona em veludo verde escuro que completava o jogo de mobiliário da sala decorada em vago estilo art déco. Elevou-se apoiada nos cotovelos pra poder entrar na conversa.
― Quem era ele? ― Jaqueline fitou os dois piscando na contraluz da janela.
― Ele quem? Sou eu, Paco. Jaque, você lembra de alguma coisa antes de apagar?
― É, lembro sim, lembro que você não podia me encontrar depois do trabalho porque precisava ir mais cedo pra casa ― Jaque conseguiu se sentar no sofá e agora conversava melhor com a dupla.
― Hãm, Jaque, esta é a Lucía...
― Olá, Jaqueline, você está na minha casa, o Paco te trouxe da rua. Parece que você estava desmaiada ao lado do carro dele ― Lucía sentou-se na poltrona livre da sala.
― É verdade Lucía, eu estava esperando por ele. Não era minha intenção entrar na sua casa.
― Tudo bem, Jaqueline, você deve ter passado mal com esse calor. Pode ficar aqui até se recuperar, foi só um desmaio.
― Muito obrigada, gentil da sua parte. Mas veja só: nosso amigo Paco está ansioso, imagino que ele precisa voltar correndo pra casa. Já mentiu que fez um plantão duplo ontem, não vai poder ficar muito, né?
― Olha Jaque, nós não precisamos discutir isso agora... ― Paco sentou-se mantendo a bolsa dela sobre o seu colo.
― Não precisamos discutir coisa alguma, até porque não há nada a ser discutido: está cristalinamente claro que você e a Lucía estão juntos, então eu tiro meu time de campo e ponto final. Triângulo eu até agüento, quadrilátero é além das minhas possibilidades.
― Você não precisa ser irônica assim, Jaque ― volta-se pra Lucía ― Meu bem, preciso mesmo ir andando...
― Ok, pode ir, deixa que eu cuido da Jaqueline. Ela já melhorou.
― Sim, Paco, vai pra casa bater cartão. Eu tenho um assunto sério de verdade pra falar com a Lucía, e não é sobre você, garanhão andaluz.



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Red Star (2)



