domingo, 1 de fevereiro de 2015

Perivaldo e Cecivânia (fim)


Massas negras haviam estacionado sobre os céus, empurradas pela ventania inicial, nuvens maciças como bigornas perfilavam belicosamente suas colossais torres de guerra ameaçando envolver a cidade na batalha final do Armaggedon. Enquanto desciam o downhill mais alucinante das suas vidas em slalon pelas ruas e vielas sentiram nitidamente aquele aperto no peito que paralisa todos os seres vivos no preciso instante em que a pressão atmosférica despenca anunciando a tempestade. Fez-se a noite com sol a pino, um clarão repentino devolveu a luz do dia ao dia, encolheram o corpo instintivamente abaixando a cabeça na espera do trovão que veio rugindo e ribombando junto com as primeiras bagas grossas de granizo e chuva. O temporal anunciado desde cedo desabou com força de catástrofe.
Mas os problemas dos dois jovens não paravam por aí. O Aristeu tinha dado a letra, os tiras farejaram negócio, e a fita foi passada ao trafica que ofereceu um agrado pros civis trazerem o pacote pra ele, porém, cabrero de pagar duas vezes pelo mesmo serviço, botou o Magaiver na cola do moleque. Pelo sim, pelo não.
A diferença é que este último não estava nem aí pra hora do Brasil, pilotava moto à vera e não perdeu a pista deles na perseguição, cheiradaço, vinha com tudo no cavalo doido cuspindo baba e feroz feito pit bull de rinha, pronto a saltar-lhes no pescoço na primeira marcada de touca que dessem. Já encaixada na agulha da automática trazia a bala com o nome do Peri, mas não se incomodaria de gastar prego com a mina se ela resolvesse engrossar o caldo. Magaiver não fazia serviço pela metade.
― Xi, moiou pro nosso lado Ceci, tem um profissão perigo na nossa captura!
― O quê?! Não tou ouvindo nada com essa chuva!
― Firmê, tamo quase na Facó, temos que ir pra pista da esquerda e seguir na contramão, longe do cara. Ói lá, se liga no berro da cintura dele, aquele ali da moto, tá na cola da gente faz uma cota.
O bandido sacou de cara a manobra que tentavam, na calçada do outro lado da larga avenida trafegariam a salvo dele protegidos atrás do mar de carros presos no congestionamento da via já alagada pelo dilúvio.
― Peri, ele tá vindo pra cima do canteiro central, vai conseguir atravessar logo mais!
― Tô vendo, mantém a cabeça baixa Ceci, esse maluco não tem medo de mandar bala no meio do melê!
― Cê não tava brincando mesmo: polícia e ladrão atrás de um moleque só, é ruim, heim?!
A avenida general Edgar Facó é uma das tantas a engolir a hidrografia original da cidade, no caso, o ribeirão Verde, cujo canal cimentado em alguns pontos desaparece sob pequenas praças que servem de cruzamento para vias transversais e também como alças de retorno. Num destes acessos Magaiver cruzou para a calçada da pista oposta e começou a disparar na direção deles, o barulho da chuva abafava os tiros mas viam distintamente os clarões da arma.
― Puta que pariu, tá atirando em nós, tá atirando!
― Minha nossa, ali em frente alagou de vez. Vamos a pé, Ceci!
― Sim, mas esse matusquela vai continuar a vir do mesmo jeito. Vixe, ali adiante é o rio, tá tudo alagado!
Peri estremeceu, ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira do rio que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas sujas, ia perder-se no fundo enegrecido da marginal Tietê. Catou um sofá arrastado na enxurrada e montou nele agarrado a Ceci, na superfície coalhada de entulho rolava um som cavernoso semelhante a uma cachoeira precipitando-se do alto de rochedos. Viram seu perseguidor ser engolido na torrente furiosa e desaparecer no mar de lama.
Atingiram a região do cruzamento das marginais, os viadutos do Cebolão pareciam estranhamente baixos devido à subida do rio; não era mais uma trovoada, ou um temporal, sabiam agora que estavam sendo carregados por uma tromba d’água furiosa e sem freios. Pouco acima do nível das águas elevava-se uma imponente palmeira imperial a cujas folhas se agarraram, aninhando-se em sua copa. Não havia mais como fugir, os céus bramiam sacudidos por estampidos brutais e o mar barrento precipitava-se em vagas que arrastavam carros, ônibus e pedaços de concreto como brinquedos de criança.
Séculos de barbaridades urbanísticas eram vingados pelo enorme Boitatá das profundezas que mordia a raiz dos prédios e avenidas, arremessando tudo no turbilhão, girando a cauda imensa, apertando nas mil voltas dos seus anéis, a cidade assustada e rendida às margens da caravana da destruição. Tudo era uma mesma água e céu escuro. A inundação tinha devorado as margens do rio até onde as trevas deixavam ver, árvores estalavam ao ser arrancadas pela raiz ou partidas pelo tronco. A palmeira não resistiu: sua copa saltou num golpe, Peri e Ceci viajavam à deriva na corola de um lótus gigantesco feito de folhas de palmeira.
― Quero te beijar!
― O quê?!
― Quero te beijar Peri, se for pra morrer que seja juntinho!
― Beijar sim, morrer nem fudendo! Meu, agora que achei você nada vai me tirar, nada.
O hálito de um aquecia o rosto do outro, eles sorriam, os lábios se abriram como asas purpúreas de um beija-flor em pleno vôo. A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia.
E sumiu no horizonte.


domingo, 25 de janeiro de 2015

Cele... brisou (epílogo)




Foram as suas últimas palavras. Sim, porque, depois, tudo que pude ouvir foi um urro inarticulado, seguido dos arrancos desesperados de alguém que estrebucha até parar de respirar. Não imaginava que um ser humano demorasse tanto pra morrer. Tive alguma dificuldade em arrastá-lo (na verdade foi mais trabalhoso que difícil) desde o box do banheiro até um capoeirão fechado ali perto onde o enterrei numa cova rasa. Que mais eu poderia fazer com um sujeito que tenta me estrangular, e ainda avisa que só um de nós sairá dali vivo?
É a tal coisa: empresário pica, publicitário, ou seja, o esperto entre os espertos, nunca imagina que vão lhe dar a volta. O cara se acha dono da própria vida só porque nasceu com ela. Arrogância pura. Me atacou, me ameaçou, e depois deu as costas. Queria que eu fizesse o quê? Pedisse mil desculpas por existir e me suicidasse num harakiri digno? Conheço a vida dele como ninguém, conheço este lugar também, enquanto ele se preparava para o banho, subi na caixa d’água e despejei um saco de sal. Caiu eletrocutado ao ligar o chuveiro elétrico. Ele propôs o jogo de vida ou morte, morreu.
Bem que tentei avisá-lo de que eu era a edição 2.0, o extrato purificado do genoma, um veneno ainda mais concentrado dele mesmo, mas veio numas de macho alfa batendo os punhos do peito... Quem não agüenta mandinga não carrega patuá. As pessoas só entendem no terror, muito pouco, e raramente, aprendem com o amor. Paciência, assim caminha a humanidade. Assumi integralmente a vida do falecido Mattia Pascal sem que as pessoas do círculo íntimo dessem um “a”, afinal, eu sou ele muito mais do que ele jamais foi.
Quase poderia dizer que foi uma transição suave, não fosse a questão do trabalho ― é que trabalhar cansa, consome tempo, enche o saco pra dedéu. O importante não é quanto você ganha, e sim o quanto você paga pelo que ganha. Até então tinha uma única razão de existir, na qualidade de avatar da CELEBRIZOU cuidava da funcionalidade do lazer, meu playground começava e terminava no camarote. Neste aspecto dei sorte duplamente, o meu hospedeiro faz parte do 1%: a grana trampa pra ele, manda sem pedir, e não tem que ralar o cu nas pedras feito otário; minhas características únicas, por outro lado, fazem de mim um cata-vento de tendências, sei o que é, e o que não é, quem vai ser e quem nunca será. Eu sou trendy.
Porém, todo paraíso tem suas sombras, e a rapadura pode ser doce, mas mole é que não é. Sempre há uma pedra no meio do caminho. E a pedra do meu caminho veio a ser justamente a minha estonteante namorada.
― Meu bem, você não acha que a nossa relação tem andado um tanto... morna demais, sem sal nem pimenta demais?
― Como assim, Lira, que papo é esse?
― É que, de uns tempos pra cá, a gente meio que virou irmãozinho, transamos cada vez menos, nos tocamos pouco, quase nunca ficamos só nós dois... Claro, no virtual não tem pra ninguém, uma maravilha, mas, convenhamos, é um pouco ridículo fazer sexo virtual com o namorado real!
― Quer dizer que se eu fosse seu peguete não teria problema? Ok, entendi. Você sabe o quanto o trabalho tem me estressado.
― Bobagem. Você é workaholic, e não é de hoje.
― Olha, estou pensando em ir mergulhar nas Maldivas, só eu e você, duas semaninhas gostosas. Que tal?
― Pois é disso que estou falando, é como se a gente precisasse sempre de uma superprodução, um cenário paradisíaco para as coisas rolarem, no dia a dia voltamos a cair na pasmaceira. Às vezes parece que você até tenta me amar, mas já não consegue.
― É só uma fase, Lira, vai passar.
― Seria cômico se não fosse comigo: tô com um cara fodástico, um homem bacana, inteligente e atencioso. Só que não.
― Bom, bom, toda essa onda por causa de umas trepadas a mais ou a menos?
― Não fala assim, você sabe que sexo é amor...
― ... e o amor é uma foda.
Não queria perdê-la. Sabia que ela tinha razão, em público nossa relação deslizava em mar de almirante enquanto naufragava inapelavelmente entre quatro paredes. Lira era a companheira ideal para o estilo que projetei: inteligente, carismática, bem sucedida, e, de bônus, ainda agregava um networking de peso às minhas relações. Decidi usar todos os meios para não perder aquele capital social envelopado numa mulher que causava torcicolos em qualquer ambiente onde estivesse.
Mirei no ponto fraco: fiquei com a melhor amiga dela, a Lulu. Amigas da vida inteira, Lira e Lulu, Lulu e Lira não se desgrudaram mais desde a infância. São a grande paixão uma da outra, mas não têm a manha de assumir para si próprias e muito menos para os outros. No fundo acho até que lhes faço um favor: já que não ficam juntas no amor, melhor será que se separem na mágoa porque tesão recolhido só atrasa o lado. Meu cálculo é que, passada a raiva, a Lira volta pra mim, é mais difícil perdoar a quem se ama muito.
Grande parte do eu está no outro. O que os outros irão pensar de nós, o que o outro em nós dirá disto ou daquilo ― sacrificamos nosso melhor no altar das convenções e protocolos só porque não queremos perder o amor do próximo. Ocorre que alguns preferem jogar a ser jogados nesta brincadeira. Para quem tem olhos de ver, as pessoas aparecem como são: cheias de buracos e contradições. Costumo apostar pesado nessas lacunas das pessoas que me cercam, ganho quase todas. Por medo do lobo, a ovelha se entrega ao pastor.
Não sou ovelha, para mim as coisas são mais simples e estranhas do que parecem.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Perivaldo e Cecivânia #9