O advento do terrorismo islâmico e a última (mas não derradeira) grande crise econômica mundial sacudiram de vez a bolha de tranqüilidade do mundo ocidental: batalhões de experts, coortes de políticos conservadores e xenófobos de todos os calibres emergiram das sombras para vociferar panfletos apocalípticos e anunciar sem rodeios que as duramente conquistadas liberdades e direitos civis precisam ser limitados de forma a lidar com as novas ameaças à segurança coletiva. Um aplicativo capaz de identificar potenciais conspiradores ou indivíduos procurados pelas autoridades de repente virou o Santo Graal da vigilância filmada.
Neste quadro de paranóia globalizada o projeto de Jaqueline ganhou importância, sendo alçado ao nível top de prioridade. Ninguém ousa questionar os seus métodos. Não é que se engane, está plenamente consciente de que o seu trabalho passou a ser artificialmente valorizado e por isso mesmo acredita que não terá oportunidade melhor para implementar seus objetivos profissionais. Bem como as taras pessoais. Por exemplo, neste momento ela traça a rota de Paco a fim de verificar se ele realmente vai direto do serviço pra casa como disse na mensagem lacônica enviada há pouco. Algo fez o seu alarme interno soar.
É um homem de hábitos, eles sempre tomam um café quando ele sai e ela entra no plantão da companhia de bisbilhotice pública. Brincadeira de criança pra Jaque: digita seu log in de acesso e faz uma busca nos registros dos semáforos inteligentes da cidade com o número da placa do carro que conhece tão bem. Batata. Os dados indicam que o veículo do amante não tomou nenhuma das autopistas possíveis com destino a Los Jinetes (A-4 ou SE-40), ao contrário, surge a localização atual na Calle Placentines. Consegue a imagem da rua em tempo real na tela, a tempo de ver o Seat Ibiza parar em frente ao número 21. Azahar Bar & Copas.
― Filho da puta, bem aqui ao lado! Aposto que é outra mulher, pro canalha não é suficiente ter duas.
Ainda assim quer ter plena certeza das suas suspeitas, resolve testar seu software nas câmeras da Placentines: digitaliza uma foto de Paco e deixa a filmagem rodando. Tão logo ele saia do bar o sistema vai disparar o alarme anunciando a identificação do suspeito, e então ela vai descobrir se a suposta acompanhante é ou não a esposa do calhorda. Sente uma pontada dolorosa no coração, o Azahar é um pequeno bar turístico, fora do roteiro dos amigos e conhecidos dele. Levou-a lá quando se descobriram apaixonados, justamente pela discrição e aconchego do local.
Acostumou-se a ser a outra, a ponta oculta do triângulo amoroso, mas ser corna de uma terceira mulher era demais pra ela. Namorar um homem casado não lhe parecia ser mais do que um incômodo conveniente, o tipo de relacionamento sem muita cobrança nem o controle habitual do macho latino. Tipo da situação confortável para ambas as partes. Mas acontece que o boçal vivia protestando seu grande amor por ela, ameaçando separar-se a cada conversa pós-coito entre lençóis, vinho e cigarros. Imbecil, cochambroso.
Pra se distrair enquanto espera, realiza suas tarefas rotineiras verificando os controles e os avisos habituais das máquinas. Àquela hora não há mais ninguém acordado no décimo sétimo andar, até o guarda noturno deixou a ronda pra tirar um cochilo. Sozinha como sempre, como tanto gosta. Há uma placidez quieta na cidadela de computadores, telas e consoles de última geração à sua volta, uma ilha de tranqüilidade alheia ao bulício dos que aproveitam a noite quente do sábado. Somente os solitários sabem apreciar a beleza que o silêncio encapsula.
― Ahá, soam as trombetas! Vamos ver o que nos reserva a noite... hmm, aproximar foco, aqui está: ele saindo do bar e... acompanhado! Vamos ver quem é ela, não é a esposa... uma loira aguada. Grande bufão, corno de merda!
Novamente ela aciona os radares detectores de velocidade para lhe informarem o trajeto do carro. É como um vôo de pirilampo: acende e apaga, acende e apaga, mas o rastro de luz vai indicando o caminho. Por sorte há registro de imagem na rua onde param, anota o endereço. O casal sobe um pequeno lance de escadas, abraçados, desaparecendo no edifício residencial. Uma luz se acende no quinto andar, depois se apaga novamente.


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Red Star (1)



            O sol de Sevilha é o olho excessivo de Deus sufocando toda a terra da Andaluzia nas suas cores escaldantes e derramadas. Jaqueline desceu na estação de metrô Puerta de Jerez e vai a pé para o edifício Red Star, ela trabalha no décimo sétimo andar de onde se avistam as torres do Real Alcázar, as curvas do Guadalquivir e as magníficas agulhas góticas da Catedral de Sevilha. Aproveita o resto de luminosidade do longo dia de verão para caminhar antes de pegar o turno da noite.
            Enquanto se desloca sem pressa pela calle San Fernando hesita entre um capuccino no Starbucks e um sorvete na Häagen-Dazs, as ruas cheias de turistas convidam a aproveitar os últimos dias de férias. Decide ir direto pro trabalho sem escalas depois de receber uma mensagem de Paco, mais uma vez ele precisava voltar mais cedo pra casa. Ela não gosta dessa coisa de ficar sozinha nos cafés, embora prefira trabalhar na sua estação sem muita gente por perto.
            Paco talvez gostasse de dar um passo a mais na relação deles, mas Jaqueline cortou logo esse papo. Sexo e amizade, ponto. Trabalham juntos, já está bem bom no quesito intimidade. Além do mais, ele é casado e qualquer alteração desse status quo seria uma dor de cabeça quilométrica: separação, chororô, explicações aos amigos, conversa “adulta” com a ex magoada, enfim, um festival de invasão alheia na sua vida. Tudo que ela lutou pra manter longe de si.
            Tudo acontece sob o céu tórrido da Espanha, de modo algum colorido e duro como se pinta, mas ensolarado e de uma claridade ofuscante ― mole e turva ―, por vezes irreal, pois o brilho da luz e a intensidade do calor evocam a liberdade dos sentidos, mais exatamente a umidade mole da carne. Paco é andaluz até à medula, capaz de passar a eternidade numa tasca barulhenta cheia de amigos, papeando em torno de gordas azeitonas besuntadas em óleo de oliva, lulas em rodelas, fritadas de ovos, fatias de presunto e copos de Jerez até as horas da noite não agüentarem tanta conversa.
            ― Olá Jaque, chegando mais cedo pra se enfurnar na caverna?
― Salve Juanfran. A noite está do jeito que você gosta, cheia de turistas pra azarar. Vai lá soltar seu irresistível charme ibérico pras americanas sedentas de cor local.
― Bom, pelo menos temos isso: o turismo das gringas taradas. Esta cidade não acontece nada nunca, se não fosse pelas corridas de touros e os batedores de carteiras, morríamos todos de tédio.
― Eu acho melhor assim, aliás, nós estamos aqui pra isso.
Especialista em segurança de dados, Jaque se instala na “caverna”, como os colegas apelidaram a sala de controle das câmeras de vigilância pública da cidade de Sevilha. Atualmente trabalha na implementação do programa de reconhecimento de rostos ligado ao G.E.O., grupo de operações especiais da polícia espanhola, em cooperação com a Interpol. O objetivo é tornar a cidade completamente segura e servir de modelo pra comunidade européia: taxa de resolução de crimes acima de 90 %. Cercada de telas, ela é feliz em seu bunker.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