Então entendeu de um clarão só aquelas histórias dela ― invariavelmente mal costuradas, cheias de papo mole ―, mencionando uma “vida de sobressaltos”, a obrigação de andar sempre na função, “esperta no movimento” dentro da própria casa. Essa parte não conjuminava, para os seus padrões, Ceci tinha o maior mole do mundo, burguesinha da Freguesia que usa tênis de marca e recusa contrafilé. Mas estava ali, na frente do seu nariz, filtrada pelo cinemascope dos vãos da esquadria a metamorfose se completava no interior opressivo e penumbroso.
O Ari boa praça e amigo de todo o bairro desaparecia gradualmente sob a pelagem do lobisomem doméstico, assistia pregado ao chão o Aristeu predador familiar deslizar sobre a menina: um polvo cheio de braços gosmentos e dedos e vem-cá-minha-princesa. Como desgraça nunca vem só, nesse momento ouviu barulho vindo do portão ― dona Vânia avisou que ia almoçar fora naquele dia, coisa boa não devia ser. Sentiu no ar o cheiro da mexerica azedando. Correu pra entrada, forçou, empurrou, chutou. Trancada.
― Abre essa porta! Que merda, abre essa porta!
Lá dentro escutava o barulho de móveis derrubados, louça estilhaçando, gritos, palavrões, finalmente a porta escancarou de golpe e a garota saiu correndo pros seus braços. Era a imagem da superação do medo, toda arranhada, descomposta, valente, atrás dela, cambaleando, o padrasto emergiu da soleira com os cabelos desgrenhados e os zoião estalado feito ovo frito. Não pensou nem meio segundo: meteu uma bicuda na folha da porta arremessando o bruto de volta pra sala aos berros.
― Ele te machucou, esse escroto te... ?
― Estou bem, quer dizer, agora eu tô. Valeu a força. Vamos sair fora, o filha da puta vai voltar virado no cão!
― Ceci, tem uns caras lá no portão, pela frente não rola. Quer saber?, esse mala do teu padrasto é o maior P2. Certeza que me cagüetou.
― Hmm, vem por aqui, dá pra pular o muro lá de trás.
Apoiados nas sacas de quirera que alimentavam as gaiolas do Aristeu, se alçaram para atravessar para o terreno vizinho. Peri não se enganou quanto a ele, entre as mil e uma inutilidades a que se dedicava, também havia a de informante da polícia: dois investigadores de campana saíram de uma barca fria e realmente acabavam de invadir a residência. Encarapitados no muro, viam os quintais das casas do quarteirão vazios àquela hora de calor infernal, ouviam atrás de si as passadas dos agentes no piso de cerâmica hidráulica da garagem.
― Ali, naquele ponto é mais fácil pular pro lado de lá. Além de que, conheço a família que mora aí. Tá suave.
― Certo, vai primeiro. Eu cubro pra você.
― Rapidinho mano, que é que tá pegando?, tá afim de levar pipoco de graça? Fica moscando não, Peri.
― Aí, na boa, se ligou no tamanho desse cachorrão da tua vizinha?
― Véio, larga mão de ser cagão e pula logo. Ela é querida, só tem tamanho, conheço a Nina desde filhote. Não é fofucha?
― É ruim, hem? Puta de um rottweiler!
― Que o quê, é um dogue. Olha só, tive uma idéia, vou pegar emprestada aquela bicicleta dali. Vamos sair na rua de baixo.
Na rua da Bica, viraram à esquerda queimando asfalto enquanto desciam, Ceci na magrela, e ele na remada dura do skate. A topografia elevada do bairro os favorecia porque pegavam um longo trecho em descida contra a força bruta do carro, mas a vantagem inicial já se desfizera, a polícia deu a volta o quarteirão e veio na captura de sirene ligada.
― Você não tá indo rápido demais nesse bagulho?
― Tá me zoando, Ceci? Me acha mina!
Peri deitou cabelo naquelas rampas de asfalto, deu um shove it só pra impressionar e acelerou sem dó na frente dela avisando que ia sair à esquerda na Souza Pinto, uma curva de noventa graus em alta velocidade que quebrou as pernas dos perseguidores. Quando atingiram a Paula Ferreira já tinham despistado os canas, parecia mamão com açúcar chegar na Edgar Facó, e dali seguir pela pista contrária da avenida até à marginal. Daí, já era.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Cele... brisou (4)