os culpáveis (final)



A vida é um seriado que você vicia antes de saber exatamente qual porra de história se trata, aquele tipo de filme que existem milhares de livros escritos só pra tentar explicar, vou passar a porra da vida aprendendo a ler o tal livro da vida sem ajuda de tutorial no Youtube, enquanto isso, vou fazendo todas as cagadas possíveis nesta encadernação, aliás, tremo só em pensar o que pode ser a minha próxima encarnação com o karma acumulado na atual e contando, vamos ampliar a bigger picture (organizador de fatos nº ∞): as semanas vão passando lentas como conversa de novela, continuamos a dormir na sala, eu no sofá quebrado, o Tomate no chão rachado com meio corpo dentro da cozinha, Faraco e Moura se aboletaram no quarto e grudaram na aba do meu chapéu feito duas cracas, esses dois, sei não, passam o dia inteiro no quarto, dormem na mesma cama, se barbeiam juntos de toalha e peito nu... enfim, depois daquela conversa escalafobética sobre o Capitão Nascimento acredito em tudo vindo desses comédias ― acho que alguém vai ter que desenhar pra mim.
Mas o pior eram as saudades: Brenda, dadivosa Iansã, saiu da minha vida trovejando e sumiu no turbilhão da galeria metamorfoseada num daqueles pitéus de condução, brejeiras gostosinhas que nunca vão ser suas, mas são o verdadeiro sal do transporte público, ó Brenda das minhas bronhas, onde está você?, que rebolava gostoso e manjava dos paranauê, onde andarás nesta paulicéia tão desvairada e cheia de tentações pras morenas safadas de coxas grossas?, confesso que já nem me preocupava com o destino do pobre Uzodima ― os seqüestradores não fizeram um único contato ―, só queria a mina de volta, por outro lado, fui criando uma jeriza danada em relação ao Tomate, sei lá, uma tiriça, tipo inhaca de estar ali socado com 3 marmanjos numa quiti, a ex mulher mandando um oficial de justiça atrás do outro, se pá devo sofrer de claustrofobia misantrópica, e como a mente é uma montoeira de contradições, ficava vindo direto Chucho Valdés na rádio-cabeça: “Se me hizo fácil/ borrar de mi memória/ a esa mujer a quien/ yo amaba tanto/ Se me hizo fácil/ borrar de mi este llanto/ ahora la olvido cada dia más y más...”
― Não sei não, o Dingo parece meio tristinho. O zoológico de Los Angeles ainda não mandou a Cindy pra fazer companhia pra ele.
― Verdade, Ava?, acho que vou mandar uma carta pra esse zoo, se eles forem mesmo bons nisso quem sabe não descolam uma pra mim?
― Prefiro quando você tá namorando, quando tá sozinho, daí você fica triste e perde o trabalho, daí não consegue comprar salgadinho pra nós.
― Hmm, minhas finanças têm andado meio... trash, mas as perspectivas melhoraram, me encomendaram um job num resort 6 estrelas em Koh Phi Phi.
― Onde fica isso?
― Tanto faz, não vou pra lá mesmo, já fico bem feliz de evitar o descanso sabático que a sua mãe quer me dar.
― Pai, você é um homem descansático?
A abrupta queda na taxa sangüínea de todas as drogas que circulavam no meu corpo me deixou mais sonolento, bodeava a qualquer hora no sofá desabado encostando as vértebras diretamente nas ripas do arcabouço, e sonhava, horas a fio, como se não houvesse amanhã, invariavelmente lá estava eu correndo atrás da bela Brenda, mantida cativa numa masmorra pelos terríveis irmãos Trufadalho, que eram a cara de Faraco e Moura, enquanto as artimanhas do perverso Mascarin (a fuça do desgraçado do Tomate) me mantinham longe dos braços e abraços da mulher amada, toda essa atividade onírica, porém, me cansava de morte e, obviamente, não contribuía para melhorar a relação estremecida com o Tomate.
E então, um belo dia, chego na goma e os dois tiras estão arrumando suas coisas.
― Estamos indo, obrigado por tudo.
― Mas, e a investigação, o Uzodima?, bem, de nada, foi um prazer vocês detonarem a minha vida.
― Queria dizer pra você que foi muito importante pra nós, concluímos que não tem mais sentido a gente não morar juntos. O americano deu sinal de vida pra embaixada. Tchau.
Tempos depois o Uzo apareceu em casa, uns 60 Kg mais magro, falando que tinha sido iniciado na umbanda e batizado no movimento, agora ele pagava “cebola” e vivia na sintonia trabalhando pra firma como ‘resumo” da zona sul, pra abreviar uma história longa, no cativeiro ele descobriu o verdadeiro sentido da existência aderindo ao movimento social radical que sempre buscara: o Primeiro Comando da Capital, fiquei tão zonzo com aquele jorro de notícias e realidade mundo-cão que desabei na poltrona, fiquei uns bons minutos ali estatelado após a saída do ex-gordo e ex-amigo americano, até que a minha mão esquerda apalpou um tecido fino no desvão das almofadas do sofá: a calcinha da Brenda!
E então, toda a cena se iluminou por um relâmpago cruzando a minha mente obscurecida, estava tudo ali bem debaixo do meu nariz sedento da brite: a calcinha que faltava, o local do crime e... o filho da puta que estava lá, naquela mesma sala, enquanto eu era interrogado madrugada adentro!, fiz um escândalo de puta pobre e escorracei o Tomate do meu apê, sovando-o com a ira de Thundera escada abaixo e cuspindo-lhe na cara toda a ingratidão.
― Volta pra rua, seu filha da puta, volta pro teu lugar: o nada!, seu mudo de merda, oferenda de esgoto.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

os culpáveis (7)


Descobri ― mais exausto que estarrecido, e menos indignado do que deveria ― uma escala global-local da cidadania: assim como eu era mais gente que o Tomate, e por isso apanhei civilmente pouco na DP, a vida do Uzodima era incomparavelmente mais valiosa que a minha, e por isso ganhei duas tornozeleiras humanas na minha aba durante um longo mês, a versão gaiata de Starsky e Hutch passou a gerenciar cada aspecto do meu caótico cotidiano: da marca de café que abastecia seu insaciável apetite por estimulantes, ao papel higiênico folha dupla completamente fora do orçamento doméstico, saídas vigiadas, celular grampeado e confiscado, computador hackeado, encher a lata?, arrastar a vizinha do terceiro prum tetê-à-tête?, dar uns tecos na nine?, nem sonhar, tio, Faraco e Moura impuseram disciplina espartana e abstinência forçada a tudo aquilo que antes eu chamava vida pessoal.
A coisa começou errada de cara, logo ao chegar rolou um bafão com a Brenda, aliás, depois daquela dê-erre nunca mais nos falamos, mas me adianto, ela estava usando aquela sainha deliciosamente micro, liberado antes de mim, o Tomate também estava lá no apê de olhos pregados no chão, mesmo assim dava pra ver o estrago feito na faccia do coitado, um molambo cambaio de gente, a Brenda, ao contrário, veio pra cima fervendo na veia: sangue no zóio e faca no dente, ignorou a presença dos tiras e soltou a cachorrada em mim, sublinhando o rap de xingos com tapas e arranhões distribuídos sem dó.
― Custava atender a porra do telefone, custava?, seu merda! Uma mensagem, uma explicaçãozinha que seja... daí, lá pelas tantas, chega esse cretino todo fudido que não explica piçiroca nenhuma. Seu calhorda, cagalhão!
― Amorzinho, posso explicar tudo mais tarde? Sabe o que é?, tive uma noite do cão...
― Ah, sim, claro que você vai ter uma explicação, sete um é contigo mesmo, mas quer saber?, cansei do teu xaveco, papudo. Você quer é o Nelson Rodrigues todo: eu correndo nas delegacias e hospitais atrás do idiota que me faz de idiota, comigo não, cachorrão, tô por aqui dessa sua vida farra-pinga-e-foguete!
― Meu bem, vamo lá no corredor?, pelo menos lá, ao contrário destes cavalheiros, os vizinhos já conhecem os detalhes tão pequenos de nós dois ― na verdade, apesar do cansaço e dos safanões da Brenda, tava seco pra dar um cata naquelas coxonas. Sem dar bola pro bafafá, Faraco e Moura se instalaram no meu quarto sem a menor menção de pedir licença.
― E esses daí são o quê?, seguranças do Love Story que você levou o gringo? Vai tomar no cu, filho da puta presepeiro!
Fomos pra fora do apê, àquela altura minha pitchula choramingava lamurienta deliciosamente fazendo biquinho com a boca rosada e limitando as agressões a poucas (mas doloridas) muquetas eventuais, um assunto foi levando ao outro, e, antes que ela conseguisse perceber a falta de transição dramática, estávamos dando um amasso federal junto à banca do vendedor de balas e doces do andar, quando fiz nova e estonteante descoberta: minha musa estava sem calcinhas!, fato que em condições normais até faria parte dos nossos joguinhos sacanas, naquele momento me jogou num abismo de sofrimentos chifronésios otelianos, tamanha saliência não ornava com o manto da indignação que recobria a minha amada.
― Mas que porra é essa?, tem alguma coisa que cê precisa me contar, Brendinha?
― Não muda de assunto. Só... esqueci, foi tudo. Quem deve explicações aqui não sou eu.


domingo, 29 de novembro de 2015

os culpáveis (6)