Àquela altura a coisa toda não admitia meias soluções, o problema estava posto, aliás, exposto: a minha vida inteiramente arreganhada, e o titular da conta sem controle algum sobre o processo. Acontece que eu não estava nem um pouco disposto a desistir da privacidade sem luta, o resgate era alto: precisaria abrir mão das redes sociais, das facilidades da moderna comunicação, voltar ao tempo (já vintage) em que as pessoas sobreviviam sem ter todos os seus passos roteados pela internet.
Difícil? Sim, mas não impossível. Já não se tratava mais de como viver junto, mas de como viver longe de mim. Decidi-me pela amputação da minha dimensão pública, ou, pelo menos, da parte pública do que deveria ser íntimo ― dar cabo daquele software com pretensões a subcelebridade ganhou o status de missão principal, doravante prioridade máxima, topo da lista, alerta vermelho. Para dar uns fumos ritualísticos e agregar solenidade à promessa autoimposta, formulei-a em voz alta.
― Não vou deixar esse sujeitinho, que na verdade é uma parte de mim, uma parte ínfima, um energúmeno sem noção nem critério, acabar comigo. Tudo que eu sou, tudo que eu tenho, custou pra conquistar, não será um ectoplasma de merda que vai melar a porra toda. Matar é errado, mas, como essa é uma direção inevitável da evolução tecnológica, prefiro que eu mesmo o faça. Não outra pessoa.
Há sempre um trajeto circular no discurso que dirigimos a nós mesmos, não nego que agisse em mim naquele momento uma boa dose de pensamento desejante, a vontade ingênua de que o desejo, uma vez traduzido na mágica das palavras, se torne irresistivelmente realidade. Por outro lado não ignorava as contradições em que caía, minha mente buscava às pressas justificativas morais ou uma lógica que as sustentasse: assim, argumentava contra o absurdo de matar para preservar com a metáfora da poda necessária, contornando o tabu do homicídio por meio da muito mais palatável noção de suicídio. Ortotanásia com um suave tempero de autoengano e eutanásia.
Peguei oito horas de estrada rumo à Serra da Canastra, o pretexto foi visitar propriedades dos meus pais que requeriam atenção há tempos. Lira ficou sem entender porque não a quis levar junto de jeito nenhum. Era a coisa óbvia a ser feita: atrair o cara para uma região de sombra do sombrio sinal da telefonia brazuca, e dar fim nele de uma vez por todas. Que o paparazzo ia aparecer por lá não tinha a menor dúvida. O velho sítio abandonado próximo ao Parque Nacional serviria como um excelente túmulo para a aberração modernosa do meu alter ego.
Nem bem terminei de descarregar meus pertences do jipe, e lá estava o debilóide no gramado em frente à casa tirando selfies com as montanhas ao redor usando um suporte de GoPro.
― A vista é excelente, mas duvido que você consiga rede pra postar as fotos.
― Ah, oi, não faz mal, posso fazer isso mais tarde.
― Escuta, já que estamos só nós dois aqui, vamos falar de homem pra homem: você não acha meio babaca ficar compartilhando tudo que vive, em vez de realmente viver o conteúdo dessas imagens?
― Pode até ser, mas, veja bem, você é um publicitário, acha que as empresas que te pagam regiamente pra cuidar da imagem delas são também... meio babacas?
― Deixa o meu trabalho fora desta conversa!
― Eu sempre deixo seu trabalho fora, a não ser quando você mesmo posta eventos corporativos. Meu foco é o lazer.
― Sei, você é uma espécie de meu eu de férias.
― Exato. Férias, um assunto que você tem descuidado bastante em função da sua tão absorvente quanto exitosa carreira. É como se, de repente, por causa dos inúmeros compromissos sociais/profissionais, você não tivesse mais tempo ou imaginação pra levar sua própria vida.
― E é por isso que preciso de você? Não me faça de otário, pliz.
― Alguém te obrigou a instalar o CELEBRIZOU? Claro que não, você comprou esse serviço que não tinha saco de fazer sozinho. No mundo em que eu e você vivemos ninguém impõe nada, mas tudo se vende.
― Momentinho, momentinho, vamos deixar uma coisa bem clara: “vivemos” é o cu da sua mãe, eu sou o cara real por aqui, entendeu?!
― Calma, não precisa se exaltar. Você cuida da parte, digamos, logística da vida, e eu toco o resto: apartamento single com um parque de diversões na área social, viagens estilosas, festas da moda, namoros com pouco afeto, etc. Dá pra resolver tudo se soubermos dividir as...
― Dividir o caralho, meu irmão, o caralho! Tudo isto é meu, me pertence, igual à minha vida, aquela que você hackeou, seu cavalo-de-tróia do inferno! Fui eu que contratei? Pois agora eu que descontrato, morou? Vá pra puta que pariu, achando que meu ouvido é penico!
― Ei, o que você... Pára, solta meu pescoço!
― Me dá só uma razão pra eu não acabar com você agora mesmo!
― Po... por favor, chega, uff! Me solta! Meu, cê tá muito louco, se segura cara. Não sou uma ameaça, sou só uma tradução “enhanced” de você, um protótipo otimizado, se me permite dizer, é você a versão beta. Ok, você tem um ponto aí, eu sou a criatura, não o criador, mas há de concordar que sou um daqueles casos de filho melhor que o pai, de obra que supera a vida. Onde você vai?
― Vou ligar o gerador, pretendo tomar um banho quente nesta birosca. A viagem foi longa e estou cansado. Fica aí pensando, ô versão ampliada, como é que a gente faz, o que eu sei é que deste lugar só vai voltar um de nós.



sábado, 3 de janeiro de 2015

Perivaldo e Cecivânia #8



Caiu da cama cedinho no dia seguinte, despertando de sonhos inquietantes. Viu-se num quarto pequeno, anexo a um sanitário e uma lavanderia, sozinho naquele lugar desconhecido, como tinha ido parar lá?, sentou na cama enquanto o branco total radiante se estendia no varal da sua mente. A cada dia era como se acordasse num país diferente. Sacudiu o entorpecimento de sono e cansaço acumulados nas últimas 24 horas, alongou os músculos, vestiu-se. Já mais localizado, aproveitou pra dar um rolê no jardim bem cuidado que levava à cozinha nos fundos da casa, ali, no meio do canteiro de trapoeraba e sálvia azul, avistou um banco de madeira que servia de suporte para uma renca de recipientes de água vazios.
No céu da manhã nuvens imensas se agrupavam como poderosos exércitos celestes sobre a cidade que acordava para a semana de trabalho. Chegou mais perto, os garrafões de plástico pet não estavam vazios. Todos tinham as tampas atarraxadas e exibiam em seu interior uma coleção de mariposas, bruxas, vagalumes e besouros. Estava com a mão no bocal de uma das armadilhas quando ouviu barulho atrás de si. Voltou-se rapidamente, deu com o Aristeu de risadinha, cara de quem está te observando há hora. Como não podia deixar de ser, o mané já chegou deitando falação e botando banca.
— É um hobby, um passatempo, e também uma paixão.
― Paixão?! Isso daí serve pra quê? ― Peri nem pra disfarçar o desprezo, falou olhando no olho do mala.
― Paixão, rapaz, não serve pra nada, mas ao mesmo tempo é o que anima tudo. Sem ela um homem nem existe.
— Não é disso que eu tô falando. Pra que zoar os bichinhos desse jeito?
— Bom, essa é a minha pequena brincadeira, com ela me mantenho ligeiro, atento, qualquer um que tenta entrar na minha casa, eu pego no ar. Afina os reflexos. É útil, principalmente pra me livrar de hóspede que não foi convidado.
― Pensei que a casa fosse da mãe da Ceci...
― Escuta aqui, moleque, eu cago montanha pro que você pensa. Se liga que vou te dar a letra: tô te filmando, moleque, melhor pra tu é não demorar no meu terreiro.
— Fica na manha, tio, não vou ficar morando aqui de favor, parece que já tem bastante encostado no pedaço pra caber mais um.
— Tá vendo aquela mariposa ali? Já nem se mexe, tá quase acabando o ar dela, é que nem você: acabou seu tempo aqui, pivete, vaza logo ou vai ficar ruim pro teu lado. Quero você fora hoje mesmo, não importa o que tua amiguinha disser... ei, onde você vai?, tá deixando o bagulho aberto!
― Fecha você. Essa brincadeirinha é pra quem gosta, e, mano, parece que tu gosta bastante.
Ceci e a mãe terminavam de tomar café e se preparavam para sair quando chegou à cozinha. Segunda feira, lembrou de repente, dia de sair cedo pro trampo ou pra escola, quem não tem a vida ganha precisa encarar a labuta. Sem miguelagem nem caô. A real daquela família, até onde Peri entendeu, era a seguinte: dona Vânia ficou viúva com a filha ainda bebê de colo, foi à luta, montou um salão de beleza, e criou a menina na cara e na coragem do jeito que deu. Quando a garota completou dezessete anos, avaliou que já poderia trazer o namorado pra morar com elas.
Aí é que acabava o sossego de Ceci e entrava o joão-sem-braço do Aristeu na história. Boa pinta, arroz de festa e farofa pra qualquer churrasco, o típico playboy de subúrbio chegando na meia idade: conseguia a proeza de ser mosca da academia e da padoca da esquina, além de diretor da escola de samba do bairro. Se fazia de coitado, sempre tinha um chefe que pegava no pé dele nos raros empregos, mas o que ele fazia mesmo era correr atrás de mulher e dinheiro, de preferência, que viessem juntos pra não ter que pegar no pesado.
A amiga tinha prova na escola naquele dia, combinaram de se encontrar depois para resolverem juntos os próximos passos. Ele ficou pela área, zanzando de skate pra matar o tempo. Incrível como parecia conhecer essa menina desde sempre, sentia nela uma confiança nunca experimentada com pessoas que conhecia desde pivete, pensar em Ceci, estar perto dela, vibrava nele uma corda inteiramente nova da alma, viver tinha se tornado para ele mais perigoso e real do que jamais fora. Seria capaz de a reconhecer pelo modo de andar, o perfil, as poses, distinguir seu cheiro inconfundível ou sua voz no meio da multidão.
Cansou de andar sem rumo e decidiu voltar, o dia estava abafado e quente demais. Lembrou da festa de dezesseis anos de um burguesinho que certa vez contratara o seu grupo de street: moleque montado na grana, filhinho de papai, festa open bar, bairro de bacana, segurança na porta e o caramba a quatro, mas um puta cara infeliz. Na época, achou aquilo esquisito, coisa de granfino, mas agora entendia: fugir do perigo, hora a hora, minuto a minuto, lhe trouxera a medida do quanto a vida é cara — e isso é bem mais difícil de descobrir quando a maré está mansa. Entrou pela lateral do terreno, indo direto para a edícula onde estavam as suas coisas. No meio do caminho presenciou uma cena pra lá de esquisita espiando pelo vitrô da sala.



quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

conto de um Natal sem luz


            Há muitos anos o ritual se repete entre eu e o meu irmão, dois solteirões à deriva na noite de Véspera: jantamos, conversamos, chegada a meia noite, trocamos presentes e voltamos cada um para a sua casa. Sem filhos, amigos ou família próxima, numa cidade grande demais, apressada demais para prestar atenção em dois velhos amargos e solitários, passamos o serão a brincar com as nossas vicissitudes, e sempre terminamos por repetir a piada interna de que somos dois pedaços de DNA suicida. É cômico sem chegar a ser trágico, um costume de natalino algo incorrigível, mas inocente.
            Ontem, porém, não foi uma noite igual às outras, alguma coisa aconteceu.
            Um acontecimento que não parece ter realmente ocorrido. Para mim, um pesadelo sem os traços do real, porque os acontecimentos reais deixam restos, marcas, dão uma certa concretude à experiência. Deste acontecimento, o único traço reconhecível é uma faixa — dessas que a polícia usa para isolar uma área por algum motivo — em volta de algumas árvores em cima do canteiro central da avenida na qual eu vivo.
            Foi provavelmente o dia mais chuvoso do ano. Ouvi um homem berrar, demorei para prestar atenção (há uma escola em frente e sempre acontecem muitos eventos e festas por lá nesta época o ano). Não era um grito qualquer. O homem gritava em intervalos regulares, um grito de horror. Debruçado na varanda, vi um rapaz falando com o porteiro, pedi informações dali mesmo e me disseram que alguém estava preso ao fio de alta tensão. Os bombeiros já tinham sido chamados.
            Desci. Será que não havia nada a ser feito, apenas esperar?
            Embora fosse quase em frente ao meu prédio, estava escuro e eu só podia ouvir os urros subumanos, os pedidos de socorro. Estava quase na hora de ir encontrar meu irmão no restaurante que sempre reservamos para a ceia de Natal. Saí com medo, medo de ver, medo de ligar o grito à pessoa — se pessoa ainda houvesse. Naquele momento explodiu o transformador do poste de iluminação, o clarão súbito revelou a silhueta escura presa aos cabos. Nitidamente, senti o cheiro da carne queimada.
            Um cheiro inconfundível de antigamente, do tempo distante quando meu avô matava algum leitão na engorda. O cheiro da pele do animal queimado vivo, o desespero demasiado humano do porco pendurado pelas patas traseiras, o ventre aberto de onde se arrancavam as tripas, esvaziadas para fazer lingüiça, os gritos lancinantes enquanto era dessangrado. Muitos anos depois, vim a saber que entre a facada fatal no coração do bicho e a sua morte decorriam escassos minutos, mas na minha memória infantil eram horas de agonia.
            Não conseguia me mover do lugar, no bolso do paletó, o celular soou furiosamente incontáveis vezes antes que pudesse avisar que estava tudo bem... comigo. Havia umas duas ou três pessoas ali, é verdade que estava escuro e ainda chovia. Só umas duas ou três pessoas. Aquilo não acabava nunca, não achei que se pudesse agüentar tanto tempo, sempre imaginei que o choque por descarga elétrica era algo fulminante. Quando voltei, horas depois, a polícia e o corpo de bombeiros ainda não tinham conseguido remover o corpo. O homem já não existia, mas agora o acontecimento estava ali, ruidoso, iluminado, presente.
            Meu irmão escutou atentamente o relato que, naturalmente, dominou a conversa daquela ceia de Consoada; deixou que eu esgotasse a excitação dos nervos em pandarecos falando sem parar. Contrariamente aos nossos hábitos, pedimos uma segunda garrafa de vinho, perto do momento da despedida ele aproveitou para observar: "É uma pena. Deveríamos estar comemorando a vida, afinal, toda esta história de Natal diz respeito ao nascimento de um menino. Mas nem tudo deu errado, acertei meu presente para você: a gravação completa dos quartetos de cordas de Beethoven, são as últimas composições, o lamento maravilhoso, pungente (e eterno), de um moribundo".
            Pela manhã bem cedo a rua estava vazia e havia uma viatura da polícia que logo depois foi embora. Perguntei sobre o acidente de ontem. Parece que um homem tentou roubar os fios e foi eletrocutado. Mas chovia tanto. Como alguém tentaria roubar os fios em meio a um temporal daqueles? Hoje não tinha gente na rua. Nenhuma notícia no jornal, na internet, no Facebook, apenas um Twitter do corpo de bombeiros. Nem mesmo no grupo de moradores do bairro que costumam publicar acontecimentos que interferem ou preocupam em relação à segurança ou cotidiano dos moradores havia alguma menção ao ocorrido.
            No aparelho de som o quatuor número 15 chegava aos delirantes acordes finais, um dolente allegro appassionato.
            Alguém morreu.
            Um homem gritou desesperadamente muito tempo antes de morrer. Tudo que sobrou são umas poucas árvores decoradas por luzinhas de LED, isoladas por uma fita amarela e preta.