Onde estaria o Uzo numa hora dessas? preso no quartinho de algum barraco infame, ou amarrado e amordaçado no bunker do trafica local enquanto uma assembléia de meliantes decidia sobre a sua continuidade neste plano físico e espiritual?, imaginava o pobre sentenciado, levado por entre névoas turvas para um descampado: rinoceronte abatido sendo arrastado pelo chão, um vulto prestes a se tornar anônimo, a bata comprada num brechó afro do Greenwich Village rasgada e ensangüentada, a mais nova vítima da guerrilha urbana, morto por engano, caído no matagal, descarnado por urubus indiferentes ao manjar de carne cevada por comidinha glúten, sódio, açúcar, lactose e picanha free, como ele mantinha aquele corpitcho pra lá de bem fornido banindo todo o rango trasheira eu nunca chegaria a saber.
― Você trouxe o gringo pruma armadilha? Suas pupilas estão dilatadas, usaram drogas? Manteve relações sexuais com o seqüestrado? ― Moura, o federal das unhas manicuradas, repetia basicamente o roteiro do interrogatório factual dos outros policias, com a notável exceção de, aqui e ali, inserir esse tipo de perguntas capciosas entre um gole e outro de Red Bull.
― Falando nisso, doutor, posso dar uma ligada pra Brenda? Ela deve estar...
― Nem pensa, essa porra precisa ficar livre caso os caras liguem pra pedir resgate. Sinceramente, seqüestro é a melhor hipótese pro seu amigo... e pra você também. O seu outro comparsa imbecil foi liberado, não cantou nada, tudo que temos é: um americano sumido, a embaixada apertando nossas bolas, e a conversa mole de um jornalista chapado ― Faraco, o do Rolex, transitava do morde pro assopra com uma facilidade alucinante, sobrepondo na mesma e indivisa pessoa as máscaras do good e do bad cop, mas o pior estava reservado pro grand finale da noite em claro.
― Seis da matina, por hoje é só. Vamos ― levantaram juntos.
― Ei, vocês vão me deixar aqui?
― Não, você vem conosco, o governo do seu país vai te dar uma carona e dois carrapatos. O delegado não tem nenhum motivo pra te prender, e nós nenhum pra ye soltar. Enquanto essa trolha não sair da nossa bunda você é nosso.
Menos mal que eles iam me levar pra casa, menos bem que iam ficar lá hospedados até a fita se desenrolar, se por um lado perdera o financiamento internacional, do outro ganhava dois guarda-costas particulares e o rolê na barca chapa fria da PF, se tivesse que pegar o buso naquele fim de mundo ia ser foda, mas a foda maior seria explicar pra namorada que o meu apê aumentaria a taxa de ocupação, organizador de fatos n².k.π.fatorial: Brenda é a gatinha de saias curtas e coxas grossas que tem matado a minha sede carnal quase tanto quanto saturado meu volume sacal, o velho lance da posse condicionada, comigo as mulheres invariavelmente recaem na pira do “vou mudar esse cara”, constatada a impossibilidade, dão no pé e passam a me odiar com gosto, tenho sólidas suspeitas de que na contabilidade da Brenda estou a poucas pisadas na bola de levar a bota final.
― Escuta aí, ô repórter, na tua área tem um monte de bicha, tem não? ― Moura, o do cabelinho à boys band, quebrou o gelo na viatura enquanto voltávamos.
― Acho que sim, quer dizer, não sei se tem mais ou menos, também eu não conheço outra profissão...
― E o capitão Nascimento, você acha que, talvez, ele poderia? ― Faraco parecia me introduzir a uma espécie de polêmica interna da dupla.
― Qual, o do filme? Bom, nunca pensei nisso... ele era casado, ou separado, acho, na verdade tem o lance lá com o filho.
            ― Isso não quer dizer nada, sempre se pode mudar, não?
― Que eu me lembre, na época, a grande dúvida é se ele era fascista.
― Ah, mas a imprensa esquerdinha caviar sempre pensa isso de nós ― havia uma indisfarçável mágoa na voz do Faraco.
― De todo modo é meio forçado, há poucas evidências disso, tanto no Tropa 1, como no 2 ― bizarramente, lá estava eu tentando ser a voz da razão na pendenga.
― Tem razão, e depois, nestes casos nunca existe prova definitiva: o camarada se vestir de mulher não faz dele gay, gostar, e até transar, com homem não quer dizer que seja...
― Bom, mas então o que seria um gay?
― É quando o sujeito sofre por causa de homem.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

os culpáveis (5)