sábado, 20 de dezembro de 2014

Cele... brisou (3)



Mas, como assim, eu mesmo?
Consultava as fotos, visitava a home page, relia uma vez mais, e outra, e nada de entender, continuava na roça. Era como se, em determinado ponto da história, a própria história puxasse os cordões dos sapatos e saísse voando, e ao tocar no solo novamente, voltasse ao chão corriqueiro dos efeitos com causas, mas ainda sem explicar o vôo do pavão misterioso.
Os fatos: há coisa de uns 6 meses, comprei e instalei um aplicativo de gerenciamento de perfil em mídias sociais, o CELEBRIZOU, teoricamente, seria um app para unificar a minha comunicação via notebook, celular, ou tablet, em cada uma das ações dentro da rede, na prática, botei pra dentro da existência virtual um maldito de um vírus que ameaçava destruir meu dia a dia real.
Depois de uma espera surpreendentemente curta ao telefone no serviço de atendimento internacional ao cliente, consegui alguém que falava a minha língua. Ou quase isso. O provável indiano que me respondia do outro lado da linha dava pinta de ter aprendido o português de Portugal, o que lhe conferia algum preciosismo na forma e reforçava o estranhamento da expressão.
― Então, a situação está neste pé que acabei de lhe relatar, senhor...?
― Julian.
― Pois bem, Julian, gostaria de saber o que a sua empresa me recomenda fazer diante disto que lhe contei.
― Caro cliente, a CELEBRIZOU fica muito honrada por nos ter escolhido para gerir suas identidades na rede mundial, nossa principal expertise está em posicionar sua marca pessoal no mercado, mas, como consta do contrato de adesão e dos disclaimers que o senhor...
― Por favor, cut the bullshit, pode ser? Já conheço toda a babiagem de vocês, eu quero é saber como é que desenrola essa fita. Em nenhum lugar está mencionada uma possibilidade assim.
― Com efeito, é singular, mas nem chega surpreender tanto: o nosso produto é um software de inteligência artificial, ele evolui, aprende com o estilo de cada usuário e, com o tempo, ganha um certo grau de autonomia na tomada de decisões.
― Ha, um certo grau?, como piada é excelente, sensacional! Amigo, deixa eu te repetir, tem um cara sinistro me seguindo pra todo lado que eu vou.
― Entenda que nós visamos proporcionar um melhor desempenho na condução de uma persona pública coerente, construtiva e socialmente adequada. As pessoas se arreganham nas redes sociais sem o menor media training, é um perigo que o façam sem orientação, nossa empresa busca diagnosticar, corrigir e prevenir o dano à imagem que tantos se auto-infligem inadvertidamente...
― Todos brisam na celebridade ao alcance de todos, já entendi a ladainha.
― O que deveria ser vida privada, hoje é território público, a grande maioria não leva isso em conta, nos esquecemos rapidamente da “eternidade” e da permeabilidade da internet: sempre há rastos, registros, logs. Veja o seu caso, por exemplo, seu perfil é de um executivo da propaganda, realiza eventos na área de sustentabilidade, e tal, tudo isso condiz pouco com aquelas suas escapadas na Deep Web...
― Aonde está querendo chegar com essa conversa? Seja mais claro.
― Só uma demonstração da abrangência do nosso gerenciador de personalidades. O seu app CELEBRIZOU corrigiu esse probleminha, deletou o navegador Tor do computador pessoal e ajudou-o a emergir para fora do ambiente empesteado da dark net: drogas, lavagem de dinheiro, cartões e documentos hackeados, armas, pornografia da pesada, etc.
― Tá, tá, já captei que vocês são os maiorais, the foddest ones, agora conta pra mim o que você vai fazer concretamente pra me ajudar. Ninguém daí consegue desativar o programa remotamente? E mais, dá pra desinstalar essa porra desse cara da porra da minha vida?
― Não é possível, hãm, o software aprende a desativar os comandos do controle à distância.
― Fabuloso, então você está me dizendo que vende produtos que perdem o controle?
― Posso afirmar-lhe que os nossos produtos obedecem aos mais rigorosos padrões normativos e são projetados com o estado-da-arte da tecnologia informática. O seu avatar pode ter se desenvolvido demais porque o senhor já trabalha com meios de comunicação e...
― Ok. Uma última pergunta: Julian, você é um robô?
A ligação caiu na hora.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #7



E então ele desenrolou o fio tortuoso da sua história, até à ponta do pavio atual que ameaçava explodir o paiol. No meio de tudo aquilo, como a porta do Titanic boiando no mar frio (foi o melhor que conseguiu pensar no momento), havia ela na sua vida, a última esperança antes de ir dormir na rua. E o mais incrível, apesar de ter estragado as guirlandas e arranjos do momento que ela fantasiara tanto, apesar de ter feito a declaração de amor mais bisonha da história da humanidade, foi Ceci ter acreditado imediatamente nele.
Ela intuiu, ou pressentiu adivinhando, lá no fundo do rapaz assustado e trapalhão a mais descarada sinceridade, naquele rosto que começava a amar podia ler uma mensagem ainda não compreendida, mas que inaugurava nela uma necessidade desconhecida e perigosa. Peri abria-lhe o coração, dizia as verdades todas de uma vez, com pressa e atabalhoamento, sem vírgulas, pontos, ou parágrafos, porém com todos os pingos nos is. Nunca tinha conversado assim com um menino, tantas vezes pensou que isso nem era possível.
Bolou um plano maluco. Ceci despediu-se das amigas e os dois se mandaram pra Freguesia do Ó: metrô, ônibus, lotação e um pedaço de ladeira a pé. No caminho combinaram a história longa e cabeluda que contariam à mãe dela: depois de muito vai e vem, no final, Peri era de um grupo de dança de Goiás, que precisava ficar hospedado na edícula desocupada pelo tio recentemente. Só por uns dias. Problema mesmo ia ser dar a volta no Aristeu, seu padrasto, um encostado que a mãe cometera a besteira de trazer para dentro de casa.
Só que os russos não estavam combinados, e eram tudo alemão: a mãe da menina virou onça, subiu nas tamancas, e deu um siricotico de acudir vizinho recusando a idéia brilhante da filha sem noção. Na sala do sobrado, o padrasto ficou só de canto, deixando o circo pegar fogo, calmo, a lixar as unhas, tomava seu cafezinho açucarado casualmente, à espera de meter seus pitacos na conversa. Peri teve de aguardar a decisão do conselho familiar no quintal, dali, ouvia angustiado a cuíca roncar lá dentro.
― Fora de questão, minha filha, nem morta! Só por cima do meu cadáver é que você vai me trazer um moleque, que eu nunca vi mais gordo nem mais magro, pra morar nesta casa. Pode tirar seu cavalinho da chuva, Cecivânia!
― Mas mãe, o Peri é um dançarino conhecido, ele se apresenta direto, vai ser uma turnê curta. E depois, ele é amigo há uma cota, faz um tempão que tá no meu Facebook...
― Ah, bom, agora eu posso realmente ficar sossegada: vocês se conhecem do Face! Puxa, ainda bem, tava quase ficando preocupada! Você sabe lá o que tá falando, trazer alguém assim, que nem conhece direito?
― E você também não trouxe alguém pra morar com a gente?
― Você me respeite, Ceci, uma coisa, uma coisa, outra coisa, outra coisa! Cheirou meia, foi? Depois que fiquei viúva de seu pai me dediquei anos a te criar, agora é a minha vez de ser feliz com uma pessoa que eu sei muito bem quem é. Não achei na rua, não.
― Bom, sempre se pode dar uma pesquisada, esse cara tem algum documento? ― Aristeu remexia o café displicentemente, bicava o melado do fundo da xícara na ponta da colher ― E os pais dele, não podem dar uma telefonada pra sua mãe?
― Ele não... é órfão, só tem a mãe, acho que ela tá... ocupada demais. Mas, escuta, vocês tão achando o quê? Gente, só trouxe um colega da dança pra passar uma noite, ele tá sem mala, inclusive. Será que os valores cristãos que você tanto me fala, mãe, servem pra quê?
A discussão foi braba, mas no fim, Ceci conseguiu da mãe a autorização para que o amigo ficasse na edícula, mas trancado para fora da casa. Aristeu insistiu para ver os documentos dele, o que deixou o moço bem cabreiro. Peri não bateu o santo com o dele de primeira, o padrasto da “sua” mina tinha a maior chinfra de X9, tremenda cara de P2. Foi pra cama mais tarde torcendo pra estar enganado.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Cele... brisou (2)


“Seu” Jamil tinha cara de tudo, principalmente daqueles tiozinhos que organizam a fila na Disneyworld, menos de um detetive de “renomada capacidade e testada eficiência” como constava na biografia do seu site. Praticamente calvo, tinha o cacoete de esticar os raros fios de cabelo com gel, a impressão era de que um hipopótamo acabara de lhe dar uma lambida desde a testa até à nuca. A pança rotunda, a pele escalavrada, o terno marrom, a careca mal assumida, tudo nele conspirava para conferir-lhe a aparência puída de um contador interiorano. Mas o meu James Bond com físico de jogador de baralho cobrava honorários de advogado pica-grossa: recebia por hora e garantia a solução da pendenga em um prazo máximo de uma semana.
― Andou comendo a mulher de alguém? Não? Inimigos no trabalho, processos, ex sócios, ex mulher ou ex namorada rancorosa, herança em disputa, deve dinheiro na praça...?
― Não, nada disso. Já rachei o coco pensando em algumas dessas hipóteses, minha vida não é de fortes emoções, doutor Biscaia. Pra mim o cara é pancada, doidão mesmo.
― Todo mundo é meio detraqué, ao menos um pouco, menos os normais, que são hipócritas. O nosso contrato vai até onde diz respeito à vida do elemento: onde mora, o que faz, e, principalmente, por que está atrás do senhor. Se depois disso quiser dar um susto nele, já não é comigo, embora possa lhe indicar pessoas de minha confiança para o serviço.
― Bom, espero não precisar chegar a esse ponto...
Tão logo deixei o escritório do detetive particular, recebi o telefonema da minha namorada, Liríope, a Lira, uma mulher encantadora que odeia o nome que os pais lhe deram, me entende pouco, mas em compensação me ama muito. Acabara de chegar de viagem (aquela mesma na qual não embarquei), estava louca de saudades e queria me ver. Tomei o rumo do bairro dela, Moema, que àquela hora parecia ser o lugar para onde o mundo queria ir.
O inferno cotidiano do trânsito da metrópole. Liguei a rádio, nas ondas da freqüência modulada rock gospel e as notícias mundo-cão: um psicopata saiu atacando pessoas aleatoriamente, havia tatuado no corpo o número de vítimas que pretendia matar. Menos mal que o pararam a um terço do objetivo. Mudei a estação, melhor evitar aquela trilha de idéias, buscar uma egrégora mais positiva antes de encontrar a Lira, até podia antever a cena: ela, com uma taça de vinho na mão, desfazendo a mala, entregando-me presentes, contando mil pequenas histórias que só ela sabia tornar engraçadas ― tudo isso enquanto fazia um macarrão simples e gostoso.
― Como assim você acha que eu estou indo longe demais nessa história?
― Simples assim: você tem andado um pouco too much, tigrão. Sei lá, pode ser só uma coincidência, você encontrou o cara em dois, três lugares, e encanou na onda da perseguição...
― ... dois, três, lugares? Lira, meu bem, esse xarope tem me seguido em todos os lugares onde eu vou. Você achar que é uma simples coincidência, encanação, isso sim, é que é meio sei lá... Se um cara, ou uma mulher que fosse, te seguisse pra todo canto, você não ia achar que tem algo errado?
― Sim, mas daí você chamou um policial, agora, é o detetive. Onde isso vai parar? Sabe o que eu acho que está acontecendo de errado?
― Por favor, não me esconda nada, afinal, já tô até pagando por essa informação!
― É que tá dando tudo certo pro teu lado: você tá bombando como publicitário, é jovem, bonito, cara, você leva a vida que muitos sonham.
― Hmm, certamente eu estou com a garota que todos gostariam...
― Tá vendo só? Até nisso você tem sorte: é ligeiro, bem humorado, tem tudo a seu favor. Vai ver sente culpa pelo privilégio e por isso é que precisa ficar inventando algum problema que poderia rasgar teu bilhete premiado, quebrar as esferas do dragão.
― Putz, Lira, você consegue ser fofa até quando me esculhamba. Impossível ficar bravo com você. Quer dizer que, pra você, eu estou procurando pêlo em ovo?
Três dias depois de ser contratado, o doutor Jamil Biscaia me procurou: caso encerrado. Só não dava pra acreditar, mas estava tudo lá, numa pasta com fotos, páginas impressas, relatórios e dados explicando e comprovando tintim por tintim.