O tenente Carmona tem idéias definidas:
― Pega um, mastigando você pensa melhor ― estendeu-me a embalagem de chicletes sabor canela.
Não gosto de chicletes, nem do sabor canela, mas aceitei porque era a primeira coisa que me ofereciam além de tabefes e socos nas costelas naquela delegacia.
― Desculpa tenente, não é querer lhes dizer como fazer seu trabalho, mas o senhor poderia dizer ao pessoal do plantão pra parar de bater no meu amigo Tomate? Não é má vontade dele, ele não fala mais desde que foi atropelado e perdeu um meio quilo de miolo...
Pelo rádio pendurado no peito do uniforme cinza do oficial chegou um sucinto QAP informando que o elemento conhecido como Chacal acabara de bater os chinelos de dedo, sem se alterar, respondeu burocraticamente e voltou a fixar um ponto bem no fundo dos meus olhos.
― Que leve meu salve pessoalmente ao Satanás. Parabéns pra rapaziada.
Tardei pra reagir com algum grau de adequação à nova situação: tiroteio num bar de perifa, seqüestro do negão da SUV, e dois suspeitos que não estavam “colaborando” nas investigações da entediada equipe de plantão da delegacia local, isso que dá ter cheirado em serviço, agora pra voltar ao modo normal de cidadão brasileiro lidando com o serviço público da pátria amada tava osso, minha sugestão de que uma reportagem sobre as difíceis condições de trabalho da polícia militar não despertava o menor entusiasmo no Carmona, ele parecia mais interessado em outro detalhe do caso.
― Gringo, você disse? Veja, meu amigo, se você me ajudar, eu te ajudo, tamo aqui trampando de madrugada por um salário de fome, esse caso complica cada vez mais, e não tem nem uma apreensão, um agradinho pros rapazes. Assim fica difícil.
― Claro, claro, entendo bem esse lado, senhor, trabalhar por salário de fome é comigo mesmo, é que... já disse tudo várias vezes, tentei fazer o gringo desistir, mas ele é loucão, queria porque queria conhecer os fluxos da quebrada, acha que a nossa malandragem é revolucionária, e coisa e tal, esses papo de ongueiro esquerdopata...
Naquele momento entrou um policial civil na saleta obtendo a inteira atenção do tenente, segundo as notícias, dois agentes da federais estavam a caminho e o caso subia de jurisdição, não seria nem chamada a divisão anti-seqüestros da capital, o PM se levantou subitamente me descartando da sua zona de preocupações imediatas, o consulado americano havia confirmado a minha história.
― Tu fica aqui mesmo, os caras tão vindo ― o tenente Carmona percebeu que eu fiz menção de me levantar ― Moraes, avisa seus homens pra diminuir com o outro suspeito lá, parece que é débil mental mesmo. Você vai sentir saudade de nós, meu amigo.
O chiclete tinha um gosto terroso que demorei a associar com o gosto de sangue oriundo dos tabefes dos tiras, era de se admirar a limpeza e eficiência das autoridades: os camaradas me bateram pra caraca sem deixar vestígios, estava com dor em tudo que é lado e sem uma marquinha ou machucado, serviço profissa, embora fosse de se esperar que não houvessem sido tão cuidadosos com o meu broder, imaginava o pobre Tomate transformado num molho bolonhesa, e já que a noite era uma criança, só me restou esperar feito corno pelos dois próximos personagens daquela comédia de humor negro, agentes Faraco e Moura.
O policial federal Moura tinha cabelo de cantor de boys band e unhas manicuradas, mas o que mesmerizava o meu olhar era o bem mais preocupante Rolex dourado no pulso do Faraco, ambos mascavam chicletes e bebiam quantidades industriais de energético, trataram os demais canas com o mais absoluto desprezo e providenciaram o pior café da minha vida, capaz de lançar um diabético em coma com meia golada, desde o primeiro momento deixaram evidente o quanto cagavam pros meus contatos na grande mídia, Moura estava com o meu celular na mão.
― Quem é Brenda?
― Minha... mina, quer dizer, estamos saindo, ela quer um lance mais, tipo compromisso, sabe como são as mulheres...
― Bom, acho que vai ter que problemas com ela. Mas isso vai ser mais tarde, por enquanto este celular, e o senhor, são os nossos únicos contatos com o senhor Uzodima Iweala.
― Qual é a relação entre você e o americano? ― Faraco fazia a pergunta a poucos milímetros do meu rosto, felizmente pra mim, usava o perfume Gió da Armani.
Contei toda a história pela milésima vez na noite, atropeladamente como é do meu estilo, desejoso de agregar sinceridade a cada frase, nessas horas eu sempre penso que a minha vida seria mais fácil se eu falasse como o José Miguel Wisnik escreve.