sábado, 6 de dezembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #5



Não teve dois nem três, Peri saltou de banda e saiu de fininho do esquema dos malucos da Roosevelt. Ali não tinha nada pra ele. Tava com sono, noiado, em todo lugar via rostos conhecidos, e conhecidos davam pista, falavam, davam pala pros bandidos virem catá-lo e metê-lo no paletó de madeira. Não tinha feito nada, não era justo morrer tão jovem. Pôs os fones no ouvido.
Morre negra, morre jovem, morre gente da favela
Morre o povo que é carente e que não passa na novela
28 de Setembro não é só mais um
É dia de luta, não é um dia comum
Direito imediato, revolução de fato
Protesto na batida, ventre livre de fato
Embicou pelo túnel da Radial, seguindo maneiro na estreita calçada margeando o rio de carros, daí caiu pra saída da Rui Barbosa e foi subindo a Treze de Maio até virar à esquerda, bem na altura de pegar o viaduto da Beneficência Portuguesa e chegar suadão no Centro Cultural da Vergueiro. Um upa do carai. Sentou num banco, pra desbaratinar a sede, tomou umas goladas do squeeze de plástico desbotado. Esperou por ela balançando o skate com um pé e marcando a batida com o outro, no corredor onde montou campana, paredes de vidro assentadas na estrutura de concreto serviam de espelho para uma variedade de trupes e grupos ensaiar suas coreografias.
Vai dizer que não sabia?
Vai dizer que é engano?
E ela chegou chegando, causando ― Peri sentiu o terremoto surdo de reações à sua volta ―, os passos ritmados, saracoteando os dreads, criando a cadência como quem evolui em vez de andar, muito negra, linda, na sua roupa descolada a delinear um corpo esperto e flexível, no qual cada movimento parecia se resolver na máxima extensão da leveza e da graça. Aquela menina parecia ter recebido no berço todo o tabuleiro da baiana de qualidades, adivinhava-se imediatamente nela a imponderável mistura de inquietude, sorte e confiança daqueles em que o dom se manifesta sem deixar dúvidas.
Ceci transpirava a beleza bravia, a fúria multicolorida do dragão, e ainda vinha muito samba no pé. Já tinham trocado uma idéia, e até ficou no ar um interesse mútuo, mas sempre se sentira um pouco muito intimidado diante dela.
Pra azar do garoto, o Sweet Nightmare estava na vibe de ensaiar bastante naquele dia, lá estava, lá ficou, ouvindo um som, balançando o pé, devorando a mina com o olhar muquiado pelos óculos escuros comprados no camelô. De vez em quando fingia checar alguma coisa no celular, puro migué, o dele não era espertofone. Haviam se conhecido ali, um dos poucos lugares que ele freqüentava na cidade, ponto de encontro de dançarinos jovens em busca de espaço na cena; pertenciam a tribos diferentes, e ele sacou que as diferenças não paravam no estilo: a mina era bem tratada, roupas e acessórios de marca, enfim, não devia ser burguesinha, mas batata que não era favelada como ele.
― E aí, seu grupo não veio?
― É, tá com jeito que ninguém vai colar hoje...
― Hmm, pelo menos tira esse bico da sua cara, cê tá meio estranho, não? ― ela percebeu a dificuldade dele e resolveu aliviar ― Desculpa, tô fazendo um monte de perguntas idiotas.
― Não existem perguntas idiotas, só respostas. Suave, tô de boa.
“O amor é sempre a resposta, não importa qual é a pergunta”, ela pensou, mas não disse.
― Você... já acabou?
― Bem, acho que ainda vamos rever a filmagem, mas já tá bem redondo, não achou?
― É, sim, você tá muito bem.
― Não perguntei de mim, mas do grupo...
― Então, é que... na real eu tô precisando levar um particular com você, um papo reto. Faz tempo.
― Bom, só se for agora. Tô aqui, agora, tu não pode é querer que eu fale por você. Desembucha logo, não gosto de mistérios. Você tá a fim... de mim?
― Não, quer dizer, sim, ou melhor, também... mas isto nem é o mais importante...
― O que é que pode ser mais importante que isso??
― Não, não era isso que eu queria dizer.
― E o que você queria dizer então?
― Ceci, eu juro que tô limpo nessa, sou trabalhador, faço correria de motoboy pra ajudar minha mãe de coração e nem tenho carteira, mas é que tô num puta angu de caroço, me cagüetaram...
― Fala logo, criatura, tá mais arrastado que novela das oito!
― Então, meu, fizeram minha caveira pros broder da facção, não posso voltar pra casa. Tô na roça, não tenho família. Será que cê sabe onde eu poderia dormir, só por hoje?